No último ano tenho passado por diversos processos de adaptação à doença e à dor, e vejo que é realmente um processo muito complicado. E uma das coisas mais interessantes para mim foi compreender como continua a ser difícil apesar de todo o conhecimento que tenho. Na verdade, foi um choque perceber que o saber científico não nos protege da nossa própria vulnerabilidade. Mas ter ouvido antes de chegar aqui tantas histórias de pessoas com dor, tão diferentes, deu-me uma bagagem que acabou por me ajudar no meu caminho.

O processo de doença e de dor não é bonito. A mim, não me trouxe nada de bom, nem fez de mim uma pessoa melhor. Quando muito, enfatizou uma característica que sempre tive: ser muito assertiva e ter o coração na boca. Hoje talvez seja muito mais capaz de não me sujeitar a fazer fretes. Digo com mais facilidade “não quero”, “não gosto”, “não me apetece”. Livro-me, sem culpa, do que não me interessa.

Por outro lado, acho que me deu uma empatia acrescida. Claro que eu sempre fui capaz de ter empatia, até porque fui formada para isso, mas agora percebo, realmente, muitas das narrativas partilhadas por quem entrevisto de uma forma diferente.

A nossa dor é sempre nossa. É tão íntima que, por vezes, parece impossível partilhá-la. E pode ser tão grande que parece impossível lidar com ela.

Quando alguém diz a um profissional de saúde “Prefiro morrer a viver assim”, a reação muitas vezes é de espanto, medo ou incompreensão. Há quem entenda essa frase como um desejo literal de morrer. Há quem, com a melhor das intenções, fuja do desconforto e responda com lugares-comuns: “Pense nas coisas boas, nos seus filhos, nos seus netos.”

Hoje, vivendo este processo de doença e de dor, percebo esse sentimento de uma forma que nunca percebi como profissional. Tenho tantas coisas boas na minha vida — uma filha extraordinária, um marido maravilhoso, amigos que nunca me largaram, colegas incansáveis, um trabalho que adoro — e, ainda assim, há momentos em que me dói cada osso do corpo e penso precisamente isso: “prefiro morrer a viver assim”. Não porque queira realmente morrer, mas porque, naquele instante, a dor é muito grande e tenho dificuldade em lidar com ela. E depois há as nossas boias — e cada pessoa tem as suas — que nos mantêm à tona quando tudo pesa.