A 23 de dezembro de 1975, em Cardiff, no Reino Unido, enquanto a família Parsons ultimava a festa de Natal, alguém bateu à porta. A silhueta que se desenhava atrás do vidro da porta já não era familiar. “Não sabes quem eu sou?”, perguntou o homem. “Sou o Ronnie Lockwood”. A visita inesperada que aguardava na soleira da porta, com um saco com os seus pertences numa mão e um frango congelado na outra, tornar-se-ia, sem que o jovem casal ainda soubesse, parte da família por mais 45 anos.
Quando o homem, de roupas sujas e barba por fazer, se apresentou, o nome evocou imediatamente a imagem de um rapaz com problemas nos joelhos que aparecia ocasionalmente nas aulas de catequese que Rob e Dianne Parsons frequentavam quando eram crianças. “O Ronnie era diferente”, recorda Rob, agora com 76 anos. “A Senhora Williams, a nossa catequista, dizia que ele não tinha uma família como a nossa. Avisava-nos das consequências se fôssemos maldosos com ele. Como tinha problemas nos joelhos, não corria muito bem, por isso normalmente conseguíamos correr mais rápido do que ele”, refere, citado pelo jornal The Telegraph.
O rapaz, no espectro do autismo, desapareceria das aulas de Dianne e Rob mais tarde, aparecendo esporadicamente ao longo dos anos num grupo da igreja com “a aparência de alguém que andava de um lado para o outro sem rumo”, acrescenta ainda àquele jornal. Ronnie foi retirado aos pais, passado de lar em lar, todos marcados por abusos. Aos 16 anos ficou sem casa, tendo vivido em condições precárias. Sobreviveu sozinho durante anos sem qualquer segurança ou rede de apoio.
À data do encontro com o casal Parsons, Ronnie tinha então quase 30 anos. “Para ser honesta, não creio que ele tivesse vivido muito mais se não o tivéssemos acolhido”, contou Dianne, de 75 anos. Rob, que tem mais dois anos, vai mais longe: “Ele era maravilhoso, mas também terrivelmente despedaçado”. Depois daquela visita, o convidado inesperado nunca chegou a partir, acabando por viver com os Parsons durante 45 anos.
No início, não havia plano para o que fazer com Ronnie. “Nem sequer nos sentámos para falar sobre isso a sério”, referiu Dianne, citada pelo The Telegraph. “O que fizemos, de muitas maneiras, não foi sensato e certamente não é algo que se possa repetir facilmente”, acrescenta Rob. “Mas faríamos tudo de novo. Continuaríamos a abrir a porta e a dizer: ‘Fica a noite. É Natal, ele não pode ir embora’”.
Ronnie tornou-se trabalhador do lixo e ajudava dentro e fora de casa dos Parsons. “E, em nossa casa, na nossa família, teve a oportunidade de dar. Acho que isso mudou tudo”, conta Rob. Testemunha de todos os momentos da vida familiar, quando chegou a Covid-19, Ronnie tinha já 75 anos. Com problemas de saúde e já internado num hospital, o casal esteve junto dele, cantando-lhe até as músicas infantis da catequese onde se conheceram.
Embora à data apenas 50 pessoas pudessem ir ao funeral, por se estar em plena pandemia, Rob explica ter recebido pelo menos cem cartões de condolências de pessoas, desde “professores da Universidade de Oxford, a políticos e desempregados”.
Rob Parsons escreveu sobre a vida da sua família com Ronnie no livro “A Knock at the Door”. O livro conta a experiência de conviver com o homem que, aparecido à sua porta no inverno de 1975, se tornou algo entre um filho e um amigo querido dos Parsons. “No final”, explica Dianne, “o sem abrigo deu-nos a todos uma casa”.
Texto editado por Carlos Diogo Santos