Entre 1994 e 2002, o fotógrafo e artista visual marroquino Hicham Benohoud (n. 1968) foi o professor de artes de milhares de crianças com idades entre os 11 e os 15 anos numa escola, em Marraquexe. “Muito aborrecido”, contou ao The Guardian, em Junho de 2018, num texto que redigiu para a rubrica dedicada à fotografia My Best Shot. “Um professor passa dez minutos da aula a explicar aos estudantes aquilo que devem fazer e os restantes 45 minutos à espera que eles terminem. Enquanto eles cortam papel, desenham, pintam, o professor está sentado à secretária. É assim entre as 8 da manhã e as 6 da tarde, todos os dias.”

Quatro anos após ter assumido a função de professor, cansado dessa dinâmica, Hicham Benohoud desenvolveu uma obsessão por desenho hiper-realista; desenhava, inicialmente, os rostos dos alunos que estavam sentados diante de si, mas acabou por fotografar retratos tipo-passe a preto-e-branco de cada criança e, a partir dessas fotografias, desenhar os seus rostos. “Passei a fotografar a cores e a fazer pinturas a óleo antes de perceber que, de facto, o mais interessante de tudo eram as fotografias propriamente ditas.”

Sempre que revelava as fotografias em laboratório, Benohoud reparava em detalhes que antes lhe tinham escapado: “O aluno que estava sentado atrás do modelo, ou o que segurava o fundo de papel e que olhava noutra direcção”, exemplifica. Não tardou até começar a integrar mais estudantes nas sessões fotográficas e a incluir mais materiais que estavam no interior da sala de aula, como papel, tecidos, fita-cola, gesso, etc. “Eu planeava exactamente o que queria fazer e depois fazia várias versões do que pretendia, com diferentes estudantes.”

Os alunos pareciam apreciar essa dinâmica. “Assim que eu pegava na minha câmara fotográfica, os seus rostos acendiam-se. ‘O que é que ele vai fazer connosco agora?’ Eu sentia a sua curiosidade e que tínhamos um verdadeiro entendimento.” Hicham dava indicações às crianças e adolescentes sobre como deveriam posicionar-se no enquadramento, mas nunca indicava que expressões faciais deveriam adoptar.

As fotografias que o marroquino tirou ao longo desses anos deram origem ao livro The Classroom, editado em Janeiro de 2025 pela Loose Joints – considerado o Fotolivro do Ano pela editora Aperture e a feira anual de fotografia Paris Photo, em Novembro de 2025 (em 2001, as fotografias já tinha sido publicadas em formato de livro pela Editions de L’Oeil).

Se, à primeira vista, o livro parece revelar um simples conjunto exercícios fotográficos que roçam o experimentalismo, uma segunda leitura, à luz do contexto social, político e económico de Marrocos pós-colonial do final do século XX, sugere que Hicham Benohoud se debruça sobre os temas do controlo e da disciplina da era pós-colonial – o único texto presente no livro é um excerto da obra Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão (1975), da autoria do filósofo e teórico social Michel Foucault.

Os alunos que Benohoud retratou ao longo dos anos provinham de um contexto socioeconómico desfavorecido. “Por motivos financeiros, a família da maioria das raparigas casava-as muito jovens, enquanto elas ainda frequentam a escola”, explicou o artista visual marroquino ao mesmo jornal britânico, mas em 2025, aquando da publicação de The Classroom. “Os rapazes, mesmo que conseguissem terminar o ensino secundário, acabavam muitas vezes por seguir a profissão do pai, que geralmente é agricultor ou operário.”

Nas imagens, o humor e o absurdo convivem com a tensão, a alienação, o desconforto; a liberdade criativa coexiste com o controlo. Os gestos dos corpos infantis sugerem, não raramente, opressão, isolamento, violência.

Apesar desta experiência, o ex-professor marroquino não crê ter sido capaz de render os seus alunos ao mundo das artes. “As sessões fotográficas não deram origem a discussões”, lamenta.