A maioria dos titulares de contratos de crédito à habitação que sejam revistos em janeiro deverá sentir uma subida da prestação a pagar ao banco. A única exceção vai para os contratos indexados à Euribor 12 meses que ainda vão registar uma ligeira descida. As perspetivas para 2026 apontam para uma estabilidade das taxas de juro. Confirme o seu caso
Os titulares de contratos de crédito à habitação indexados à Euribor 3 meses e à Euribor 6 meses, cuja revisão ocorra em janeiro, vão começar 2026 com um aumento da prestação a pagar ao banco. Um aumento que será ligeiro e que decorre da subida, também ligeira, que se tem vindo a registar nas taxas Euribor.
A única exceção na subida das prestações ocorrerá nos contratos indexados à Euribor 12 meses, uma vez que apesar de esta taxa também estar a subir desde agosto não subiu o suficiente para afetar as prestações dos contratos cuja revisão ocorra em janeiro.
Na prática, para calcular a nova prestação de janeiro, os bancos utilizam a média das taxas Euribor do mês anterior, neste caso as taxas de dezembro. E apesar de as Euribor estarem a subir mensalmente desde meados do ano, a comparação tem de ser feita com a taxa relevante no momento da última revisão. Por exemplo, no caso dos contratos indexados à Euribor 3 meses, as taxas relevantes a comparar são as de dezembro com as que serviram de base à última revisão, neste caso, as taxas de setembro. E é dessa subida que decorre o aumento das prestações. No caso dos contratos indexados à Euribor 3 meses cuja revisão ocorra em janeiro esta será, aliás, a segunda subida da prestação, uma vez que em outubro, com base na taxa de setembro, a prestação também já tinha subido.
Usando como exemplo um crédito de 200 mil euros indexado à Euribor 3 meses, com um spread (margem do banco) de 1% cuja revisão ocorra em janeiro, o aumento será de 2,4 euros depois de em outubro já ter subido 4,33 euros.
Em Portugal, recorde-se, mais de 90% dos contratos de crédito à habitação existentes utilizam taxas variáveis ou mistas e, dentro destas, 25% são contratos indexados à Euribor 3 meses.
O indexante mais utilizado em Portugal é, no entanto, a Euribor 6 meses, com uma fatia de 38,5% dos contratos existentes. Neste caso, a comparação de taxas terá de ser feita entre a taxa de dezembro e a de junho, a data da última revisão e que serviu para calcular a prestação de julho. Assim, utilizando o mesmo exemplo de um contrato de 200 mil euros a 30 anos, com um spread de 1%, o aumento da prestação a pagar ao banco será de 4,51 euros.
Por último, no caso dos contratos indexados à Euribor 12 meses, que representa 31,75% dos contratos existentes, haverá uma descida na prestação a pagar ao banco porque a taxa de dezembro de 2025 é inferior à taxa que serviu de base à última revisão, de dezembro de 2024. Assim, no mesmo contrato de 200 mil euros a 30 anos, com um spread de 1%, a descida da prestação será de 17,26 euros. Confira o seu caso:
Como vai evoluir a prestação da casa em janeiro
Empréstimo a 30 anos com spread de 1% || Dados de dezembro até dia 29
EURIBOR 3 MESES
EURIBOR 6 MESES
EURIBOR 12 MESES
Com o BCE parado, porque sobem as Euribor?
Apesar destas ligeiras subidas das prestações nos contratos a 3 e 6 meses, a palavra de ordem para 2026 é estabilidade: tanto nas taxas Euribor, como nas taxas diretoras do Banco Central Europeu (BCE).
“Não prevemos alterações tão cedo às taxas de juro diretoras do BCE”, adianta Pedro Alexandre Avelar, do departamento de estudos do BPI. Ou seja, a taxa de depósitos deverá manter-se inalterada nos 2%. Uma opinião que é partilhada por Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa.
“As perspetivas de mercado apontam para que, em 2026, o BCE mantenha as taxas de juro praticamente inalteradas”, explica este responsável, adiantando que o ciclo de corte de taxas por parte da entidade liderada por Christine Lagarde se encontra, “na prática, interrompido e não se antevê nem espaço nem necessidade para reduções adicionais, sobretudo após a revisão em alta da inflação prevista para 2026 e da persistência da inflação nos serviços”.
Ou seja, segundo Paulo Monteiro Rosa, “o mercado espera uma política monetária estável, próxima da taxa neutral de 2%, em linha com a mensagem de prudência transmitida pelo BCE na reunião de 18 de dezembro”.
Mas se as taxas de juro do BCE estão inalteradas desde junho, qual a razão que explica as subidas, mesmo que ligeiras, que se estão a registar nas taxas Euribor?
