Nos anos 90, apareceu um subgénero do filme policial que ficou conhecido como “thriller psicológico yuppie”, porque as personagens quase sempre pertenciam à referida denominação socio-económica muito popular na altura, os Young Urban Professionals. Nessas fitas, geralmente medíocrezinhas, os protagonistas eram postos em perigo de vida por homens ou mulheres que, à primeira vista, pareciam normais e inofensivos, mas afinal eram perigosos psicopatas. Muitos desses títulos foram directamente para o buraco sem fundo do home video, e entre os mais conhecidos constam A Mão que Embala o Berço, Obsessão Selvagem, Dormindo com o Inimigo ou Jovem Procura Companheira.
A Criada, de Paul Feig, baseado no best-seller de Freida McFadden (também produtora, juntamente com as duas principais intérpretes, Sydney Sweeney e Amanda Seyfried), remete, de forma algo anacrónica, para esses thrillers psicológicos de juntar por números da década de 90, isto embora não se perceba muito bem se a sério, se ironicamente. O que não é surpresa, dado que Feig, autor de coisas tão olvidáveis como Armadas e Perigosas, Caça-Fantasmas (a versão feminino-feminista) ou Um Pequeno Favor, é um dos realizadores mais canhestros a trabalhar actualmente em Hollywood.
[Veja o “trailer” de “A Criada”:]
Sweeney interpreta MillieCalloway, uma rapariga sem emprego nem casa, reduzida a dormir, em pleno Inverno, dentro do carro em parques de estacionamento, que quase por milagre consegue uma posição de criada e ama na luxuosa casa nos subúrbios de Nova Iorque pertencente a Nina Winchester (Seyfried) e ao seu marido de sonho, Andrew (Brandon Sklenar), que têm uma filha, a antipática Cece. Millie cedo percebe que Nina é imprevisivelmente bipolar e descobre que ela já esteve internada num hospital psiquiátrico por quase ter afogado Cece; e que o simpático, compreensivo e pacientíssimo Andrew lhe atura as mais inesperadas e piores alterações de humor. (Há ainda na casa um misterioso e mal-encarado jardineiro).
[Veja uma entrevista com as duas actrizes:]
É da convenção que nestes filmes ninguém é o que parece, e é também tudo menos difícil saber que, a certa altura de A Criada, as personagens vão revelar quem são na realidade (incluindo a própria Millie e o jardineiro trombudo) e a história vai dar uma valente pirueta. Só que no caso de A Criada, é menos uma pirueta do que um triplo mortal encarpado com saída em parafuso, porque o enredo é, como dizem os americanos, overthe top, abdicando de todo e qualquer semblante de verosimilhança e coerência interna, para enveredar pelo mais descarado, risível, sanguinolento e previsível disparate. E de thriller psicológico corriqueiro, o filme passa a thriller trashy estapafúrdio, ainda por cima convencido que é muito engenhoso.
[Veja uma sequência do filme:]
É sempre um gosto ver Sydney Sweeney (use ou não jeans) e Amanda Seyfried, embora as suas personagens em A Criada sejam basicamente feitas de cartão e cola. Brandon Sklenar é um tão espesso canastrão que até a casa dos Winchester vai melhor que ele, Elizabeth Perkins tem um papel pequeno demais na elegantíssima e pérfida sogra obcecada pela porcelana da família (a louça desempenha um papel fundamental na trama do filme), e estar Paul Feig ou um robô atrás da câmara, tanto faz, A Criada até podia ter sido realizado por IA que nem se notava. Este é um caso chapado de “se não leu o livro também não vale a pena ver o filme”.