As outras precisavam do nome ou de uma alcunha. A BrigitteBardot bastavam as iniciais, B.B., para ser reconhecida em todo o mundo. De uma beleza fora deste mundo, uma feminilidade exuberante e uma sensualidade ardente, que nunca excluíram a alegria e a doçura, espontânea no seu erotismo como no seu comportamento, independente e desempoeirada, BrigitteBardot antecipou a modernidade para as mulheres, a revolução dos costumes e o feminismo (que, aliás, execrava). E foi uma das maiores expressões vivas da pujança, do optimismo, da confiança e da afirmação da França gaulista e das “trente glorieuses”, as três décadas de progresso e prosperidade do país desde os anos 50 até ao fim dos anos 70.
Supremo objecto de desejo dos homens, admirada, invejada e imitada pelas mulheres, B.B. foi um dos mais poderosos e importantes símbolos, e representantes culturais e da imagem da França no estrangeiro, tendo de Gaulle dito que era tão valiosa para o PIB do país como a Renault. Admirada e elogiada por figuras tão diversas como Jean Cocteau (“Ela vive como toda a gente não sendo igual a ninguém”) e Roland Barthes (“Ela não é mais licenciosa do que qualquer outra, mas simplesmente mais libertada”), Bardot dominou olimpicamente o cinema francês dos finais da década de 50, quando irrompeu em E Deus Criou a Mulher (1956), de RogerVadim, o seu Pigmalião e primeiro marido, até 1973, quando se fartou dos filmes – tinha só 39 anos – e decidiu sair de cena, e dedicar-se inteiramente à sua fundação para a defesa dos animais.
Gaulista ferrenha e grande patriota, B.B. nunca teve papas na língua quando se tratou de apontar os males de que a França padecia e de que se ressente cada vez mais, por culpa de sucessivas gerações de políticos, e por isso sofreu a indignidade de ser condenada e multada várias vezes por “afirmações racistas”. Mas mau-grado a azia de boa parte da classe política e o escárnio da esquerda bem-pensante, a esmagadora maioria dos franceses continuou a admirá-la e a acarinhá-la, ela que foi escolhida para ser o modelo do busto de Marianne, a personificação feminina da República, corporizou como nenhuma outra a mulher francesa do século XX e foi a sua mais avassaladora manifestação cinematográfica.
Emblema superior do cinema francês, alçada a alturas míticas e a uma eternidade só atingidas por nomes como Jean Gabin, Alain Delon, Jean-Paul Belmondo, Jeanne Moreau ou Catherine Deneuve, B.B. era uma actriz natural e instintiva que sabia compreender as personagens, e as suas qualidades inatas de “estrela” supriam quaisquer limitações dramáticas que tivesse. Como as maiores e mais genuínas “estrelas”, bastava-lhe ser ela mesma, interpretar-se a si própria, passear todo o seu esplendor feminino e deixar que a câmara a celebrasse. Eis seis filmes fundamentais de BrigitteBardot.
‘E Deus Criou a Mulher’, de Roger Vadim (1956) – Brigitte Bardot já tinha aparecido em vários filmes antes deste, mas foi E Deus Criou a Mulher, do seu então marido Roger Vadim, que a transformou de starlette e gamine sensual de 22 anos em estrela de cinema e símbolo sexual de dimensão mundial. Ela é Juliete Hardy, a loira de cintura de vespa e andar provocadoramente ondulante, que obceca homens velhos e novos ao mesmo tempo, passeando-se por Saint-Tropez e dançando arrebatadamente em Technicolor. Vadim tinha criado a mulher do pós-guerra e do século XX por excelência, e um dos mitos supremos do cinema. E em pouco tempo B.B. fugiria ao seu controle de marido e gestor de carreira.
‘Um Caso Perdido’, de Claude Autant-Lara (1958) – Antes de contracenar com B.B. em Um Caso Perdido, adaptado de um livro de Georges Simenon, Jean Gabin chamava-lhe “aquela coisa que se passeia nua”. Depois, passou a gabar-lhe o seu “verdadeiro profissionalismo”. O monstro sagrado do cinema francês inclinava-se ante este jovem e capitoso fenómeno da tela. Bardot interpreta Yvette Maudet, uma ladra que não hesita em jogar a cartada da carnalidade para sobreviver, e que é defendida por André Gobillot (Gabin), um advogado prestigiado, casado e muito mais velho que ela, e com o qual acaba por se envolver e levar a violar a ética profissional. Causou escândalo à época a sequência em que Yvette levanta o vestido sem ter nada por baixo.
‘A Verdade’, de Henri-Georges Clouzot (1960) – A rodagem deste policial jurídico foi tempestuosa devido aos extremos de exigência a que Clouzot submetia os actores com que trabalhava. Ele e B.B. chegaram a andar à bofetada, e a actriz tentou suicidar-se depois das filmagens, alegadamente pela forma como foi tratada pelo rigorosíssimo autor de O Salário do Medo e As Diabólicas. Mas Bardot é fabulosa no papel de Dominique, uma rapariga da província que mata o seu amante, não se sabendo se o crime foi premeditado ou acidental. E não se deixa intimidar pela presença de actores com o arcaboiço de Charles Vanel ou de Paul Meurisse, este interpretando o advogado de acusação que atormenta Dominique em tribunal.
‘Vida Privada’, de Louis Malle (1962) – Brigitte Bardot contracena com Marcello Mastroianni nesta fita em que Louis Malle a pôs a interpretar uma estrela de cinema chamada Jill cuja vida privada se ressente da sua celebridade e da forma como os fãs e os jornalistas a perseguem. Malle transpôs assim para a tela, e com o necessário exagero e as liberdades exigidas para fins dramáticos, a situação pessoal de B.B. perante o seu estrelato e a dimensão mundial da sua fama, bem como face à comunicação social e à forma como era tratada e representada por esta. Bardot aceitou e venceu este desafio, e ela e Mastroianni vão mesmo muito bem um com o outro, e Louis Malle haveria de a dirigir em mais dois filmes.
‘O Desprezo’, de Jean-Luc Godard (1963) – Muitos dos admiradores de B.B. torcem o nariz a este filme de Jean-Luc Godard, enquanto que boa parte dos incondicionais do realizador acham que Bardot nunca esteve tão bem como quando foi aqui dirigida por ele. B.B. personifica a belíssima mulher de um argumentista (Michel Piccoli) que está a escrever um filme de Fritz Lang (interpretado pelo próprio), e cujo casamento começa a ser posto em causa quando ela sente que o marido a está a usar para cair nas graças do produtor (Jack Palance). Bardot não gostou de trabalhar com Godard e ficou com péssima impressão dele (“Um homem sinistro”, diria), mas mesmo apesar disso, O Desprezo é um dos momentos maiores e mais duradouros da sua filmografia.
‘O Urso e a Boneca’, de Michel Deville (1970) – Três anos antes de se retirar do cinema, à beira de celebrar o seu quadragésimo aniversário, e de entrar para a lenda em definitivo, Brigitte Bardot contracenou com Jean-Pierre Cassel nesta comédia romântica da vertente “guerra entre os sexos”, passeando de novo os seus dotes cómicos para quem ainda não tinha reparado neles. Ela é Felicia, a “boneca”, uma parisiense rica, sedutora e senhora do seu nariz, Cassel é Gaspard, o “urso”, um músico que vive numa mansão no campo com o filho e três sobrinhas, e gosta de calma e de ser deixado em paz. Um dia, os seus carros chocam, um choque que é também entre dois mundos completamente diferentes. E Felicia decide seduzir Gaspard, porque ele não quer nada com ela e com o que representa.