É um marco histórico para o país e para a Europa. Em 2024, a França conseguiu gerar mais eletricidade do que aquela que consome, invertendo uma tendência que se mantinha há quase uma década. Que sinais deixa este resultado para o futuro energético da Europa?

Ilustração de energia eólica gerada pela França, como força da produção de eletricidade

A força do nuclear

Esta mudança resulta da combinação de um forte reforço na produção nuclear e da expansão de energias renováveis, especialmente solar e eólica, que adicionaram cerca de 7 gigawatts de nova capacidade instalada.

A rede elétrica francesa é agora quase 95% livre de carbono, e as exportações atingiram um recorde de 89 terawatts-hora.

A energia nuclear representa, em média, cerca de 65% a 70% de toda a eletricidade produzida em França, valor que em anos de plena disponibilidade dos reatores se aproxima frequentemente dos 70%, fazendo do país o maior produtor de eletricidade nuclear da Europa.

Recuperação da produção e papel das renováveis

Durante grande parte da última década, a produção de eletricidade em França ficou aquém da procura. O declínio começou por volta de 2015 com uma redução no contributo nuclear e agravou-se com atrasos na manutenção durante a pandemia de Covid-19.

Em 2024, a situação reverteu: a produção nuclear voltou a níveis próximos dos pré-crise e as renováveis reforçaram significativamente o mix energético.

Impactos económicos e desafios futuros

A nova situação cria vantagens económicas e estratégicas para França, que pode acelerar a eletrificação de sectores como os veículos elétricos ou a produção de hidrogénio verde.

No entanto, um excesso de oferta pode também provocar queda nos preços de eletricidade, chegando a valores próximos de zero em certas horas do dia.

Além disso, apesar do excedente de produção elétrica, o país continua a importar cerca de 60% da energia que consome noutras formas (energia primária total, sobretudo petróleo e gás), com custos anuais elevados.

Perspetivas na transição energética

Especialistas salientam que esta nova fase deve ser gerida com cuidado para transformar o excedente numa vantagem estratégica duradoura, reforçando a segurança energética e contribuindo para objetivos climáticos mais ambiciosos.

Em resumo, esta sobrecapacidade dá à França uma vantagem rara: o país não precisa mais de escolher entre crescimento tecnológico e proteção ambiental. Nos próximos anos, a expansão da infraestrutura digital, especialmente os centros de dados, aumentará o consumo de energia. A Rede de Transmissão de Eletricidade (RTE) prevê que o uso de eletricidade triplicará entre 2025 e 2030, passando de 5 para 15 TWh.