Marcado pela cor vermelha, dezembro é o mês dedicado à prevenção e ao enfrentamento ao HIV, à aids e a outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). A mobilização nacional busca ampliar o acesso à informação, estimular o diagnóstico precoce e combater o estigma em torno dessas infecções.

Apesar dos avanços na testagem e no tratamento, especialistas alertam que ainda há desafios importantes, especialmente no Rio Grande do Sul, onde os indicadores seguem entre os mais altos do país. Nos últimos dez anos, o Brasil registrou queda de 25,5% na mortalidade por aids, segundo dados do Ministério da Saúde. A melhora é atribuída à ampliação de terapias mais eficazes e ao fortalecimento da rede de assistência.

Ainda assim, cerca de 30 pessoas morrem diariamente em decorrência da doença no país. O aumento de outras infecções, como a sífilis, também preocupa especialistas e reforça a necessidade de manter práticas de prevenção e testagem regular.

Para o chefe do Serviço de Infectologia da Santa Casa de Porto Alegre e coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia, Alessandro Pasqualotto, o estigma segue sendo uma das principais barreiras para o diagnóstico precoce. “O maior problema não é a falta de testes ou de acesso ao sistema de saúde, mas sim o preconceito e o medo. Muitas pessoas acham que não correm risco, têm receio do resultado ou medo de discriminação. Isso faz com que adiem a testagem por anos”, afirma.

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Pasqualotto destaca que, embora existam mais recursos disponíveis do que nunca, o cenário do Estado exige atenção. “Porto Alegre continua sendo uma das capitais nacionais com maior incidência da infecção pelo HIV, e muitas pessoas ainda descobrem a infecção tardiamente, quando a imunidade já se encontra comprometida. Ao mesmo tempo, estamos observando um aumento expressivo dos casos de sífilis e de outras ISTs, o que mostra que a prevenção ainda não está acontecendo como deveria”, diz.

Segundo o especialista, o avanço no tratamento transformou a perspectiva de vida de pessoas que vivem com HIV. “Quem inicia o tratamento cedo pode ter uma vida normal, saudável e ativa, semelhante à de quem não tem o vírus. Quando a pessoa está em tratamento e com carga viral indetectável, ela não transmite o HIV nas relações sexuais”, explica.

Pasqualotto reforça que campanhas como o Dezembro Vermelho ajudam a reduzir barreiras. “O Dezembro Vermelho é fundamental para lembrar que testar salva vidas. Campanhas assim incentivam a testagem, ajudam a quebrar o preconceito, divulgam o uso de preservativos e da PrEP, e reforçam que cuidar da saúde sexual é um direito de todos”, acrescenta.

Só ter informação não é suficiente

Apesar do avanço na informação e nas campanhas de prevenção, a transmissão de infecções sexualmente transmissíveis segue elevada no país. Para o médico infectologista do Hospital Moinhos de Vento, Paulo Ernesto Gewehr Filho, conhecer os riscos nem sempre se traduz em mudança de comportamento. “Informação não garante ação preventiva. Muitas pessoas, mesmo cientes dos riscos, deixam de usar preservativo em relações casuais, acreditam que uma única relação sem camisinha não trará consequências ou priorizam o prazer e o vínculo afetivo em detrimento da prevenção”, explica.

Segundo o especialista, a percepção de que o HIV e outras ISTs têm hoje tratamentos eficazes também contribui para a redução do medo do contágio. “Isso gera um fenômeno já documentado em saúde pública: maior número de parceiros, menor adesão ao preservativo e sensação de risco reduzido. Esse comportamento facilitou, por exemplo, o aumento expressivo dos casos de sífilis no Brasil nos últimos anos”, afirma.

Outro fator que pesa, conforme Gewehr Filho, é o estigma que ainda cerca a saúde sexual. “Mesmo com avanços sociais, ainda existe vergonha. Muitas pessoas evitam relatar sintomas, ocultam sua vida sexual dos profissionais de saúde e deixam de procurar testagem preventiva. Esse silêncio acaba favorecendo a transmissão contínua das infecções”, ressalta.

Atualmente, as ISTs mais recorrentes no Brasil incluem HIV, sífilis, gonorreia, clamídia, herpes genital, HPV, tricomoníase e hepatites B e C. O infectologista chama atenção para o fato de que muitas dessas infecções podem ser assintomáticas. “A ausência de sintomas não exclui a presença de uma IST, mesmo com infecção ativa. Qualquer sinal genital, como feridas, secreções, dor ou ardor, deve levar à procura imediata de um serviço de saúde para avaliação, testagem e tratamento adequado”, orienta.

Gewehr Filho destaca ainda que o tratamento das ISTs no Brasil segue protocolos do Ministério da Saúde e conta com ampla oferta de medicamentos gratuitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Hoje temos acesso a diagnóstico rápido, terapias eficazes e estratégias de prevenção combinada, como preservativos, PrEP, PEP, vacinação e rastreamento de parceiros. Avanços recentes mudaram completamente a evolução de doenças antes graves ou incuráveis, especialmente HIV, hepatite C e HPV”, completa.

Principais sinais clínicos das IST’s mais recorrentes:

  • HIV: febre, ínguas, mal-estar, infecções oportunistas;
  • Sífilis: úlcera genital indolor; manchas cutâneas;
  • Gonorreia: corrimento anormal, dor ao urinar;
  • Clamídia: muitas vezes assintomática; corrimento, dor pélvica;
  • Herpes genital: vesículas dolorosas/úlceras;
  • HPV: verrugas anogenitais;
  • Tricomoníase: corrimento fétido, coceira, ardência;
  • Hepatites B/C: fadiga, icterícia, muitas vezes assintomática.

Sinais que devem acender alerta clínico

Independentemente do agente, os seguintes achados clínicos exigem avaliação imediata em serviço de saúde:

  • Feridas ou úlceras genitais (com ou sem dor);
  • Corrimento genital fora do padrão habitual (qualquer cor anômala, odor forte);
  • Dor ou ardência ao urinar, persistente após relações sexuais;
  • Verrugas ou lesões anogenitais novas ou persistentes;
  • Sintomas gripais após exposição de risco, especialmente se acompanhados de ínguas ou mal-estar generalizado (verificar HIV);
  • Algumas ISTs são assintomáticas, mesmo quando há infecção ativa, o que significa que a ausência de sintomas não exclui a presença de uma IST;
  • A ocorrência de qualquer sintoma genital deve levar à procura imediata de serviços de saúde para exame, testagem laboratorial e tratamento adequado.