Na última semana, estreou nos cinemas brasileiros o terceiro filme de uma das franquias de maior sucesso da carreira de James Cameron, e de toda a história do cinema: ‘Avatar: Fogo e Cinzas‘. Dando continuidade aos eventos do segundo filme, agora “o conflito em Pandora aumenta quando Jake e Neytiri encontram uma nova e agressiva tribo Na’vi”, narra a sinopse.

A franquia começou com ‘Avatar‘, em 2009, que se tornou o filme que arrecadou a maior bilheteria da história do cinema (cargo este que ocupa até hoje), ao apresentar um mundo fantástico impressionante, em uma das principais obras de ficção científica do século 21. A continuação, ‘Avatar: O Caminho da Água’, estreou em 2022, e é atualmente a terceira maior bilheteria da história.

No cerne da franquia está o humano Jake Sully (Sam Worthington), que assumiu o corpo de uma raça alienígena chamada Na’vi, que habita o planeta de Pandora, ao lado de outros membros de sua equipe, tornando-se assim seus Avatares. A missão tinha como pretensão inicial uma exploração militar humana da região para saquear recursos, mas terminou com uma conciliação entre Jake Sully e os Na’vi — criando assim uma obra bastante crítica à exploração dos recursos naturais e os impactos ambientais da brutalidade humana em novos ambientes, em contexto colonizatório.

E para tanto, James Cameron acabou se inspirando em várias culturas que já existiram ou ainda existem na terra, além de tribos e eventos do mundo geral. “As pessoas são inerentemente empáticas […]”, disse o cineasta à People em 2024. “Elas desejam inerentemente uma conexão umas com as outras. Elas desejam inerentemente a beleza. [Avatar] é sobre beleza, é sobre conexão, é sobre valores positivos, e isso parece estar funcionando”.

Por mais que ‘Avatar’ não se baseie exatamente em uma história real, James Cameron já confirmou que a trama é inspirada em vários momentos históricos. Porém, se algum período vale destaque particular, é o contexto da colonização europeia.

Em outubro de 2012, durante um depoimento judicial, Cameron defendeu que ‘Avatar’ não era uma cópia de qualquer filme ou série já existente, mas apenas uma releitura da colonização europeia das Américas. “Avatar é uma releitura de ficção científica da história da América do Norte e do Sul no início do período colonial”, afirmou. “Avatar fez referência muito direta ao período colonial nas Américas, com todos os seus conflitos e derramamento de sangue entre os agressores militares da Europa e os povos indígenas. Europa é igual à Terra. Os nativos americanos são os Na’vi”.

Se considerar o personagem do Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) tem como objetivo saquear Pandora e todos os seus recursos naturais possíveis, essa comparação também faz sentido. Já os Na’vi, sendo retratados como um povo empático e espiritual, que busca proteger sua terra e valorizar seus recursos, são um paralelo bastante evidente com os povos nativos americanos.

Os Na’vi se tornaram figuras emblemáticas da cultura pop, com seus corpos altos, esguios e, o que mais chama atenção, azuis. E a inspiração para esse visual foram deuses hindus da vida real, frequentemente retratados com pele azul. Vale destacar que até a palavra “Avatar” possui um significado em sânscrito: “descendência”.

De maneira mais específica, no hinduísmo, Avatar se refere aos deuses que descem dos céus e assumem diferentes formas, humanas ou animais. “[Um Avatar é] a encarnação de um dos deuses hindus assumindo uma forma humana”, disse Cameron à Time em 2007. “Neste filme, isso significa que a tecnologia humana no futuro é capaz de injetar a inteligência de um humano em um corpo localizado remotamente, um corpo biológico”.

Cena de ‘Avatar’ (2009) / Crédito: Reprodução/20th Century Fox

Já outro aspecto relevante relacionado aos Na’vi é a língua em que eles se comunicam, que foi criada de maneira complexa para os filmes. Segundo a People, um professor da Universidade do Sul da Califórnia foi contratado para criar este dialeto, e ele se inspirou em uma infinidade de línguas diferentes de todo o mundo para desenvolvê-lo.

