Há jogos que não chegam propriamente — regressam. Metroid Prime 4: Beyond é um desses casos. Depois de anos de silêncio, avanços e recuos no desenvolvimento e uma expectativa quase mitológica entre os fãs da Nintendo, Samus Aran volta finalmente a vestir o seu fato tecnológico e a lembrar-nos porque é uma das figuras mais marcantes da história dos videojogos. Fá-lo agora na Switch 2, numa aventura que respeita a herança da série, mas que não tem receio de experimentar novos caminhos — nem sempre com igual sucesso.

A história arranca de forma deliberadamente enigmática, como manda a tradição. Samus chega sem grandes explicações ao planeta Viewros, antigo lar da civilização Lamorn, hoje reduzida a ruínas e ecos de uma tragédia antiga. Sozinha, vulnerável e privada de grande parte das capacidades do seu fato, a caçadora de recompensas inicia uma viagem de reconstrução — não apenas da armadura, mas também da memória do próprio planeta. É uma narrativa contida, relatada sobretudo através do ambiente, dos vestígios arqueológicos e de pequenas revelações dispersas, numa abordagem que a série Metroid Prime sempre soube trabalhar com mestria.

Poderes psíquicos e combate fiel à série

O coração do jogo continua a ser a progressão através do fato de Samus. Cada nova habilidade desbloqueada abre portas — literalmente — a zonas antes inacessíveis, reforçando aquele ciclo viciante de exploração, regresso e descoberta que define o ADN da série. Beyond introduz, contudo, uma camada nova: poderes psíquicos que permitem manipular objectos à distância, desviar mísseis em pleno voo, criar plataformas invisíveis ou interagir com elementos específicos do ambiente. Não se trata de uma ruptura, mas de uma extensão natural das mecânicas clássicas, agora reinterpretadas com um verniz mais moderno.

As ferramentas familiares estão todas lá. A “morfosfera” continua a ser essencial para explorar passagens apertadas e resolver enigmas ambientais; os diferentes tipos de disparo — gelo, fogo, plasma — mantêm a sua importância estratégica; e o visor do fato ganha novas funções, ajudando a decifrar a lógica psíquica de Viewros. Tudo isto é apresentado de forma acessível, sem excessos de complexidade técnica, o que torna o jogo compreensível mesmo para quem não acompanha a série há décadas.




O grafismo é do melhor que já vimos numa consola Nintendo
DR

O combate é um dos pontos mais consistentes da experiência. Não é particularmente inovador, mas é sólido, reactivo e satisfatório. Os inimigos vão escalando em complexidade e obrigam a usar, de forma criteriosa, as capacidades entretanto adquiridas. Os confrontos com criaturas de grandes dimensões — verdadeiros testes de leitura de padrões e de precisão — estão entre os momentos mais memoráveis do jogo. Já os puzzles, embora bem integrados no ritmo da exploração, raramente colocam grandes dificuldades. Os comentários constantes dos aliados de Samus, por vezes demasiado explicativos, retiram algum prazer à descoberta, mas dificilmente chegam a quebrar o envolvimento.

Ambição técnica, um deserto e um balanço positivo

É a meio da aventura que Metroid Prime 4: Beyond tropeça pela primeira vez de forma mais evidente. Sol Valley, um vasto deserto que funciona como zona de ligação entre várias áreas, aposta numa estrutura mais aberta e introduz a Vi-O-La, uma mota futurista criada pelos Lamorn. A ideia é interessante e, no papel, ambiciosa. Mas, na prática, a extensão do mapa e a relativa escassez de acontecimentos transformam longos períodos de deslocação num exercício algo monótono. A sensação de solidão — normalmente uma virtude em Metroid — aqui joga contra, diluindo o impacto de uma das suas principais novidades.

Felizmente, o deslize é compensado por um trabalho técnico notável. Para um título da Switch 2, Beyond impressiona pela qualidade visual, pela diversidade dos cenários e pelo cuidado na direcção artística. Viewros é um planeta estranho, belo e ameaçador, com identidades bem distintas entre as suas regiões. A banda sonora acompanha esse registo, alternando entre temas atmosféricos e composições mais intensas, sempre ao serviço da imersão.

No balanço final, Metroid Prime 4: Beyond é tudo aquilo que se esperava — ainda que talvez um pouco menos do que se sonhou durante anos de espera. Não é um jogo perfeito nem totalmente consistente, mas é uma aventura sólida, respeitosa da sua história e suficientemente aberta para acolher novos jogadores. A dificuldade mantém-se acessível, raramente punitiva, e o ritmo, com excepção de alguns momentos mais arrastados, convida a avançar.

Samus está de volta. E, apesar de alguns passos em falso pelo caminho, continua a saber conduzir-nos por mundos onde o silêncio, a exploração e a curiosidade valem tanto como qualquer explosão.

Tipo

Acção e aventura na primeira pessoa

Plataforma

Nintendo Switch 2

Preço

59,99€