Suze Lopez/Facebook

O pequeno Ryu

“Acredito em milagres”, diz a mãe; “isto é de loucos”, disse o médico. Útero estava vazio, mas havia um feto quase no fim do tempo dentro de um saco amniótico, no abdómen.

O caso é considerado extraordinariamente raro e aconteceu recentemente nos EUA, mais precisamente no hospital Cedars-Sinai, em Los Angeles, onde o menino Ryu nasceu milagrosamente, após se ter desenvolvido de maneira muito, muito diferente da do que é comum.

O recém-nascido desenvolveu-se não no útero da mãe, mas na cavidade abdominal, escondido atrás de um quisto ovárico do tamanho de uma bola de basquetebol, avança a CBS News.

Segundo o obstetra John Ozimek, diretor médico do serviço de parto naquele hospital, apenas cerca de uma em cada 30 mil gravidezes ocorre no abdómen em vez do útero. E chegar ao termo da gravidez e ter o bebé, acrescenta, é “praticamente inédito”, com probabilidade “muito, muito abaixo de um em um milhão”.

“Quero dizer, isto é realmente de loucos”, acrescenta o médico.

A mãe, Suze Lopez, tem 41 anos, é enfermeira e vive em Bakersfield, na Califórnia. Só descobriu que estava grávida poucos dias antes de dar à luz o segundo filho e durante meses atribuiu o aumento do volume abdominal ao quisto ovárico que os médicos já acompanhavam desde os seus 20 anos.

O histórico clínico ajudou a mascarar os sinais de gravdez. Lopez já tinha sido submetida à remoção do ovário direito e de outro quisto, mas a massa atual fora deixada no local e estava a ser monitorizada ao longo dos anos. Além disso, a mãe não teve sintomas típicos de gravidez, como náuseas matinais, nem sentiu movimentos fetais. Também não estranhou a ausência de menstruação: o seu ciclo é irregular e, por vezes, passa anos sem período.

Durante esse tempo, ela e o marido, Andrew, mantiveram a rotina e chegaram mesmo a viajar para o estrangeiro. Mas a dor e a pressão no abdómen agravaram-se, levando-a a decidir que estava na altura de remover o quisto, que acabou por pesar cerca de 10 kg. Para realizar uma TAC foi necessário fazer primeiro um teste de gravidez. O resultado positivo apanhou-a completamente desprevenida.

O casal partilhou a notícia de forma igualmente improvável: num jogo de basebol dos Los Angeles Dodgers, em agosto, Suze entregou ao marido um embrulho com um bilhete e um pijama-macacão de bebé.

Pouco depois, Suze começou a sentir-se mal e procurou assistência no Cedars-Sinai. A equipa detetou hipertensão grave e estabilizou o quadro. Seguiram-se análises, ecografia e ressonância magnética, que revelaram um achado completamente milagroso: o útero estava vazio, mas havia um feto quase no fim do tempo, dentro de um saco amniótico, num espaço apertado do abdómen, próximo do fígado. A implantação parecia localizar-se sobretudo na parede lateral da pélvis: perigosa, mas considerada mais “gerível” do que uma fixação direta no fígado.

Especialistas sublinham que quase todas as gravidezes extra-uterinas, conhecidas como ectópicas, acabam por romper e provocar hemorragias se não forem tratadas. Um estudo de 2023 citado pela CBS refere mortalidade fetal que pode chegar aos 90% em gravidezes abdominais e aponta malformações em cerca de um em cada cinco bebés sobreviventes.

Mas apesar dos riscos, mãe e filho sobreviveram. Uma equipa multidisciplinar realizou o parto sob anestesia geral e removeu o quisto na mesma cirurgia. Suze perdeu quase todo o sangue, necessitou de transfusões, mas a hemorragia foi controlada e a recuperação correu bem.

Ryu nasceu com cerca de 3,6 kg e tem evoluído de forma saudável. O nome foi inspirado num jogador de basebol e num personagem da série de videojogos Street Fighter.

“Acredito em milagres”, diz a mãe. “Deus deu-nos este presente — o melhor presente de todos.”


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