Daniel Dominguez / CERN

Conceito artístico de um Campo Brout-Englert-Higgs

Um novo trabalho teórico sugere que o comportamento fundamental da natureza pode surgir diretamente da estrutura do espaço-tempo, apontando para a geometria como a origem comum das interações físicas.

Um novo estudo apresenta uma forma de contornar o campo de Higgs como fonte das massas das partículas, oferecendo uma nova ferramenta para compreender como o próprio campo de Higgs poderá ter surgido.

O estudo, apresentado num artigo publicado na Nuclear Physics B, abre possíveis caminhos para responder a algumas das lacunas persistentes no Modelo Padrão da física de partículas, e sugere que as massas de partículas fundamentais como os bosões Z e W podem ter origem na geometria “torcida” de dimensões ocultas.

“Na nossa perspetiva, a matéria emerge da resistência da própria geometria, e não de um campo externo”, explica o físico teórico Richard Pinčák, investigador da Academia de Ciências da Eslováquia e primeiro autor do estudo, ao Science Daily.

O campo de Higgs foi inicialmente proposto nos anos 60 por Peter Higgs, como explicação para a razão pela qual as partículas fundamentais têm massa – um grande problema que dificultava a construção de um modelo coerente para a física de partículas. Foi, em parte, graças ao campo de Higgs que os físicos conseguiram estruturar o Modelo Padrão em que atualmente confiamos.

Eis como funciona: imagine que o Universo está preenchido por uma substância  pegajosa, que funciona como uma “cola invisível”. Todas as partículas que se movem através do Universo estão também a deslocar-se através dessa substância, e cada partícula interage com ela de forma ligeiramente diferente.

As partículas que interagem fortemente com esta “substância”, como se estivessem a atravessar lama, comportam-se como “pesadas”, tal como os bosões W e Z. As que quase não interagem são “leves”, como os eletrões. Os fotões não interagem de todo.

Esta interação é conhecida como mecanismo de Higgs e explica de forma bastante elegante as massas das partículas.

Sabemos que o campo de Higgs é real, porque a sua ondulação quântica, o famoso bosão de Higgs, popularmente conhecido como a “partícula de Deus“, foi finalmente descoberto em 2012, no Grande Colisor de Hadrões. Contudo, isso não significa que o mecanismo de Higgs seja toda a história.

Continuamos, por exemplo, sem saber por que razão o campo de Higgs tem as propriedades que tem. Além disso, a solução do Higgs não explica a matéria escura, a energia escura, ou sequer porque existe o próprio campo de Higgs.

Há informação em falta algures – e Pinčák e os seus colegas acreditam que algumas pistas podem residir numa geometria oculta, segundo o seu estudo de um espaço de 7 dimensões chamado variedade G2.

Uma variedade é um tipo de espaço matemático “topológico”, que se parece localmente com um espaço euclidiano nas vizinhanças de cada ponto; é um termo geral usado para qualquer “forma” que possa apresentar curvas, dobras ou torções.

Os físicos recorrem frequentemente a variedades para descrever a geometria do espaço-tempo, ou as dimensões extra ocultas que são propostas em algumas teorias, como a teoria das cordas, explica o Science Alert.

Estes espaços podem ter mais direções do que as habituais cima-baixo, esquerda-direita e frente-trás do nosso dia-a-dia. Algumas exigem 7 direções independentes. Uma variedade com uma estrutura específica de 7 dimensões, organizada de forma muito restrita, é denominada variedade G2.

Os investigadores criaram uma nova equação, designada fluxo de Ricci-G2, que lhes permitiu modelar a evolução temporal de uma variedade G2.

“Tal como nos sistemas orgânicos, como a torção do ADN ou a quiralidade dos aminoácidos, estas estruturas extra-dimensionais podem apresentar torção, uma espécie de torção intrínseca”, explica Pinčák.

“Ao deixarmos estas estruturas evoluir no tempo, verificámos que podem estabilizar-se em configurações estáveis, denominadas solitões. Estes solitões poderão fornecer uma explicação puramente geométrica para fenómenos como a quebra espontânea de simetria”.

Um solitão é como uma onda única e auto-sustentada que pode manter a sua forma indefinidamente. Os investigadores observaram que a sua variedade G2 se relaxava precisamente para uma configuração estável deste tipo – e que essa configuração continha uma “torção” que ficava “impressa” nos bosões W e Z, produzindo exactamente o mesmo efeito de atribuição de massa que o mecanismo de Higgs.

Os resultados sugerem ainda, de forma preliminar, que a expansão acelerada do Universo pode estar ligada à curvatura causada por este tipo de torsão associada à variedade G2. Se essa torção se comportar como um campo, deverá manifestar partículas, tal como o campo de Higgs dá origem ao bosão.

Os investigadores chamaram a esta partícula hipotética “Torstone” e descreveram como deveria comportar-se.

Se existir, o Torstone poderá ser detetável em anomalias de colisores de partículas, estranhos desvios no fundo cósmico de micro-ondas, e até em anomalias nas ondas gravitacionais. A sua existência está longe de estar provada, mas se o campo de torção existir, agora sabemos por onde começar a procurar.

É um conceito ousado e complexo, mas também o campo de Higgs o foi na sua época, e foram precisos quase cinquenta anos para provar a sua existência.

Espera-se que não seja necessário esperar tanto tempo por respostas relativamente às possíveis variedades G2, mas, para já, esta abordagem promete abrir caminho para soluções de algumas das questões mais prementes.

A Natureza prefere frequentemente soluções simples“, diz Pinčák. “Talvez as massas dos bosões W e Z não provenham do famoso campo de Higgs, mas sim diretamente da geometria de um espaço de sete dimensões”.


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