Da inteligência artificial que planeia ataques em minutos às soluções antigas que travam tecnologia de ponta, passando pela ciberespionagem silenciosa: eis o guia essencial para compreender as profundas transformações que estão a mudar a face da guerra moderna
Quando Volodymyr Zelensky subiu ao púlpito das Nações Unidas, em setembro, fez um aviso que passou despercebido. O mundo corre o risco de “ver drones de combate a atacar infraestruturas e pessoas, totalmente autónomos e sem qualquer envolvimento humano”, alertou o presidente de um país que desafia diariamente as regras da guerra. Só que Zelensky não estava a descrever um futuro distante, mas a evolução lógica de um conflito que se transformou no maior laboratório de tecnologia militar da história. Estes são alguns dos aspetos que estão a mudar na guerra, tal como a conhecemos.
O olho que tudo vê
A revolução começa na capacidade de ver. Desde drones que não conseguem ser intercetados por armas de guerra eletrónica, a sistemas de processamento maciço de informação que permitem melhorar o planeamento e, em última instância, salvar vidas. Um exemplo disso acontece num centro de inteligência artificial do Ministério da Defesa ucraniano. Todos os meses, este departamento recebe dezenas de milhares de vídeos da linha da frente que são analisados por Inteligência Artificial (IA). Esta capacidade permite processar a informação numa escala sem precedentes, identificando alvos e integrando tudo num só mapa, em tempo real.
A IA consegue cruzar imagens de satélites comerciais, relatórios de espiões no terreno, sinais de rádio intercetados, vídeos de drones e até publicações de redes sociais para criar um “gémeo digital” do campo de batalha. Esta é uma autêntica revolução quando comparada aos métodos utilizados há poucos anos, onde um oficial tinha de desenhar tudo no papel, com a informação a demorar horas a chegar.
Hoje, sistemas como os desenvolvidos pela empresa americana Palantir são capazes de reduzir o ciclo de planeamento militar de horas para minutos. Estes sistemas não se limitam a detetar o alvo: eles calculam, com base nas capacidades logísticas disponíveis, qual a melhor arma para o destruir no menor tempo possível.
Exércitos de Droids
Na Ucrânia, um país onde a necessidade de defesa casa na perfeição com uma enorme quantidade de pessoas formadas em tecnologia de informação, existem empresas dedicadas a resolver o problema principal do exército: a falta de infantaria. Kiev tem tido dificuldade em contrariar a superioridade numérica de Moscovo na linha da frente e há empresas, como a DevDroid, que trabalham para criar sistemas de automatização de metralhadoras pesadas, capazes de detetar pessoas, rastreá-las e abrir fogo caso um operador humano decida disparar.
Uma das áreas onde a Inteligência Artificial poderá ter maior impacto, já durante o próximo ano, é no campo dos drones de interceção. O software a bordo destas munições aéreas é capaz de detetar alvos antes de um humano o conseguir fazer e movimentar-se com uma agilidade superior à de um piloto. Este tipo de sistemas ainda não está a ser utilizado em massa, mas segundo os programadores que desenvolvem a tecnologia, é possível que comecem a operar já no final de 2026.
Mas a revolução não é apenas aérea e terrestre. A Ucrânia expandiu a utilização de sistemas não tripulados ao domínio marítimo (USVs), utilizando drones “kamikaze” aquáticos para desafiar o controlo naval russo no Mar Negro e atacar infraestruturas offshore, provando que é possível paralisar uma marinha convencional sem ter navios de guerra tradicionais.
Uma solução “low-tech”
Enquanto exércitos de engenheiros lutam diariamente para encontrar a solução tecnológica mais avançada, na linha da frente surgem soluções simples para contrariar os avanços de topo. Um dos melhores exemplos encontra-se nas cidades ucranianas próximas da frente de combate: toneladas de redes de pesca descartadas, outrora usadas para capturar peixe, estão agora a ser enviadas para “pescar” drones russos.
A ideia original surgiu do lado russo, o primeiro a ter de lidar com ataques de drones em massa. Hoje, milhares de quilómetros de vias ucranianas estão a ser “tapadas” com estas redes, feitas para aguentar o impacto de peixes fortes. Estas estruturas desempenham um papel crucial na proteção de trincheiras, estradas e até hospitais, mudando por completo o aspeto visual da guerra com “túneis” de rede cada vez mais comuns.
O conceito é simples: as redes funcionam como teias de aranha gigantes. Quando os drones tentam atingir os alvos, as suas hélices ficam emaranhadas na malha resistente, inutilizando o aparelho antes da detonação.
A fronteira ética
Para já, praticamente todas as soluções autónomas que envolvem a utilização de Inteligência Artificial são criadas com o conceito “human-on-the-loop”, ou seja, a decisão final de disparo pertence sempre ao ser humano. A indústria e as organizações internacionais temem que sistemas completamente autónomos — denominados “human-out-of-the-loop” — possam violar as regras da guerra, sendo incapazes de diferenciar civis ou soldados que se rendem.
A guerra pela Informação
Contudo, hoje tudo é uma arma e um dos principais campos de batalha é o da informação. Países como a Rússia e a China desenvolveram estruturas complexas capazes de surtir efeitos que lhes permitem atingir objetivos estratégicos sem disparar um tiro. A invasão russa da Ucrânia foi muito além das planícies do Donbass; Moscovo lançou uma vasta campanha de desinformação com o objetivo de minar o apoio ocidental a Kiev.
Esta tendência veio para ficar e as ferramentas de IA vieram intensificá-la. Segundo analistas do MIT Technology Review, este cenário poderá ser utilizado com particular eficácia em 2027, data em que a maior parte dos analistas militares acredita que a China poderá lançar uma ofensiva contra Taiwan. Ao mesmo tempo que dezenas de milhares de drones tentariam sobrecarregar as defesas aéreas da ilha, uma vasta campanha de desinformação, levada a cabo por “fábricas de bots”, inundaria as redes sociais para quebrar a vontade de defesa taiwanesa.
Salt Typhoon
A Inteligência Artificial cria ainda mais complicações para as democracias no campo cibernético. Em 2023, os Estados Unidos, a principal potência tecnológica global, foram atingidos pela operação “Salt Typhoon”. Um grupo de hackers ligado aos serviços secretos chineses conseguiu infiltrar-se nas principais empresas de telecomunicações americanas. Os piratas informáticos utilizaram routers e servidores comprometidos para se moverem através das redes e encontrarem posições de espionagem vantajosas.
O ataque permitiu algo que as autoridades americanas nunca pensaram ser possível: copiar conversas e mapear os movimentos de membros dos serviços secretos e agentes dedicados à contraespionagem. Num artigo na revista Foreign Affairs, Anne Neuberger, vice-conselheira de Segurança Nacional para a Cibersegurança, alerta que esta tendência vai intensificar-se com as capacidades geradas pela IA.
A IA como escudo
Porém, a mesma tecnologia que ataca é a que defende. Atualmente, a IA já é utilizada para detetar padrões e anomalias em redes em tempo real. Se uma válvula numa estação de tratamento de água digital atuar de forma estranha, a IA deteta a intrusão antes que esta cause danos físicos. Em vez de tentar “tapar todos os buracos”, a IA ajuda a identificar quais as vulnerabilidades críticas que, se exploradas, causariam falhas em cascata. Nesta nova era, a vitória não dependerá apenas de quem tem o míssil mais rápido, mas de quem tiver o algoritmo mais resiliente.