
As vacas da Ilha de Amesterdão eram uma raça rara de gado selvagem (Bos taurus) introduzida em 1871 e que vivia isolada na Ilha de Amesterdão
As vacas deixadas para trás há mais de 150 anos num ponto remoto do planeta, à mesma distância de África, Austrália e Antártida, acabaram por prosperar, dando origem a uma das poucas populações selvagens de vacas domésticas existentes no mundo.
Por volta de 1871, um agricultor da ilha francesa de Reunião, situada ao largo de Madagáscar, levou a família e as suas vacas para a longínqua Ilha de Amesterdão — que fica aproximadamente à mesma distância de África, Austrália e Antártida — na esperança de conseguir lá subsistir.
Menos de um ano depois, a família regressou à Reunião, deixando para trás as vacas. Embora a História tenha praticamente esquecido esta expedição falhada, a ciência continua a estudar as vacas que lá ficaram.
A Ilha de Amesterdão é pouco mais do que um afloramento vulcânico a emergir do sul do Oceano Índico, pelo que não surpreende que os colonos franceses tenham partido tão depressa.
O que surpreende os cientistas, no entanto, é que as vacas deixadas para trás acabaram por prosperar, dando origem a uma das poucas populações selvagens de vacas domésticas existentes no mundo.
No seu auge, diz o Sciencing, a população de vacas da Ilha de Amesterdão chegou a cerca de 2.000 animais — sendo que investigadores que ali trabalhavam sazonalmente ainda abatiam cerca de 50 por ano para alimentação.
Apesar do seu valor científico, sobretudo para os geneticistas, estas vacas eram uma espécie invasora, destruindo o ecossistema e tornando-se uma ameaça para as plantas endémicas.
Para travar os efeitos da destruição ambiental causada pelo gado, o governo francês construiu uma vedação de arame farpado eletrificado para confinar os animais no lado norte da ilha, abatendo o rebanho a sul dessa barreira.
Com o sucesso destas medidas, decidiu-se erradicar a população restante em 2010. Ainda assim, estas vacas continuam a ajudar-nos a perceber como a evolução e as pressões naturais moldam a vida.
Porque são tão interessantes
Existem poucas populações de vacas selvagens no mundo, o que significa que têm havido poucas oportunidades para estudar o processo de “feralização” do gado. Uma das grandes surpresas para os investigadores foi a diversidade genética das vacas da Ilha de Amesterdão.
De acordo com um estudo publicado em 2024 na Molecular Biology and Evolution, os cientistas descobriram que as vacas selvagens da ilha apresentam maior diversidade genética do que as suas congéneres domésticas europeias, apesar de terem tido origem num grupo fundador de apenas cinco indivíduos, há pouco mais de um século.
Os investigadores especulam que parte do sucesso das vacas da Ilha de Amesterdão se deve à sua herança pré-selvagem.
Os antepassados das vacas abandonadas eram maioritariamente europeus, muito próximos da raça Jersey, originária do Reino Unido. O seu porte relativamente pequeno e a adaptação prévia a climas frios e húmidos deram-lhes uma vantagem nas condições subpolares da ilha.
As vacas selvagens da Ilha de Amesterdão foram entretanto erradicadas, mas não foram a última população de vacas selvagens existente. Em Chernobyl, as vacas selvagens, e o seu impacto no meio ambiente, estão a ser estudadas como um análogo do auroque, o antepassado selvagem e extinto do gado.
Já no Alasca, as vacas selvagens da Ilha de Chirikof estão a ser protegidas como salvaguarda genética contra eventuais surtos de doenças. Para as vacas da Ilha de Amesterdão já é tarde, mas ainda podemos proteger as populações selvagens que restam.