O processo de paz que visa pôr fim à invasão russa da Ucrânia sofreu mais um revés com a promessa de Moscovo de endurecimento da sua posição negocial como resposta ao alegado ataque contra a residência de férias do Presidente, Vladimir Putin, que Kiev garante ser mentira.
Num sinal que aponta para um aumento significativo da tensão, esta terça-feira as autoridades russas divulgaram imagens da instalação de mísseis hipersónicos Oreshnik, o modelo mais avançado desenvolvido pela Federação Russa, na Bielorrússia. Segundo as autoridades russas, este míssil pode atingir uma velocidade máxima dez vezes superior à velocidade do som e, por isso, não pode ser interceptado.
Com um alcance de cinco mil quilómetros, poderá atingir grande parte da Europa ocidental e a costa Oeste dos EUA. Em Novembro do ano passado, a Rússia terá usado pela primeira vez um míssil deste calibre num cenário real contra a cidade de Dnipropetrovsk.
O envio destes sistemas de mísseis com capacidade nuclear para um país que faz fronteira com vários membros da NATO foi interpretado como mais uma tentativa de pressão por parte de Moscovo, que tem feito da ameaça nuclear um instrumento de intimidação frequente.
O Ministério da Defesa bielorrusso informou que a “divisão de mísseis Oreshnik começou a desempenhar actividades de combate em áreas designadas do país”, embora sem revelar a sua localização. No vídeo divulgado, segundo a Reuters, é possível ver sistemas móveis de lançamento a serem conduzidos por estradas florestais, enquanto tropas especializadas camuflavam o equipamento com redes.
O Governo de Minsk justificou a decisão como uma resposta ao comportamento “agressivo” dos países ocidentais. O Presidente bielorrusso, Aleksander Lukashenko, já tinha anunciado, no início do mês, que cerca de uma dezena de mísseis Oreshnik seriam instalados no país que tem sido o principal aliado de Moscovo na guerra contra a Ucrânia.
Há alguns dias, dois investigadores norte-americanos disseram ter identificado a instalação de mísseis com capacidade nuclear numa antiga base aérea no Leste da Bielorrússia.
Em 2023, os dois países já tinham assinado um acordo que permite a transferência de armas nucleares tácticas russas para a Bielorrússia.
Ataque que ninguém ouviu
A divulgação das imagens da instalação dos mísseis Oreshnik coincide com mais um momento de tensão entre a Ucrânia e a Rússia que poderá pôr em causa os esforços diplomáticos para alcançar um acordo de paz entre os dois países. Na segunda-feira, Moscovo acusou a Ucrânia de ter tentado atingir com um ataque aéreo a residência de férias de Putin, na província de Novgorod, e prometeu retaliar.
A Ucrânia negou ter tentado atingir a residência presidencial e acusou o Kremlin de querer sabotar o processo de negociação. Numa conversa telefónica, Putin informou o Presidente norte-americano, Donald Trump, que disse estar “muito zangado”, embora tenha admitido que o ataque possa não ter ocorrido.
Os aliados da Ucrânia dizem não ter qualquer informação que corrobore a alegação russa e acusam o Kremlin de estar à procura de uma justificação para uma nova escalada dos ataques contra o território ucraniano. Os membros da “coligação das vontades” marcaram uma reunião de líderes para 6 de Janeiro, em Paris, para discutir as garantias de segurança dadas a Kiev.
Em declarações aos jornalistas na tarde desta terça-feira, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reafirmou a convicção ucraniana de que o ataque é “falso” e que o assunto foi discutido com as autoridades norte-americanas. “É claro que os nossos parceiros podem sempre verificar, graças às suas capacidades técnicas, que [o ataque] foi forjado”, disse o Presidente ucraniano, citado pela Reuters.
O Ministério da Defesa russo disse que 91 drones foram lançados sobre as imediações da residência e que todos foram interceptados pelas defesas antiaéreas.
O portal informativo independente russo Mozhem Obiasnit questionou vários habitantes da cidade de Valdai, próxima da residência presidencial, e nenhum referiu ter notado qualquer sinal de que tenha havido sobrevoo de drones na madrugada de segunda-feira. Ninguém recebeu as habituais mensagens telefónicas que dão o alerta para drones, nem foram ouvidos sons de explosões, segundo a reportagem citada pelo Moscow Times.
“Se alguma coisa assim tivesse acontecido, toda a cidade estaria a falar disso”, afirmou um habitante ao jornal.
Em Moscovo, o tom de desafio manteve-se e o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, acusou a Ucrânia de ambicionar “o colapso do processo negocial”. “A consequência diplomática”, acrescentou, “será um endurecimento da posição negocial da Federação Russa”.