Com bastante atraso para o que é habitual nos dias que correm, The Lowdown, a nova série de Sterlin Harjo chegou ao Disney+ no fim-de-semana passado, já demasiado tarde para aparecer nas listas europeias da melhor televisão do ano que agora termina — surgiu, ainda assim, em vários best of internacionais.
Harjo foi o responsável por Reservation Dogs, a série sobre o coming of age de um grupo de adolescentes numa reserva indígena no Oklahoma que acabou em 2023, pelo que qualquer coisa nova que fizesse geraria muitas expectativas. The Lowdown tinha passado originalmente nos Estados Unidos, no canal FX, entre Setembro e Novembro. É um neo-noir bastante cómico com Ethan Hawke — que também chegou a aparecer lá para o fim da outra série deste criador — na pele de Lee Raybon, um livreiro de Tulsa, também no Oklahoma, que se auto-intitula um “truthstorian”, ou seja, um historiador que conta a verdade, e que escreve artigos sobre assuntos locais sensíveis.
A personagem de Raybon foi inspirada numa pessoa da vida real, Lee Roy Chapman, um homem de Tulsa que, algures entre os papéis de jornalista e de historiador, muito investigou a tensão racial na cidade, que em 1921 foi palco de um célebre massacre supremacista branco. Quando a série começa, Raybon acabou de publicar um texto sobre uma poderosa família local, os Washberg. Um deles está a candidatar-se a governador do estado, enquanto outro morre, no que aparenta ter sido um suicídio. O protagonista não acredita nessa versão e começa a tentar descobrir o que se passou ao certo, acabando, como qualquer personagem principal de um neo-noir de detectives e investigação, por ser alvo de violência física, muitas vezes sem perceber o que está a acontecer.
Além disso, como também é usual neste tipo de histórias, não é um tipo a quem a vida corra de feição: não tem muito dinheiro e a ex-mulher vai voltar a casar. É idealista e luta por aquilo em que acredita, mas é também capaz de se passar e de destratar as pessoas com que se cruza. Pelo meio disto tudo há ainda nazis, segredos do passado obscuro da cidade e conspirações actuais.
É esta a história dos oito episódios da série, quatro dos quais realizados pelo próprio Harjo. O óptimo Hawke, a gozar neste momento de uma popularidade renovada, aparece ao lado de um vasto elenco que inclui Keith David, Jeanne Tripplehorn, Tim Blake Nelson, Kyle MacLachlan, Tracy Letts, Killer Mike, Kaniehtiio Horn, Ryan Kiera Armstrong ou Macon Blair — que realiza dois episódios —, mas também, em participações mais pequenas, Peter Dinklage, o recentemente desaparecido Graham Greene ou John Doe, da banda punk X.
Muito do tempo é passado com estas pessoas a interagirem umas com as outras, nas suas particularidades, nem sempre havendo perigo, violência ou pontos importantes para o enredo a esconder-se nas entrelinhas. Cada recanto da série e, por conseguinte, da cidade parece estar cheio de vida. The Lowdown é assim genuinamente divertida, mesmo que haja sangue e coisas muito más a acontecer. É excelente televisão.
A série está recheada de inúmeras referências culturais, dos livros de Jim Thompson, lendário escritor de policiais (uma pista importante para o mistério), aos quadros de Joe Brainard e ao outlaw country, incluindo pessoas que não conseguem distinguir Willie Nelson de Waylon Jennings, dois dos maiores nomes deste subgénero musical.