É muito pouco credível que a Ucrânia tenha ordenado um ataque contra uma residência onde o presidente russo não se encontrava, segundo os especialistas ouvidos pela CNN Portugal

Continuam por apurar as responsabilidades do ataque de segunda-feira à residência de Vladimir Putin em Novgorod, que podem colocar em causa a posição negocial de Moscovo, mesmo após a Ucrânia rejeitar a acusação, considerando-a uma “invenção completa” da Rússia.

Perante a incerteza, e mediante o que se sabe, a Ucrânia, de facto, pouco ou nada tinha a ganhar com este ataque, dizem os especialistas ouvidos pela CNN Portugal. “Eles conhecem muito bem a mentalidade russa e a mentalidade de Putin”, considera o tenente-general Rafael Martins.

“Se houver um processo de retaliação, vai doer aos ucranianos e vai haver destruição, não só na linha da frente, mas em profundidade e eventualmente em locais de grande simbolismo, nomeadamente em Kiev e outras cidades simbólicas para a Ucrânia”, antecipa.

Outro grande risco para Kiev será a interrupção das negociações para alcançar a paz, que tem tido uma “evolução positiva”, na análise do militar. Para Rafael Martins, se a Ucrânia tiver ordenado a operação, estamos perante uma circunstância “muito delicada”, já que pode “comprometer aquilo que eram as expectativas no processo que se desenvolveu em Mar-a-Lago”, onde Trump se mostrou otimista em relação ao fim da guerra já nas próximas semanas.

“Se a Ucrânia lançou esta mesma operação, foi pouco prudente, eventualmente precipitada, porque isto compromete significativamente aquilo que seria alguma recetividade por parte da Rússia”, acrescenta o também comentador da CNN Portugal.

A ideia de que a Ucrânia sairia a perder com um ataque desta natureza é corroborada pelo especialista em direito internacional Francisco Pereira Coutinho, que classifica como “absurda” uma tentativa de atacar diretamente o presidente russo, “especialmente nesta fase do conflito”. “A Ucrânia apresentou-se ao mundo como querendo muito a paz e, ao mesmo tempo que Zelensky está constantemente a pedir uma reunião com Putin para terminar a guerra, atacá-lo diretamente significaria que essas propostas não são sérias, seriam propostas hipócritas.”

Num cenário em que Moscovo tenha mentido sobre o alegado ataque, o objetivo de Putin, defende o especialista, seria redirecionar a atenção mediática e “passar de discutir o encontro entre Trump e Zelensky para passar a discutir as ações agressivas da Ucrânia”.

“Isto, no fundo, é a tentativa de resposta mediática da Rússia para tentar mostrar que a Ucrânia não está interessada na paz, está interessada apenas na guerra e em matar Putin”, sublinha o especialista, relembrando que esta vontade seria reforçada pela mensagem de Natal do presidente Volodymyr Zelensky, onde o chefe de Estado diz que os desejos dos ucranianos convergem num só: “Que ele [Vladimir Putin] morra”.

A resolução do conflito que se antecipava para os primeiros meses de 2026 está agora comprometida. De acordo com o tenente-general Rafael Martins, a Rússia, ao pôr o ónus do lado de Kiev, inicia o “processo de retrocesso e faz uma suspensão das negociações porque prefere uma ação militar continuada nos meses que vêm aí”.

A credibilidade da alegação russa

O alegado lançamento de 91 drones ucranianos contra uma das residências do líder russo é uma história “sem pés nem cabeça”, afirma Francisco Pereira Coutinho, que destaca a ausência de provas como uma ponta solta do plano da Rússia. 

“Não há nenhuma indicação de que tenham ido drones especificamente para atingir uma casa de férias de Putin, onde ele não estava, ainda por cima. Portanto, a Ucrânia estaria a atacar uma casa onde Putin não estaria, para o tentar matar, e sabia que muito dificilmente o conseguiria atingir lá, porque, ainda por cima, é um complexo muitíssimo protegido”, realça o especialista.

“[As provas] parecem não existir”, acrescenta, sublinhando que “os civis não ouviram nada, não há registo de coisa nenhuma e as histórias são, de facto, muito contraditórias”. Pode, portanto, ser esta a maior fragilidade do plano, dado que sem provas tangíveis do ataque “é mais difícil” para a Rússia invocar a retaliação, conclui.

Ao contrário da Ucrânia, a Rússia pode ter visto vantagens em alegar um ataque desta dimensão, porque pode agora “iniciar uma operação ofensiva ainda mais poderosa, mais rápida, aproveitando também aquilo que é a adversidade do inverno, para levar a Ucrânia a ceder em quase toda a linha, quase a uma capitulação”, explica Rafael Martins.

Por outro lado, esta é uma boa oportunidade “para a Ucrânia se vitimizar”, dado que vários Estados se mostraram “disponíveis para reproduzir tudo aquilo que ouvem do Kremlin como se fosse a verdade, de uma forma completamente acrítica, mesmo sem ser apresentado qualquer tipo de prova”, defende o especialista em direito internacional.

O tenente-general frisa ainda que neste caso a questão central assenta na “credibilidade do processo”: “A Rússia, se o fez, terá de o ter feito de forma muitíssimo competente, para que não lhe possam cair as culpas em cima, porque se caírem, é um descrédito enorme.”

Já Francisco Pereira Coutinho pede que se analise a forma como a informação tem chegado a Vladimir Putin, não sendo esta a primeira vez que faria acusações falsas. “Ele recentemente alegou conquistas de cidades que, entretanto, não tinham acontecido, possivelmente por estar a receber informações de generais que não têm uma correspondência com a realidade. E desta vez isto nasce de uma conversa bilateral entre o presidente russo e o presidente americano”, sublinha.