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Assentamento de Maydanets, na região de Cherkasy, no centro da Ucrânia — possivelmente a grande cidade mais antiga da história da humanidade
Os enormes assentamentos da cultura Tripiliana chegavam a ter 40.000 habitantes. Todos eles acabaram por ser consumidos pelas chamas — e os incêndios não eram acidentais. Os arqueólogos pensam que estamos perante casos de “domicídio” — ou seja, do “assassinato de uma casa”.
Mil anos antes de os primeiros faraós governarem o Egito, a Europa de Leste ostentava uma rede de povoações maior do que qualquer outra no mundo. Eram os megassítios de Tripilia, centros de produção de sal e cobre.
Alguns destes grandes assentamentos chegaram a cobrir vários quilómetros quadrados e albergar até 40.000 pessoas.
E todos estes megassítios acabaram por ser consumidos pelas chamas.
A cultura Cucuteni-Tripiliana ocupou, entre cerca de 4600 e 3500 a.C. o que é atualmente a Roménia, Moldávia e Ucrânia. Conhecida pela sua cerâmica elegante, deixou-nos o mais antigo exemplo conhecido de roda de oleiro.
Os Tripilianos praticavam agricultura, sobretudo cultivo de cereais e produção de lacticínios, o que permitiu o desenvolvimento de pequenas povoações densas, com casas de “pau a pique”, ou taipa de mão — técnica construtiva ancestral que entrelaça varas de madeira ou bambu e preenche os vãos com barro e palha para formar as paredes.
No quarto milénio a.C., estas povoações apresentavam um estilo próprio, com várias centenas ou mesmo milhares de edifícios organizados em anéis concêntricos. Em algumas, as ruas irradiavam para o centro de uma oval, como os raios de uma roda, conta o Explorersweb.
Os escombros de barro queimado, resultado de incêndios intensos, são uma característica marcante das ruínas tripilianas. A sua presença é tão comum que, durante décadas, os arqueólogos pensaram que os Tripilianos utilizavam o fogo durante o processo de construção das casas.
No entanto, não são apenas as paredes das casas que apresentam sinais de danos provocados pelo fogo, como seria de esperar se este fosse utilizado na construção. Muitas das casas estão repletas de montes de lixo queimado, cereais carbonizados e móveis queimados.
Tudo indica que estes incêndios não foram acidentais. Perante este enigma, os investigadores viram uma oportunidade para aplicar a arqueologia experimental clássica. Várias equipas de investigadores compraram ou construíram casas de “pau a pique” no Leste da Europa e incendiaram-nas.
Todas estas as equipas constataram que um incêndio natural, deixado ao acaso, não conseguia reproduzir os danos observados nas habitações tripilianas.
Só quando adicionaram combustível extra é que o calor atingiu temperaturas comparáveis às ruínas. Além disso, dentro das casas foram encontrados muito poucos restos humanos ou animais, o que sugere que os incêndios eram provocados de forma deliberada.
O mapa abaixo mostra parte da Europa de Leste na Idade da Pedra final. Na área assinalada a vermelho, a maioria das pessoas queimava as suas próprias casas depois de lá viverem durante anos. Fora dessa linha, isso não acontecia.
Esta linha é conhecida como o “horizonte das casas queimadas” e, até hoje, os arqueólogos continuam sem saber o porquê da sua existência.
ZAP // Saukkomies / Wikipedia

O “horizonte das casas queimadas” da cultura Tripiliana, na Europa de Leste do neolítico (a vermelho)
A cena do crime
O modus operandi da destruição das casas tripilianas evoluiu ao longo do tempo. Existem exceções, mas, na maioria dos casos, verificam-se as seguintes regras:
- As casas eram queimadas individualmente ou em pequenos grupos, e não toda a povoação de uma vez
- As casas eram incendiadas sem pessoas ou animais no interior
- As casas eram queimadas com móveis e desperdícios no interior, ou ao lado de outra casa com esses objetos
- As casas eram destruídas pelo fogo com alimentos ainda no interior
- O fogo atingia temperaturas tão elevadas que cada incêndio podia consumir entre 100 a 250 árvores como combustível
- Novas casas eram construídas sobre os escombros das antigas
Juntando todos estes elementos, começa a desenhar-se um quadro mais claro. Os Tripilianos queimavam casas que ainda estavam em condições de uso, e não o faziam apenas para desocupar espaço, já que, nesse caso, outros poderiam ter ocupado essas habitações.
Não usavam as casas como crematórios dos mortos, nem só como lixeira, embora nelas queimassem objetos. E eram verdadeiros especialistas no uso do fogo.
Podemos excluir imediatamente uma possível explicação para estes incêndios: se invasores tivessem sido responsáveis pela destruição regular destas povoações, encontrar-se-iam outros sinais de conflito nas ruínas. Corpos, alguns queimados vivos, outros mortos de forma violenta. Armas. Estruturas defensivas mais elaboradas do que uma simples vala de dois metros de largura.
À medida que se confirmou o carácter intencional e não agressivo destes incêndios, os arqueólogos começaram a discutir o conceito de domicídio, ou seja, o “assassinato” de uma casa.
Este termo descreve um ato de violência contra os habitantes de uma casa, referindo-se, por exemplo, ao tratamento dado aos nativos americanos durante a Lei de Remoção dos Índios. Mais recentemente, um Relator Especial das Nações Unidas aplicou o termo aos bombardeamentos na Faixa de Gaza.
O domicídio no “horizonte das casas queimadas” é, porém, um fenómeno diferente. É pessoal, caso contrário não teriam sido deixadas peças de cerâmica valiosas no interior das casas incendiadas.
Uma das teorias sugere que os Tripilianos viam as casas como tendo uma alma própria e ajudavam-nas a “morrer” no final do seu ciclo de vida. Outra hipótese avança que se queimava a casa após a morte de um habitante importante.
Mas o domicídio acaba por ser, sobretudo, um reflexo da nossa ignorância, mais do que uma resposta à questão dos incêndios. Sem registos escritos ou objetos com claro significado espiritual, o papel das casas na sociedade tripiliana permanece envolto em mistério.