Sarah Gabbott, Jan Zalasiewicz

A probabilidade de nos tornarmos fósseis é baixa, mas podemos deixar vestígios diferentes. Eis o que pode chamar a atenção dos nossos exploradores de um futuro distante.
Nós, seres humanos, sempre fomos fascinados pelo passado. Desenterrámos inúmeros fósseis do solo, relíquias dos 4,5 mil milhões de anos de história da Terra, que nos dão pistas sobre como viviam espécies antigas muito antes de existirmos.
Mas, se nós próprios fôssemos extintos e outra espécie inteligente surgisse daqui a milhões de anos, será que esta saberia que existimos ou como era a nossa civilização?
Não podemos contar com a hipótese de paleontólogos futuros encontrarem os nossos fósseis, diz Adam Frank, professor de astrofísica na Universidade de Rochester, nos EUA.
“Apenas uma pequena fração da vida na Terra se fossilizou, sobretudo se a sua civilização foi breve”, explica.
Um artigo de 2018, coassinado por Frank, assinala que até hoje foram encontrados poucos fósseis quase completos de dinossauros, que vaguearam pela Terra durante 165 milhões de anos.
Assim, o artigo sugere que, dado que a nossa espécie existe há apenas cerca de 300 mil anos, talvez não deixemos uma marca muito expressiva no registo fóssil. Mas podemos deixar vestígios diferentes.
Alterar a química da Terra
Como parte da geologia natural do planeta, as rochas são continuamente depositadas no solo em camadas, ou estratos. A composição química de cada estrato está relacionada com as condições do planeta nesse momento.
Segundo Frank, o aumento das temperaturas e as mudanças do nível do mar devido às alterações climáticas provocadas pelo ser humano afetarão o que fica depositado nas rochas — algo que será detetável “provavelmente daqui a centenas de milhões de anos”.
“Veríamos que havia uma diferença nos isótopos de oxigénio e nos isótopos de carbono, pelo facto de o sistema climático da Terra ter mudado por causa da atividade humana”, diz o astrofísico.
Remodelar a evolução
Mesmo que os nossos próprios ossos não apareçam muito no registo fóssil, é bem possível que tenhamos alterado os fósseis de outras espécies através das plantas e dos animais que transportámos pelo globo, ou da biodiversidade que modificámos.
Um estudo de 2018 concluiu que 96% de todos os mamíferos do mundo são humanos ou o nosso gado, medidos pela biomassa. Mais de dois terços da biomassa de aves do mundo provinha de aves domésticas.
Abatemos mais de 75 mil milhões de galinhas todos os anos, de acordo com a publicação sem fins lucrativos Our World in Data.
Assim, os fósseis de todas estas aves quase idênticas, morrendo em grande número, podem muito bem causar surpresa no futuro.
“Alterámos o curso da evolução biológica”, diz Jan Zalasiewicz, geólogo, paleontólogo e professor emérito na Universidade de Leicester, no Reino Unido.
“Os nossos exploradores de um futuro distante vão perguntar-se: ‘O que aconteceu? Porque aconteceu?’”, sugere. “E vão concentrar-se na camada onde tudo isto começou — e essa é a nossa camada.”
O nosso “legado final”
Em Discarded: How Technofossils Will Be Our Ultimate Legacy, Zalasiewicz e a sua colega da Universidade de Leicester, Sarah Gabbott, defendem que serão os objetos do quotidiano a persistir no registo geológico da Terra.
Chamam-lhes tecnofósseis — seja uma lata de alumínio, uma camisola de poliéster ou um lugar de estacionamento subterrâneo.
Um estudo de 2020 estimou que produzimos 30 gigatoneladas de objetos por ano. Isto equivale a cada pessoa na Terra produzir, por semana, mais do que o seu próprio peso corporal.
Na verdade, os autores concluíram que hoje existe no mundo mais “coisa” feita pelo ser humano do que seres vivos, quando se compara o seu peso seco.
A maior proporção de produtos humanos vem do betão, que poderá não parecer muito natural a futuros descobridores.
“Uma das formas como fazemos betão hoje em dia é adicionar cinzas volantes… ao microscópio, [esse material] parece absolutamente bizarro”, diz Zalasiewicz.
“Se as bordas de edifícios de betão e as lajes de pavimentação se tornarem formas fossilizadas, [os arqueólogos do futuro] verão que é algo muito diferente de um estrato natural.”
Muitos dos nossos materiais permanecerão durante muito tempo.
O plástico “provavelmente pode durar não apenas milhares de anos, mas potencialmente milhões de anos”, diz Gabbott. Produzimos tanto deste material que, até 2050, poderá haver mais plástico do que peixes no oceano, segundo as Nações Unidas. Mas não é só o plástico.
“Temos rochas com quatro mil milhões de anos que contêm grafite”, continua Gabbott. “Por isso, a grafite na forma de um lápis poderia durar quatro mil milhões de anos.”
A paleontóloga refere que já foram encontradas folhas fossilizadas com centenas de milhões de anos. “O papel é feito de celulose, que é a mesma substância das folhas. E, portanto… o papel, no ambiente certo, provavelmente poderia durar centenas de milhões de anos”, especula.
Mudanças à escala planetária
É bem possível que os seres humanos já tenham deixado uma marca enorme na geologia da Terra. Se outra espécie inteligente a verá um dia, muito depois do nosso desaparecimento, é uma incógnita.
Mas fará sentido imaginar o nosso legado daqui a milhões de anos? O professor Frank acredita que sim.
“Acho vital ultrapassarmos este período de imaturidade tecnológica e sermos capazes de pensar na história de longo prazo da Terra”, defende.
“São mudanças à escala planetária que terão consequências por séculos, milénios, dezenas de milénios”, afirma.