As garantias de segurança fornecidas pelos EUA à Ucrânia como parte do acordo de paz com a Rússia vão vigorar pelo menos durante 15 anos, revelou esta segunda-feira o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, um dia depois do encontro com Donald Trump no qual foram anunciados vários progressos nas negociações.
Nessa reunião, os dois líderes discutiram as garantias de segurança que Kiev considera fundamentais para aceitar um acordo de paz com a Rússia e Trump disse que este assunto estava praticamente fechado. Porém, o Presidente norte-americano admitiu que continuam por resolver “questões espinhosas” entre os dois países.
Numa conferência de imprensa esta segunda-feira, Zelensky disse que embora as garantias de segurança acordadas com Trump sejam “fortes”, “não são permanentes”. “Eu disse-lhe que a guerra durava há quase 15 anos e que queríamos que as garantias fossem mais duradouras”, explicou o Presidente ucraniano, referindo-se ao início da guerra no Donbass, iniciada em 2014.
Zelensky disse ainda ter sugerido que as garantias de segurança fossem prolongadas por várias décadas, mas que Trump apenas lhe respondeu que iria pensar no assunto.
As garantias de segurança, a par com a questão territorial, é um dos temas mais complexos nas negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia. As autoridades ucranianas receiam que o Kremlin volte a invadir o país ao fim de alguns anos de paz e, por isso, insistem na necessidade de garantias de segurança suficientemente fortes para dissuadir futuras agressões.
Não é certo em que tipo de acção concreta é que estas medidas se traduzem, embora tanto a Ucrânia como os seus parceiros europeus há muito façam referência a acções “idênticas ao artigo 5.º” do tratado da NATO, referindo-se à cláusula de segurança colectiva que abrange todos os membros da aliança.
Além do reforço das suas próprias forças armadas, a Ucrânia quer que sejam instaladas tropas ocidentais perto da fronteira com a Rússia como parte das garantias de segurança. “Acredito que a presença de tropas internacionais é uma verdadeira garantia de segurança, é um fortalecimento das garantias de segurança que os nossos parceiros já nos estão a oferecer”, disse Zelensky aos jornalistas.
Os líderes europeus concordaram recentemente em liderar uma força multinacional para ser destacada na Ucrânia após a assinatura de um acordo de paz, embora sem a participação dos EUA.
Porém, a Rússia tem demonstrado uma oposição firme a qualquer envio de tropas ocidentais para a Ucrânia, dizendo que isso representa uma ameaça à sua própria segurança.
Ainda no domingo, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, voltou a criticar a intenção de se enviarem tropas ocidentais para perto da fronteira russa, acusando os líderes europeus de “não quererem saber dos ucranianos nem dos seus próprios povos”.
“Esta é a única forma de se explicar que ainda haja conversas na Europa sobre o envio de forças militares para a Ucrânia como parte da chamada coligação das vontades. Já dissemos várias vezes que nesse caso as nossas forças armadas iriam vê-las como alvos legítimos”, afirmou Lavrov.
O Presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou que os parceiros europeus da Ucrânia, congregados na “coligação das vontades”, vão reunir-se em Janeiro para discutir as garantias de segurança a serem dadas à Ucrânia. Já Trump deverá voltar a falar com o Presidente russo, Vladimir Putin, muito brevemente, de acordo com o Kremlin.
Questão territorial por resolver
O futuro dos territórios ucranianos ocupados e reivindicados pela Rússia também está a inviabilizar o processo de paz e, de acordo com os líderes envolvidos, continua a ser o grande obstáculo a um acordo.
Zelensky tem insistido que à luz da Constituição ucraniana não pode fazer qualquer cedência territorial, mas tem mostrado disponibilidade para aceitar o congelamento da linha da frente na sua configuração actual, deixando, na prática, a governação de quase todo o Donbass e partes das províncias de Zaporíjjia e Kherson nas mãos da Rússia.
O Kremlin exige, porém, que a Ucrânia se retire da parte da província de Donetsk que ainda controla – mais de 20% do total desta região –, algo que tem sido rejeitado por Kiev por considerar inaceitável abrir mão de território que nunca esteve sob ocupação russa.
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, voltou a abordar o tema esta segunda-feira, afirmando que a Ucrânia se arrisca a perder ainda mais território à força se não concordar em recuar.
Durante as negociações, Trump chegou a sugerir a criação de uma zona económica especial nesta região, como solução de compromisso, mas Moscovo não dá sinais de abertura a esta ideia.