São 11 da manhã de uma quarta-feira e o trânsito em Upper Street, no bairro de Islington, no norte de Londres, é simplesmente caótico. Autocarros, táxis, bicicletas e motas de entrega, miúdos de trotinete… a rua seria capaz de tirar do sério qualquer pessoa. Em contraste, os cerca de nove metros quadrados do estúdio da designer de interiores Sara Leonor são um verdadeiro oásis.
Fotografias, plantas e amostras de materiais cobrem as paredes. Quase não há um centímetro livre, mas aqui, ao contrário do que se passa lá fora, respira-se tranquilidade e, sobretudo, uma sensação de ordem.
Sara Leonor, nasceu em Espanha e estudou design de interiores em Madrid, marcando presença na imprensa internacional e nas redes sociais pelos projetos singulares que desenvolve. Mudou-se para Londres há vinte anos, onde vive com o marido e os dois filhos, e está agora trabalhar em várias frentes em simultâneo: desde casas de banho a ampliações (tão comuns nas casas britânicas) e remodelações completas de habitações. Sem dúvida, 2026 promete ser um ano agitado.
Depois de trabalhares algum tempo em Madrid, criaste o teu estúdio de design de interiores – Sara Leonor Studio – em Londres, em 2018. Que diferenças destacarias entre os clientes dos dois países?
Em Madrid, trabalhava numa empresa e fazia interiores comerciais. Agora, faço sobretudo casas. No geral, o cliente com quem trabalho aqui – que não é inglês, mas internacional – é mais detalhista.
Em Espanha trabalhei apenas três anos, mas quando cheguei a Londres descobri que os materiais, a iluminação e a distribuição eram muito diferentes. No que toca aos materiais, aqui as pessoas valorizam a experiência sensorial do material e reparam muito nos detalhes. Também dão grande importância à iluminação, que é predominantemente indireta.
Além disso, em casas, restaurantes e espaços comerciais no Reino Unido, é comum pedirem iluminação regulável – algo que, pela minha experiência, não acontece em Espanha. Aqui, a luz tem sempre um propósito.
Li no teu site que, na tua casa, “utilizaste a cor e os materiais com todo o cuidado, equilibrando calor, personalidade e praticidade”. Essa é a combinação perfeita para qualquer interior?
Para mim, o mais importante é a praticidade. A casa tem de ser prática. E também dou muita importância a uma boa distribuição.
E para ti, o que é um lar?
Um lar é chegar a casa e encontrar tudo o que precisas, com cada coisa no seu lugar. É fundamental entrar e que tudo esteja organizado. Além disso, penso que há coisas que não devem estar à vista. Na nossa casa estamos há cinco anos e, todos os dias, penso no que mais posso fazer para que esteja bem organizada. Sou, acima de tudo, prática.
Voltando aos teus projetos, é evidente que não te esqueces da parte estética. São muito diferentes, como um ático em Londres em tons escuros e materiais naturais, ou o apartamento em King’s Cross, onde fizeste do vermelho a verdadeira estrela. Como definirias o teu estilo?
Gosto da simplicidade, de espaços limpos e de materiais naturais. A minha casa é branca, com toques de cor, mas o meu estilo é definido pelos clientes. Acho divertido quando me pedem coisas fora da minha zona de conforto, porque gosto do desafio que isso implica.
No apartamento de King’s Cross que mencionaste, quando lhes mostrava materiais e cores, pediam-me cada vez mais cor. Percebi que queriam um interior muito ousado e sugeri levar o vermelho ao teto. Consoante os clientes e a sua casa, proponho ideias com as quais se identifiquem, mas no final a decisão é deles. Por isso, todas as minhas casas são diferentes. O ático negro que também mencionaste é outro exemplo, mas agora estou a trabalhar numa casa completamente branca, com muita madeira e um chão de cimento. No fundo, desenhar interiores é como entrar num filme onde tu não és a protagonista.
Há algum espaço nas casas inglesas que as casas espanholas não tenham, mas que gostarias que tivessem?
Uma coisa que adoro na maioria das casas inglesas é que há sempre um espaço que permite ampliar a casa, como um pequeno jardim para fazer uma extensão. Gosto dessa possibilidade de ganhar metros quadrados que existe nas casas inglesas. Foi assim que nasceu o meu interesse pela arquitetura, por querer saber o que mais se pode aproveitar no espaço disponível.
Tens dois filhos em idade escolar, como seria para ti o quarto infantil ideal?
Com cortiça nas paredes para que possam pendurar os seus desenhos, medalhas ou lembranças dos amigos. O quarto infantil perfeito deve também ter muitas gavetas para guardar os materiais de pintura e uma mesa grande onde possam fazer o que quiserem. Como em qualquer outro espaço da casa, também aqui procuro funcionalidade. Sem os desenhos, os quartos dos meus filhos são brancos, com cortiça nas paredes.
No teu site há várias casas de banho, todas diferentes. Como seria a casa de banho perfeita para Sara?
Acima de tudo, gosto que a casa de banho não pareça uma casa de banho. É um espaço pelo qual se entra e se sai constantemente e que todos veem. Por isso, interessam-me casas de banho que não se parecem com casas de banho.
Na maioria das que desenho, coloco portas de correr e uso materiais inesperados, cor e madeira. Além disso, cuido da iluminação e tento evitar resguardos de vidro e os típicos azulejos brancos retangulares de 30 x 30 cm. Procuro espaços acolhedores, com um toque ousado e prático, para não ser preciso limpá-los constantemente.