Uma descoberta inédita na ciência marciana revelou que as tempestades de poeira em Marte geram eletricidade por meio de descargas eletrostáticas entre partículas finas de poeira suspensas na atmosfera do planeta vermelho. Os resultados, publicados recentemente em estudos científicos revisados por pares, confirmam pela primeira vez um fenômeno que havia sido apenas teoricamente previsto por décadas — e que agora muda a compreensão que se tinha sobre a atmosfera marciana e os desafios da exploração humana e robótica no planeta.

A descoberta surgiu a partir de observações feitas pelo rover Perseverance, da NASA, que está explorando Marte desde 2021. Equipado com o instrumento SuperCam, o robô registrou sinais acústicos e eletromagnéticos durante a passagem de redemoinhos de poeira — também chamados de dust devils — e tempestades no terreno marciano. Esses sinais não correspondiam apenas ao som do vento e, após análise, foram interpretados como descargas elétricas geradas pela fricção entre as partículas de poeira que se chocam e se carregam eletricamente.

Marte elétrica

Em Marte, a atmosfera é extremamente rarefeita e composta principalmente por dióxido de carbono — características que facilitam a formação de campos elétricos fortes durante tempestades de poeira. Quando as partículas se elevam e se esfregam umas nas outras, elas acumulam cargas elétricas que, ao se desprenderem, liberam energia na forma de faíscas e descargas elétricas de pequena escala. Essas descargas — semelhantes a “mini-relâmpagos” ou faíscas estáticas — foram captadas pelos sensores do rover e representam a primeira evidência direta de eletricidade atmosférica em Marte.

Esse fenômeno tem repercussões importantes para a ciência e a exploração espacial. Primeiramente, as descargas elétricas podem influenciar a química atmosférica marciana, promovendo reações que alteram a composição de gases como o metano — um componente curioso da atmosfera que tem sido detectado em ciclos de emissão e desaparecimento rápidos em missões anteriores. Modelos sugerem que a eletricidade pode acelerar a formação de compostos oxidantes, o que ajuda a explicar por que o metano reduz mais rapidamente do que se esperava.

Além disso, a presença de eletricidade gerada por poeira tem implicações práticas para futuras missões, especialmente as planejadas para a década de 2030, quando a presença humana em Marte é mais seriamente considerada. Descargas elétricas e campos eletrostáticos podem interferir em instrumentos eletrônicos sensíveis a bordo de robôs e naves, exigindo projetos mais robustos e equipamentos protegidos contra descargas elétricas. Para astronautas, isso representa um fator adicional de risco que precisa ser mitigado em habitats, trajes espaciais e sistemas de suporte à vida.