Viktor Orbán pode ter beneficiado, no mês passado, de um breve aumento das intenções de voto graças a um dispendioso bónus nas pensões, mas enfrenta agora uma corrida contra o tempo até às eleições de Abril para conseguir dar a volta a uma economia estagnada de modo suficiente a que o ajude a prolongar os seus 15 anos no poder.
A tentativa de reeleição de Orbán será acompanhada muito para além das fronteiras da Hungria. Presença incómoda na União Europeia, o líder nacionalista tem no Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, um aliado anti-UE e mantém relações estreitas com o Presidente da Rússia, Vladimir Putin.
No plano interno, no entanto, a economia não joga a seu favor. Os reembolsos do imposto sobre o rendimento que promoveu antes das eleições contribuíram para o aumento da inflação na Hungria – o mais acentuado da Europa –, uma subida que deixou marcas.
Um inquérito do Eurobarómetro realizado no Outono mostrou que o aumento do custo de vida era a maior das preocupações dos húngaros, apesar de um recuo da inflação de máximos superiores a 25% no início de 2023 para valores dentro da faixa de tolerância 2% a 4% do banco central em Novembro.
Atrás dos vizinhos da Europa Central
Embora a subida da inflação tenha elevado os preços dos alimentos na Hungria para níveis próximos da média da UE, o salário médio bruto anual por trabalhador a tempo inteiro era o terceiro mais baixo do bloco, e a despesa com pensões também está entre as mais reduzidas em percentagem do produto interno bruto (PIB).
O complemento às pensões, dirigido a 2,4 milhões de reformados — mais de um quarto do eleitorado —, custará no próximo ano 386 milhões de euros, um custo que aumentará em cada ano seguinte à medida que a medida for sendo concretizada ao longo do próximo ciclo governativo.
A iniciativa deu, no mês passado, um impulso ao Fidesz entre os eleitores mais velhos, segundo um inquérito do centro de estudos 21 Research Centre. A intenção de voto no Fidesz subiu um ponto percentual, para 27% do total dos eleitores, antes de recuar para 26% em Dezembro, quando o apoio ao partido Tisza, liderado por Peter Magyar, aumentou três pontos, para 34%.
David Szollosi, de 83 anos, que recebe o que disse ser uma pensão acima da média, disse que o complemento pode ajudar Orbán a conquistar alguns votos entre os pensionistas, mas não será decisivo para melhorar as condições de vida.
“Este tipo de medidas ajuda a criar uma atitude positiva nas pessoas”, disse Szollosi. “Mas enfrentamos anos bastante incertos pela frente.”
Erzsébet Botlik, antiga operadora de caixa e empregada de limpeza, acolheu com satisfação o complemento a pagar em Fevereiro. Disse que planeia votar no Fidesz, por causa das pensões e da linha dura de Orbán em matéria de imigração, mas admite não se sentir particularmente bem do ponto de vista financeiro.
“Não teria quase nada se não fossem os meus dois filhos [adultos]”, disse Botlik, enquanto esperava na fila para receber ajuda alimentar de uma instituição de caridade, referindo-se ao apoio financeiro que recebe da família.
Gastos difíceis de reverter
As medidas pré-eleitorais de Orbán apresentam também semelhanças com promessas feitas por partidos tradicionais noutros países da Europa Central: podem render votos, mas são politicamente muito difíceis de reverter para quem acabar por vencer as eleições.
A agência Fitch Ratings reviu em baixa a perspectiva da Hungria para negativa, citando as medidas de despesa adoptadas antes das eleições. A agência acrescentou que não se podem excluir novas iniciativas antes do sufrágio, numa altura em que a maioria das sondagens mostra o Fidesz de Orbán claramente atrás do rival da oposição, o Tisza.
Embora tragam alguns benefícios a curto prazo, as medidas relativas às pensões terão custos muito mais elevados a longo prazo. Em Agosto, o Fundo Monetário Internacional alertou que, sem reformas no sistema de pensões, a Hungria caminhava para um “crescimento explosivo” do endividamento após 2030, com a dívida pública estimada em uns impressionantes 255% do PIB até 2054.
Alguns comentários públicos à publicação de Orbán no Facebook, onde anunciou o suplemento às pensões, foram críticos, defendendo antes aumentos das pensões mais baixas ou a indexação aos salários, enquanto outros ridicularizaram a medida, classificando-a como uma “piada” ou “compra de votos”.
Embora o inquérito mensal de confiança dos consumidores da Comissão Europeia tenha recuperado dos mínimos do verão em Novembro, o índice húngaro manteve-se muito abaixo dos níveis registados na vizinha Polónia e na República Checa, cujas economias superaram a da Hungria ao longo do último ano.
O banco central húngaro prevê agora que a inflação desça temporariamente abaixo do objectivo de 3% no primeiro trimestre, o que poderá abrir a porta a um corte das taxas de juro pouco antes das eleições, previstas para Abril — mas tudo isso poderá chegar demasiado tarde para Orbán.
“O problema é que o sentimento continua negativo e não pode ser alterado de forma dramática em poucos meses. O tempo é curto e a quantidade de dinheiro a distribuir é limitada”, afirmou Daniel Róna, director do 21 Research Centre.