Paul Frommer é um especialista em linguística da USC, e nós o contratamos para criar um idioma”, relatou Cameron em 2010 à Entertainment Weekly. “[Os Na’vi] tinham um pouco de influência polinésia/maori devido ao tempo que passei na Nova Zelândia e em outros lugares da Polinésia. Então ele usou algumas raízes polinésias — mas também há algumas africanas, indígenas americanas, até mesmo alguns elementos das línguas latinas — e depois misturou tudo com a estrutura de frases alemãs, onde o verbo vem por último”.

Um dos aspectos mais deslumbrantes da franquia é a geografia bastante única e praticamente mágica de Pandora. Uma lua alienígena habitável, exuberante e colorida, o lar dos Na’vi salta aos olhos — quase literalmente, no caso dos que assistiram aos filmes em 3D — com montanhas e penhascos flutuantes, e árvores gigantes e elegantes.

O cineasta comentou que sua inspiração para criar Pandora veio de vários destinos belos que existem ao redor do mundo, mas um destaque especial vai à China. “[Nos inspiramos em] muitos tipos diferentes de montanhas, mas principalmente nas formações cársticas de calcário da China”, escreveu o designer Dylan Cole em um livro complementar do filme. “Havia três regiões principais: Guilin, Huangshan e Zhangjiajie. Outros locais foram os tepuis na Venezuela, bem como as formações cársticas na Tailândia”.

“Tratava-se de encontrar o equilíbrio perfeito entre rocha e vegetação. Para muitas das vistas da selva, usei fotos que tirei do teleférico Kuranda Skyrail, perto de Cairns, na Austrália”, continuou Cole.

No segundo filme da franquia, ‘Avatar: O Caminho da Água‘, James Cameron expandiu o mundo da Pandora ainda mais ao deixar um pouco de lado as imponentes florestas do primeiro filme, para apresentar uma cultura oceânica bastante distinta. E, com isso, também fomos apresentados a um novo grupo Na’vi, a tribo Metkayina.

Segundo Cameron, os Metkayina foram inspirados em culturas indonésias, com destaque ao grupo Sama-Bajau. “Pesquisamos bastante sobre culturas indígenas reais que estão intimamente ligadas ao oceano”, disse o cineasta à National Geographic.

“A questão era: como podemos pegar a cultura indígena aqui do nosso planeta e analisá-la sob a perspectiva de Pandora? Há os Sama-Bajau, um povo na Indonésia que vive em palafitas e jangadas. Analisamos coisas assim”, acrescentou.

Cena de ‘Avatar: O Caminho da Água’ / Crédito: Reprodução/Walt Disney Studios Motion Pictures

Agora, em ‘Avatar: Fogo e Cinzas‘, um diferencial está no fato de os novos vilões não serem simplesmente os humanos, mas uma outra tribo Na’vi ainda não apresentada: o clã Mangkwan, ou mais comumente conhecida como Povo das Cinzas. Após terem seu lar destruído, os Mangkwan adotaram uma ideologia mais sombria que outros Na’vi já conhecidos, priorizando o fogo e a tecnologia em detrimento da espiritualidade.

Nesse caso, Cameron revelou que a inspiração veio de uma expedição de 2012 à Papua Nova Guiné, em que viu uma cidade soterrada por cinzas vulcânicas, bastante semelhante a Pompeia. Porém, ao observar crianças brincando em meio às cinzas, ele percebeu que, possivelmente, elas não tinham conexão com o conhecimento das gerações anteriores, enquanto ainda experienciavam traumas geracionais — o que foi um prato cheio para criar o Povo das Cinzas.

“Eu vi essas crianças brincando nesses campos de cinzas, e era assim que a poeira estava levantando”, afirmou Cameron ao MovieWeb. “Nós as filmamos em câmera lenta para o filme, e eu quase acho que havia uma certa esperança nisso. A destruição não os afetava porque era de uma geração anterior; dava para ver que eles tinham ficado profundamente traumatizados com esse evento. Eles tinham perdido muito. E eu pensei: ‘Ok, vamos chamá-los de povo das cinzas’”.

Além do Povo das Cinzas, o novo filme também introduz um novo clã conhecido como os Mercadores do Vento, que voam pelos céus em criaturas gigantescas de Pandora. “Eles são comerciantes nômades, equivalentes às caravanas de camelos da Rota das Especiarias na Idade Média”, explicou Cameron à Empire. “E sabe, eles são simplesmente divertidos. Como todos os Na’vi, eles vivem em simbiose com suas criaturas”.


Éric Moreira

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.