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O profético aviso do falecido estadista norte-americano Henry Kissinger, sobre a possibilidade de Tóquio vir a tornar-se uma potência nuclear até 2028, está a ser atentamente reavaliado por Pequim.
Uma das últimas previsões de Henry Kissinger antes da sua morte foi a de que o Japão iria tentar desenvolver armas nucleares — uma previsão “sombria” e “preocupante”, diz o South China Morning Post, uma perceção que não será alheia ao facto de as relações entre a China e o Japão terem esfriado bastante nas últimas semanas.
Numa entrevista em 2023 à revista The Economist, Kissinger alertou que o Japão “caminhava para se tornar uma potência nuclear num prazo de cinco anos”.
Especialistas nucleares chineses citados pelo SCMP estimam que o Japão não só tem a motivação política, como também a capacidade técnica para desenvolver armas nucleares em menos de três anos, dando razão ao alerta de Kissinger de que o Japão alimenta ambições de recuperar o seu estatuto militar pré-guerra, quando surgirem condições propícias.
No mês passado, a primeira-ministra Sanae Takaichi, a nova “dama de ferro” do Japão, referiu-se à linha vermelha dos três princípios não nucleares do país, procurando abrir uma brecha legal, recorda o jornal sediado em Hong Kong.
Na semana passada, acrescenta o SCMP, um alto responsável do gabinete da primeira-ministro japonesa, encarregado de aconselhar Takaichi sobre política de segurança, disse que, tendo em conta o ambiente de segurança cada vez mais severo, acreditava que “o Japão deveria possuir armas nucleares”.
No entanto, o secretário-chefe do governo, Minoru Kihara, reafirmou a 18 de dezembro o compromisso de décadas do país de nunca possuir armas nucleares, sublinhando que a política nuclear japonesa não se alterou.
Apesar disso, a maioria dos especialistas considera que o Japão se encontra num estado de “latência nuclear” – isto é, embora não possua atualmente armas nucleares, poderia ultrapassar rapidamente essa barreira e produzir armamento nuclear utilizável.
“Os princípios das armas nucleares podem ser compreendidos até por alunos do secundário. Países como a Coreia do Norte, a Índia e o Paquistão conseguiram desenvolvê-las”, afirmou um cientista nuclear do oeste da China.
“Tecnicamente, o Japão tem capacidade industrial suficiente para construir armas nucleares ainda mais avançadas do que esses países, em pouco tempo. Além disso, o Japão acumulou combustível nuclear suficiente sob o pretexto de ser para fins civis”, acrescenta o cientista
Segundo o mesmo especialista, que pediu anonimato devido à sensibilidade do tema, especula-se mesmo que o Japão possa já ter duas bombas nucleares. “Se se atreverem a avançar, esse número pode aumentar para três ou quatro“.
No entanto, diz o especialista, “o preço que o Japão pagaria por desenvolver armas nucleares seria muito maior do que o da Coreia do Norte, Índia ou Paquistão, porque o Japão é uma nação derrotada”,
Um especialista nuclear sediado em Pequim salientou a diferença essencial entre armas nucleares e energia nuclear: enquanto a energia depende de uma reação controlada, as armas envolvem uma reação descontrolada.
“O Japão tem material nuclear suficiente, como plutónio, para construir uma arma, e provavelmente dispõe também da tecnologia para enriquecer urânio – embora a aprovação dos EUA possa ser um fator”, referiu.
O Japão tem reservas técnicas relevantes ao nível de matérias-primas, tecnologia de fabrico e métodos de lançamento. É também o único país no mundo com um ciclo completo de combustível nuclear sem possuir armas nucleares.
De acordo com dados divulgados pela Comissão de Energia Atómica do Japão em agosto, o país tem cerca de 44 toneladas de plutónio, das quais 8,6 toneladas armazenadas em território nacional e 35,8 toneladas no Reino Unido e em França.
Embora este plutónio não seja de grau militar, o Japão detém capacidades de refinação sofisticadas, salienta o SCMP. Considerando que apenas cerca de 8 kg de plutónio são necessários para fabricar uma bomba nuclear, as reservas nacionais seriam mais do que suficientes.
Devido às limitações geográficas do seu território, o Japão não pode realizar testes explosivos em áreas remotas de deserto, como fizeram a China e os EUA. Contudo, o desenvolvimento moderno de armas nucleares pode ser feito recorrendo a métodos de “teste” mais avançados e discretos.
O Japão também dispõe de recursos computacionais assinaláveis. O seu supercomputador Fugaku está entre os mais poderosos do mundo, e poderia ser usado para realizar testes simulados de explosão.
Uma ogiva nuclear necessita ainda de uma plataforma de lançamento. O foguetão Epsilon da JAXA, a Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial, foi concebido como um foguetão de combustível sólido, permitindo tempos de resposta mais rápidos face aos foguetões de combustível líquido que exigem pré-abastecimento – características típicas de mísseis balísticos intercontinentais.
O novo modelo Epsilon-S da JAXA pode transportar uma carga de 1,2 toneladas para a órbita terrestre baixa. Se um satélite fosse substituído por uma ogiva nuclear, e os sistemas de orientação fossem adaptados, poderia ser utilizado para ataques nucleares de longo alcance, diz o SCMP.
O Japão está ainda a melhorar o míssil de cruzeiro Tipo 12, equipado com um sistema combinado de navegação por GPS, correspondência de terreno e radar ativo terminal. Uma versão atualizada terá um alcance de cerca de 1.000 km.
Sendo até agora o único país vítima de ataques nucleares, o Japão é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, mas nunca subscreveu o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, o acordo multilateral que visa banir por completo estas armas.
As relações diplomáticas entre o Japão e a China agravaram-se depois de no início de novembro a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, ter dito que as forças armadas japonesas poderiam envolver-se caso a China avançasse com uma acção contra Taiwan, que Pequim considera parte do seu território.
Desde então, a China restringiu o turismo para o Japão e foram cancelados eventos culturais e intercâmbios entre governos locais, e o ambiente entre os dois países tem-se mantido tenso.
Da leitura do texto do SCMP, parece poderem tirar-se duas conclusões: que o Japão poderá facilmente tornar-se uma potência nuclear — e que a China está muito atenta, e bastante preocupada com essa possibilidade.