Após quase um ano de paralisia política, o Kosovo volta às urnas neste domingo para umas legislativas que prometem determinar o rumo do país – uma aproximação à União Europeia ou o oposto?

Os 1,6 milhões de habitantes do Kosovo, o mais jovem país da Europa, são chamados às urnas este domingo para umas importantes eleições que vão definir a rota estratégica da nação e o seu lugar no continente europeu. O plebiscito tem lugar depois de as eleições legislativas de fevereiro deste ano terem dado a vitória ao partido Autodeterminação, do atual primeiro-ministro interino, Albin Kurti, com 42% dos votos, sem maioria absoluta, com o partido a mostrar-se incapaz de formar uma coligação com qualquer das outras formações políticas com assento parlamentar.

Muitos temem que uma repetição do que aconteceu em fevereiro possa mergulhar o Estado dos Balcãs numa crise ainda maior, apenas quatro meses antes da votação agendada no parlamento kosovar para eleger o seu novo presidente e com os prazos para ratificar empréstimos internacionais também a aproximarem-se.

“Estas eleições serão as mais importantes da história recente do Kosovo, porque acontecem após um ano de impasse, mas também quatro meses antes da eleição de um novo presidente”, explica à Reuters o analista político Artan Muhaxhiri. “Se Kurti vencer novamente com cerca de 42%, todo esse impasse irá repetir-se, porque a diferença entre Kurti e os outros partidos é enorme, intransponível.”

Dado que o Kosovo não divulga sondagens de intenções de voto, há poucos indícios de como é que estas legislativas irão desenrolar-se, após anos de crescente isolamento do Kosovo ao leme do partido de Kurti, cuja abordagem populista e esforços para afirmar a soberania da nação no norte, de maioria sérvia, foram conduzindo a tensões com os EUA e com a UE, que decidiu aplicar sanções a governantes do jovem Estado.

Teme-se que agora, tal como em fevereiro, nenhum dos partidos da oposição queira trabalhar com o Autodeterminação, após terem bloqueado as múltiplas tentativas de Kurti indicar um presidente do parlamento – o primeiro-ministro chegou a disponibilizar-se para renunciar ao cargo na tentativa de apaziguar a oposição. A falta de entendimento levou o atual presidente do Kosovo, Vjosa Osmani, a dissolver o parlamento e a convocar eleições antecipadas em novembro.

Esta é a sétima votação parlamentar do Kosovo desde que o país declarou independência da Sérvia em 2008. Chipre, Eslováquia, Espanha, Grécia e Roménia continuam sem reconhecer o Kosovo até hoje.

Oposição unida?

Antes das eleições de domingo, partidos da oposição como a Liga Democrática do Kosovo (LDK), o Partido Democrático do Kosovo (PDK) e a Aliança para o Futuro do Kosovo (AAK) não demonstraram sinais de alteração de postura em relação a Kurti. “A LDK, o PDK e a AAK veem Kurti como um populista que prejudicou as relações com o Ocidente e sabotou a adesão à NATO e o processo de integração na UE”, diz Haki Abazi, candidato parlamentar da AAK, ao Politico.

Vice-primeiro-ministro durante o primeiro mandato de Kurti, em 2019, Abazi foi posteriormente expulso do partido devido a divergências sobre a direção política ao leme do primeiro-ministro, um homem que classifica como “tóxico e fragmentador”.

Face às tensões políticas, alguns analistas anteveem a possibilidade de os três partidos da oposição formarem uma coligação por forma a evitar um novo impasse político, cenário que Abazi considera “muito provável”, mas que outros, como a deputada Blerta Deliu-Kodra, do PDK, põem em dúvida. Citada pelo político, Deliu-Kodra diz que “ainda não se sabe quais serão os números”, mas que espera que seja possível formar um governo sem Kurti.

Aleksandar Vučić, presidente da Sérvia (à esquerda), diz esperar “uma grande e significativa vitória” do maior partido étnico sérvio do Kosovo. foto: AP

As expectativas é que um novo governo mais pró-UE possa desbloquear o processo de adesão do Kosovo ao bloco, que foi iniciado em 2022, mas que poucos ou nenhuns progressos registou desde então. Numa cimeira recente, a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, anunciou que a UE vai suspender as sanções impostas ao Kosovo desde 2023 devido às tensões com a maioria sérvia do norte, o que levará ao desbloquear de mais de 400 milhões de euros em ajuda financeira.

Sobre a boa notícia pende um outro prazo para o Kosovo aceder ao Plano de Crescimento para os Balcãs Ocidentais, no valor de 6 mil milhões de euros, aos quais não poderá aceder se não conseguir formar governo, já que precisa de implementar reformas e apresentar avanços para conseguir desbloquear esse dinheiro.

“O Kosovo já enfrenta uma batalha árdua devido aos cinco Estados [da EU] que não o reconhecem, e o país não pode dar-se ao luxo de perder mais um ano por causa da incapacidade dos políticos de fazerem aquilo para o qual foram eleitos — apresentar soluções, não criar problemas”, diz Besar Gërgi, especialista em integração europeia do Grupo de Estudos Jurídicos e Políticos, um think tank kosovar, citado pelo Politico.

Tensões com os sérvios

Esta semana, o presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, disse esperar “uma grande e significativa vitória” para o maior partido étnico sérvio do Kosovo, a Lista Sérvia, prevendo que o partido conquistará assentos para “representar os interesses dos sérvios, não de Albin Kurti”.

A par dos cinco Estados da UE, a Sérvia também não reconhece o Kosovo e continua a referir-se ao país como “Kosovo e Metohija”, o seu antigo nome enquanto província sérvia. A UE tentou mediar as relações entre Kosovo e Sérvia por via do Diálogo Belgrado-Pristina, mas os longos anos de negociações produziram poucos resultados concretos.

Os países assinaram um acordo de normalização das relações em 2023, que implica o reconhecimento mútuo da soberania de cada um deles. “Temos de normalizar as relações com a Sérvia – mas normalizar as relações com um regime autoritário vizinho que não nos reconhece e que também não admite os crimes cometidos durante a guerra é bastante difícil”, defendeu Kurti numa entrevista recente com a AFP.

Entre outras exigências, Kurti quer que a Sérvia “entregue Milan Radoičić”, um ex-político da Lista Sérvia suspeito de planear um ataque terrorista no norte de Kosovo em 2023, que resultou na morte de um agente da polícia kosovar. Radoičić é procurado em Kosovo, mas encontra-se atualmente a viver na Sérvia.

O Kosovo conquistou a independência da Sérvia em 2008 com o apoio dos EUA, num processo que incluiu uma campanha de bombardeamentos da NATO em 1999 contra as forças sérvias, então acusadas de travar uma campanha brutal para esmagar uma revolta da maioria étnica albanesa, que representava 90% da sua população.

Apesar do apoio internacional desde então, o país continua a lutar contra a pobreza, a instabilidade política e o crime organizado, sendo que o primeiro mandato de Kurti marcou a única vez em que um governo de Pristina completou um mandato inteiro. Essa instabilidade ficou evidente este ano, quando os deputados precisaram de 73 votações ao longo de seis meses para eleger um presidente do parlamento – um cargo que precisa de ser preenchido antes que o partido vencedor das eleições pudesse tentar formar governo.