João Direitinho encara o cante alentejano, enquanto prática de comunhão coletiva, como uma “resposta cultural” a uma sociedade cada vez mais individualista, em que as comunidades se diluíram.

“Estamos numa sociedade do culto do ‘eu’ e as redes sociais vieram trazer uma pressão em relação aos seguidores, ao dinheiro, às grandes fotografias, aos carros. E a música alentejana, e foi por isso que me apaixonei por ela, reflete muito o hábito que temos de receber bem, de partilhar e de fazer os outros sentirem-se em casa. O cante alentejano nem é bem um estilo musical, é um estilo de vida mesmo, é uma cultura muito mais abrangente do que uma sonoridade, é um sítio onde estamos a trabalhar por algo maior. É pôr de lado o ‘eu tenho que soar bem’, ‘eu tenho que crescer’, para meter à frente o ‘temos de trabalhar para isto que nos pertence’, ‘temos esta missão com a nossa cultura de passar isto aos mais novos’. De lhes mostrar que o bonito na vida não é chegares ao pé do teu avô e dizeres que tens um Ferrari, é dizeres ‘avô, ‘bora cantar aquela canção que cantavas para mim quando era pequenino’. Aquelas canções à mesa, na taberna, no Natal… O cante alentejano vem dar uma resposta muito bonita a esta fase, porque é uma resposta cultural, não é invasiva. É artística e leve, de sermos uma comunidade, de podermos dar a mão uns aos outros, de cantarmos em conjunto por algo que é nosso e que nos une. É chegarmos a um sítio e cantarmos todos juntos, cada um com a sua voz, umas mais agudas, outras mais desafinadas, outras com uma dicção menos percetível, mas quando entra toda a gente está a soar bem — e isso é o reflexo daquilo que deve ser uma comunidade, é todos juntos.”

Isso também se reflete, argumenta o músico e manager dos Vizinhos, na maneira como as comunidades alentejanas têm percecionado o sucesso destes artistas fora de portas. “Sente-se que existe esse agradecimento. Hoje em dia entro em restaurantes em Évora e estão lá expostos os quadros de platina dos Vizinhos… há este orgulho. E o nosso trabalho também é mostrar que Évora é um sítio espetacular para se viver, para se criar família e os nossos projetos. Também tentar desmistificar com a malta mais nova aquela coisa de que temos de ir para Lisboa para termos sucesso. Não, dá para fazer cá. A maior parte da nossa equipa é de Évora, as músicas são gravadas no Redondo, os nossos técnicos são quase todos do Alentejo. E a coisa funciona.”

Quando perspetiva o futuro do cante alentejano, Buba Espinho distingue dois eixos. O primeiro passa por “preservar a mensagem dos ancestrais” e por manter uma ligação às bases. “Quem quer que se apresente como artista de música tradicional do Alentejo tem que estar ligado aos grupos corais ou aos grupos de folclore da sua terra, porque é a origem de quase tudo, é na banda filarmónica ou no grupo coral. Por isso é muito justo, nesta fase das nossas carreiras, continuarmos a olhar para trás. Hoje posso convidar um grupo coral e dar-lhe um cachet merecido e é o que vou fazer e é o que o Zambujo também faz. Sinto que, no cante alentejano, nunca houve esta coisa dos mais velhos olharem para os mais jovens e dizerem: ‘lá estão os meninos a fazer coisas novas, isso não presta’. Senti sempre o contrário, senti sempre apoio e orgulho, e já gravei canções muito estranhas, com projetos muito diferentes. Portanto, agora quando temos capacidade para enquadrar os grupos em salas e festivais maiores, vou ser sempre o primeiro a fazê-lo. Nós só também lá chegámos porque eles nos deram identidade, nos deram terra.”

O segundo eixo, aberto à modernidade, tem a ver com “continuar a fusão e experimentar o cante alentejano com outros géneros”. A internacionalização do cante alentejano, um objetivo ambicionado por muitos mas que se torna desafiante pelas enormes comitivas dos grupos corais — o que torna o investimento muito mais dispendioso comparativamente à grande maioria dos projetos musicais — é difícil, mas não impossível, defende, dando o exemplo de quando em maio deste ano António Zambujo atuou com o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento na Expo 2025 de Osaka, no Japão.