Serhii Tyschenko, um médico de combate ucraniano, passou 472 dias seguidos em um bunker, sob fogo inimigo. Seu caso parece ser um exemplo extremo de um problema que há muito assola as forças armadas de Kiev. Longas rotações têm sido constantes na luta da Ucrânia contra as forças russas, já que Kiev enfrenta dificuldades com a escassez de tropas. A onipresença de drones piorou a situação, pois é quase impossível para os soldados mudarem de posição sem serem detectados.
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— Eu não esperava que durasse tanto — disse o sargento Serhii Tyschenko em uma tarde recente em sua casa nos arredores de Kiev, capital da Ucrânia, com a esposa ao seu lado. — Eu esperava que fosse um mês, dois meses no máximo. [A situação] se torna muito difícil mentalmente.
Em vez disso, ele passou mais de um ano no subsolo, em um bunker úmido, sem ar fresco ou mesmo um raio de sol durante boa parte do tempo.
Rotações excessivamente longas prejudicam o moral e podem causar danos psicológicos, dizem especialistas militares, o que pode contribuir para uma maior escassez de tropas devido a deserções ou esgotamento. As Forças Armadas da Ucrânia reconheceram o problema e prometeram resolvê-lo.
— Permanecer na linha de frente por tantos dias, em condições extraordinariamente difíceis, ultrapassa os limites da resistência humana — afirmou o coronel reformado Vladyslav Seleznyov, que serviu por 25 anos no Exército ucraniano. — Isso é inaceitável. “Os rodízios programados devem ser respeitados.
O comandante da brigada do sargento Tyschenko, coronel Dmytro Dobush, reconheceu que seu período de serviço foi excepcionalmente longo, chamando-o de “verdadeiro patriota” que “realizou um feito incrível”.
— Um período de serviço como esse é atipicamente longo — destacou o coronel Dobush em entrevista, “mas em condições de intenso combate e significativa escassez de pessoal, esses casos não são isolados. Infelizmente, essa é a realidade da atual fase da guerra”.
O sargento Tyschenko contou não saber “como conseguiu aguentar”. “Mesmo hoje, não entendo como fui capaz de suportar tudo isso”, declarou.
Nascido em uma vila a cerca de 50 quilômetros a leste da capital ucraniana, o sargento Tyschenko, de 46 anos, foi criado em um orfanato. Ele disse que sempre se considerou “muito frágil” emocionalmente, principalmente por causa de sua timidez de longa data. Ele se tornou veterinário, casou-se e criou cinco filhos em uma casa repleta de coelhos e pássaros de estimação.
Ele trabalhava em uma fazenda leiteira em fevereiro de 2023, quando, um ano após o início da invasão russa em larga escala, foi convocado para um centro de recrutamento militar.
— Eu sabia que eles me levariam — ressaltou.
Para um homem que disse ter dificuldade em pedir informações a estranhos, deixar sua família e se adaptar à vida militar foi um choque e uma experiência deprimente.
Ele se tornou médico de combate. Sua primeira missão na linha de frente, ainda naquele ano, no leste da Ucrânia, durou cerca de 45 dias. Seguiram-se mais duas missões de 30 dias e, em seguida, uma breve licença. Sua família foi encontrá-lo na cidade de Sloviansk, na linha de frente da Guerra na Ucrânia.
— Eu não esperava que eles viessem, porque era longe e arriscado — contou Tyschenko. — Fiquei muito feliz em vê-los.
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Essa foi a última vez que ele abraçou sua esposa e filhos por mais de um ano. Em julho de 2024, ele foi transferido para a 30ª Brigada e designado para uma nova posição na região de Donetsk. O sargento disse que não lhe informaram quanto tempo duraria seu período de serviço. Um porta-voz de sua brigada confirmou que a duração dos períodos de serviço não é predeterminada. Mas Tyschenko disse que presumiu que ficaria no posto por no máximo 30 a 40 dias, como já havia acontecido antes.
— Você começa a contar cada dia — disse ele.
Ele se lembrou de seu primeiro dia e noite viajando até a posição. Com outros três soldados, ele caminhou por cerca de um quilômetro e meio por entre arbustos e capim alto no escuro. Drones sobrevoavam o local, mas ele pensou que estivessem apenas observando.
As tropas rastejaram para um bunker subterrâneo no meio de um campo. O bunker tinha menos de um metro e meio de altura na maioria dos lugares, e a área para dormir era ainda mais baixa, em um labirinto de passagens frias e úmidas. Não havia colchões, então sacos de dormir impermeáveis ofereciam o máximo de conforto.
— A umidade era o que mais sentíamos — revelou o sargento.
Área para dormir no bunker do Sargento Tyschenko em abril. — Foto: Serhii Tyschenko
Mais soldados chegaram ao bunker, elevando o grupo para cerca de oito. Inicialmente, os homens obtiveram suprimentos de uma posição próxima, de onde também podiam ligar para suas famílias usando um dispositivo de internet via satélite. Mas então as coisas ficaram mais perigosas.