O economista do Banco Carregosa identifica dois fatores para explicar esta aparente contradição. “Primeiro, a Euribor reflete as expectativas do mercado, e, em boa verdade, desde agosto os investidores passaram a antecipar que o ciclo de cortes estava praticamente concluído e que o BCE manteria uma postura prudente durante mais tempo devido à revisão em alta da inflação prevista para 2026 e à persistência da inflação nos serviços. Essa perceção justifica a postura dos investidores e o ajustamento em alta das taxas de juro do mercado monetário, mesmo sem decisões novas do BCE.”
Depois, prossegue Paulo Monteiro Rosa, “as Euribor são taxas de empréstimo entre bancos, não taxas oficiais. Por envolverem risco de crédito, liquidez e condições de financiamento no sistema bancário, tendem naturalmente a ser mais elevadas que as taxas diretoras do BCE, que não incorporam esse prémio de risco. Assim, quando o mercado começa a antecipar maior cautela do BCE, esse prémio sobe ligeiramente e a Euribor acompanha esse movimento, justificando uma diferença de 20 pontos base”. Ou seja, “perante a perceção de maior prudência do BCE, as taxas do mercado monetário ajustaram-se em alta, justificando a alta das Euribor a subir mesmo com as taxas diretoras inalteradas”, conclui o economista.
Pedro Alexandre Avelar do BPI também aponta para as alterações das expetativas dos investidores, para explicar a subida das Euribor, combinada com a cautela face a incertezas globais, como as tarifas de Donald Trump.
“Nos últimos meses têm vindo a dissipar-se receios de um abrandamento mais forte da atividade económica, com destaque para a Europa, onde também tem sido evidente uma significativa resiliência da maior parte das economias. A possibilidade de que o conflito na Ucrânia termine ou se apazigue reforça também a confiança de empresas e famílias, apoiando o sentimento e a perspetiva mais favorável. Assim, a maior robustez da atividade na Zona Euro, conjugada com a estabilização da inflação em torno do objetivo de 2%, veio alterar o sentimento de mercado, induzindo mesmo que seja atribuída alguma probabilidade a que o próximo movimento dos juros seja no sentido ascendente (atualmente o mercado desconta no final de 2026/2027)”.
Euribor sobem em 2026, mas apenas umas centésimas
Neste cenário, o que se espera é que em 2026 as taxas Euribor possam continuar a subir, mas apenas de forma muito ligeira. “De acordo com as nossas previsões para 2026, prevemos uma ligeira subida transversal (na ordem das centésimas) em todas as taxas Euribor”, antecipa Pedro Alexandre Avelar, relembrando que, de acordo com o Boletim Económico de dezembro de 2025, divulgado pelo Banco de Portugal, prevê-se que “a Euribor a 3 meses, em termos médios anuais, diminua de 2,2% em 2025 para 2,0% em 2026 e suba posteriormente para 2,1% em 2027 e 2,3% em 2028 (tendo por base as expetativas implícitas nos contratos de futuros).
Também Paulo Monteiro Rosa aponta para esta tendência de estabilidade. “As perspetivas para 2026 apontam para taxas Euribor essencialmente estáveis, ligeiramente acima dos 2%. Como o mercado acredita que o BCE manterá a política monetária inalterada ao longo do ano — sem novos cortes e com as taxas próximas da taxa neutral — as Euribor, sobretudo nos prazos mais curtos como a 3 meses, deverão refletir essa estabilidade. A revisão em alta da inflação prevista para 2026 e a persistência da inflação nos serviços reforçam esta expetativa de manutenção, deixando pouco espaço para descidas adicionais das Euribor no próximo ano”.
NOTA 1 | Como foram feitos os cálculos
Os cálculos partem do princípio de que há três anos o capital em dívida era de 50, 100, 150 ou 200 mil euros, consoante o exemplo, e que o prazo de pagamento era de 30 anos, com um spread de 1%. A partir desse ponto, a cada revisão do contrato, aplica-se a taxa de juro correspondente e diminui o montante em dívida e o prazo de pagamento do crédito.
NOTA 2 | O que são as taxas Euribor
Euribor é a abreviatura de Euro Interbank Offered Rate. As taxas Euribor baseiam-se nas taxas de juro que um conjunto de bancos europeus está disposto a pagar para emprestar dinheiro uns aos outros. No cálculo, os 15% mais altos e mais baixos de todas as cotações recolhidas são eliminados. As restantes taxas são calculadas como média e arredondadas a três casas decimais. O valor das taxas Euribor é determinado e publicado diariamente. Existem cinco taxas Euribor diferentes, todas com diferentes maturidades (uma semana, um mês, três meses, seis meses e 12 meses).