Em 16 de setembro, a própria posição foi atacada. Alguns de sua unidade foram mortos. Ninguém foi enviado para substituir os mortos e não havia informações, contou ele, sobre a chegada de reforços. Foi então que ele percebeu, acrescentou, que não voltaria para casa tão cedo.
— Já nos haviam dito que não havia pessoas disponíveis para nos substituir — contou Tyschenko. — Ficou claro para mim que isso ia durar muito tempo.
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‘Ninguém para nos substituir’
A partir de fevereiro de 2025, os ataques de drones russos se intensificaram e os homens não podiam mais sair do bunker em segurança. Temendo serem vistos, eles cobriram uma pequena janela no bunker e, a partir daquele momento, não viram mais o sol. Eles dependiam dos relógios e calendários de 24 horas de seus celulares para marcar a passagem do tempo.
O exército ucraniano começou a lançar suprimentos por drones, que os homens arriscavam recuperar à noite: baterias portáteis carregadas, carne enlatada, mingau pronto. O sargento Tyschenko sorriu ao se lembrar de como um dos soldados era cozinheiro e pedia ingredientes pelo rádio para fazer panquecas. Mas houve momentos em que a comida e a água começaram a ficar escassas.
Enquanto isso, o Tyschenko disse que eles estavam sob ataque. As forças russas lançavam granadas e latas cheias de explosivos, e chegaram até a borda da trincheira que escondia o bunker.
— Continuávamos esperando, esperando, e a situação continuava se arrastando — contou ele. — Por fim, aceitamos que, no final, talvez só fôssemos retirados quando a guerra terminasse, porque não havia ninguém para nos substituir.
Enquanto esperavam, muita coisa aconteceu fora do bunker. A Ucrânia lançou uma ofensiva transfronteiriça na região de Kursk, na Rússia. As forças de Moscou avançaram no leste da Ucrânia, perto de Pokrovsk e em direção a Chasiv Yar.
Tropas norte-coreanas se juntaram à luta ao lado das forças russas. De aliados ocidentais, a Ucrânia recebeu caças F-16 e obteve aprovação para lançar ataques de longo alcance contra a Rússia. Havia um novo presidente dos EUA e um novo Papa.
Nenhuma dessas informações chegou ao bunker do Sargento Tyschenko. Estavam completamente isolados. Eles tinham um rádio, mas ele só comunicava informações sobre a companhia deles — não sobre o resto do campo de batalha, nem sobre o mundo além.
O tempo que passaram no bunker cobrou seu preço. Os músculos enfraqueceram, disse o Sargento Tyschenko, e o espaço apertado causou dores nas costas.
Uma esperança surgiu quando um chamado de rádio chegou neste outono (hemisfério norte), informando ao sargento Tyschenko e a outro soldado que em breve teriam permissão para sair. Mas o tempo não colaborou e a evacuação foi adiada.
Cerca de 20 dias depois, eles tentaram novamente. Os dois homens rastejaram para fora do bunker, entrando em uma trincheira repleta de lixo e restos mortais de soldados russos. O primeiro passo foi uma corrida de 500 metros até a posição próxima que tinha acesso à internet — o início de uma caminhada exaustiva.
— Nossas pernas pareciam de algodão — disse ele. — Mal conseguíamos andar, mas continuamos sem parar.
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Selfie tirada pelo Sargento Tyschenko em setembro de 2024 durante seu período de serviço de 472 dias — Foto: Serhii Tyschenko
Quando finalmente conseguiram sair completamente, a primeira coisa que ele quis fazer, afirmou, foi se lavar e ligar para a família. Um reencontro de verdade aconteceu mais tarde, em sua casa.
— Ainda estou surpreso com a rapidez com que me adaptei às condições — contou ele em casa, na metade de uma licença de 30 dias, onde sua esposa e filha não o deixavam sair de vista. No entanto, lá estava ele se adaptando novamente, semicerrando os olhos e esfregando-os na luz até que uma queda de energia escureceu o quarto.
Dias depois, o Sargento Tyschenko foi nomeado Herói da Ucrânia — a mais alta honraria do país. Um comunicado presidencial destacou a duração e os perigos de seu período de serviço. Ele disse que sua experiência “não foi normal”, mas não havia indignação ou raiva em sua voz. No entanto, questionou o valor militar de experiências como a sua.
— Antes, se entrássemos em combate, podíamos saltar e agir — disse ele. — Agora, tudo é dominado por drones. Então, qual o sentido de manter as pessoas simplesmente sentadas em um buraco?
Duas semanas depois, ele assumiu seu novo posto em Sloviansk. Lá, ele ajuda a tratar soldados evacuados da linha de frente. Recentemente, seu passado e presente se encontraram quando um paciente foi trazido para o local. Era o cozinheiro de panquecas do bunker — evacuado após um período de serviço de 10 meses.
O Sargento Tyschenko disse que não foi informado sobre a duração de seu próprio período de serviço desta vez. Nem perguntou.