“Em patrulha aos ursos”: por dentro da resposta do Japão ao aumento de ataques mortais de ursos
Haruo Ikegami começa todos os dias ao amanhecer.
Assim que a luz do sol interrompe a escuridão sobre a sua pequena cidade em Hokkaido, o homem de 76 anos calça as botas de borracha e veste um casaco laranja fluorescente. É o seu uniforme, diz-me.
Depois de pegar nos walkie-talkies, atravessa a custo o jardim coberto de geada e entra numa carrinha verde, decorada com autocolantes onde se lê “em patrulha aos ursos”. O veículo é imediatamente reconhecível por aqui. Durante o percurso, os vizinhos chamam-no, perguntando sobre avistamentos recentes.
Ikegami é uma espécie de herói local nesta comunidade rural. Ao longo de uma carreira de 40 anos, abateu dezenas de ursos e vê o seu trabalho como uma linha de defesa crucial entre a cidade e a natureza cada vez mais imprevisível.
“Sem mim”, questiona, “quem é que salvaria esta cidade?”
Caçador de ursos Haruo Ikegami a ensinar o seu aprendiz. Yumi Asada/CNN
Autocolante de aviso sobre ursos. Yumi Asada/CNN
As jaulas metálicas que montou estão espalhadas pela cidade de Sunagawa, cada uma com uma armadilha com pedaços de carne de veado e colocada em locais onde foram avistados ursos este ano. No dia em que o acompanhamos, as armadilhas estão vazias. Mas ele avisa que os ursos nunca estão longe, avançando cada vez mais para território humano e assustando quem aqui vive.
“As pessoas estão a morrer. Isto é um caso de homicídio”, conta o caçador à CNN.
Este ano, pelo menos 13 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas em encontros com ursos. Vídeos de ursos a vasculhar corredores de supermercados, a circular em recintos escolares e a apanhar dióspiros em quintais suburbanos tornaram-se virais nas redes sociais japonesas. Algumas escolas também encerraram temporariamente, enquanto residentes em partes do norte do Japão evitam sair depois de escurecer.
A crise gerou alarme nacional. O ministro da Defesa do Japão mobilizou as Forças de Autodefesa para as regiões mais afetadas, e os legisladores estão a tentar encontrar soluções a longo prazo. As embaixadas dos Estados Unidos e do Reino Unido também emitiram avisos aos viajantes em zonas rurais.
CNN
Mas para os caçadores, a crise é ao mesmo tempo assustadora – e previsível.
“Há simplesmente demasiados ursos agora, é uma situação de emergência”, considera Ikegami.
A população de ursos no Japão disparou, enquanto o número de caçadores licenciados caiu a pique.
Com mais de um terço da população japonesa agora com mais de 65 anos, as localidades rurais estão a encolher. Restam poucos jovens, e ainda menos estão dispostos a dedicar-se à caça, um trabalho perigoso, mal pago e pouco apelativo em comparação com a vida urbana em locais como Tóquio, explica Ikegami.
“Se o governo tivesse levado isto a sério mais cedo, não teria chegado a este ponto”, refere à CNN Atsushi Kanno, um caçador de ursos de 37 anos. “É absurdo que estejam a reagir agora, apenas depois de a situação ter escalado.”
Ursos avançam para zonas desocupadas
Há vários fatores a impulsionar o aumento de encontros.
Um deles são simplesmente os números. A população do urso-pardo de Hokkaido, uma das duas espécies de urso no Japão, mais do que duplicou nos últimos 30 anos, com quase 12 mil animais a vaguear atualmente pela província mais a norte do país. Estes parentes robustos do urso-pardo-americano podem atingir quase dois metros de altura e existem apenas em Hokkaido.
A outra espécie, o urso-negro-asiático, é mais pequeno, atingindo cerca de 1,65 metros. Mas também é responsável por ataques fatais, particularmente em províncias do norte como Akita e Iwate.
Os especialistas dizem que as alterações climáticas são outro fator. Más colheitas de frutos secos e fruta estão a empurrar os ursos para a procura de alimento noutros locais.
Yumi Asada/CNN
“Quando há escassez, os ursos têm de encontrar comida. Acredito que os ursos estão a dar um passo mais perto dos aglomerados humanos”, explica à CNN Hiroo Tamatani, conservacionista de ursos.
As mudanças demográficas no Japão também agravam o problema. As localidades rurais e as terras agrícolas formavam, em tempos, uma barreira natural entre a floresta densa e os centros populacionais. Mas à medida que essas áreas se esvaziam, os ursos estão a ocupar o espaço, aproveitando o novo território disponível.
Uma linha de defesa a encolher
O abate é atualmente a principal resposta do Japão aos ursos que atacam pessoas ou entram em zonas residenciais.
O governo alterou as leis para permitir que a polícia de choque utilize armas de fogo com maior facilidade. Mas as Forças de Autodefesa continuam legalmente impedidas de usar armas, a menos que esteja em causa a defesa nacional, deixando caçadores como Ikegami na linha da frente.
Funcionário do governo a atuar como vigilante de ursos. Yumi Asada/CNN
Ikegami treina jovens caçadores, mas poucos têm a perícia ou a confiança necessárias para abater animais que podem pesar várias centenas de quilos. Ao mesmo tempo, recebe regularmente chamadas telefónicas indignadas a pedir-lhe que não mate os ursos.
“Enquanto vivermos aqui, simplesmente não conseguimos coexistir”, afirma.
“As nossas vidas são preciosas para nós. Nenhuma pessoa diria que a vida de um urso é mais importante do que a sua”, acrescenta Ikegami.
O caçador de ursos Katsuo Harada partilha dessa opinião. Embora o homem de 84 anos ainda vá caçar, são sobretudo os seus dois aprendizes que assumem o comando no reforço da fronteira entre a floresta e as áreas residenciais.
Harada conhece bem, por experiência própria, o poder destes ursos. Há mais de 20 anos, esteve perto de ser morto por um urso enquanto caçava veados.
“Disparei dois tiros, mas o urso não parou. Saltou para cima de mim, arrancou-me a arma das mãos e mordeu-me a cabeça”, conta à CNN.
“O meu olho e a minha orelha foram pendurados”, revela.
Caçador Katsuo Harada segura um crânio de urso. Yumi Asada/CNN
No meio do caos, enfiou o punho pela garganta do urso, cortando-lhe as vias respiratórias tempo suficiente para que os disparos fizessem efeito. Harada diz lembrar-se de pouco depois disso, pois perdia e recuperava a consciência. Mas recorda-se de pegar no walkie-talkie e chamar os amigos que estavam a caçar com ele para pedir ajuda.
Guarda o crânio do urso como um lembrete de quão rapidamente os papéis podem inverter-se — de caçador a presa.
Coexistir ou combater
A opinião pública apoia, em grande medida, o abate. Muitos no Japão têm agora receio de fazer caminhadas ou viajar para províncias com ataques recentes, e um número crescente prefere visitar “províncias sem ursos”, áreas sem populações conhecidas destes animais.
Mas os conservacionistas alertam contra o abate generalizado.
“Em vez de os matar a todos, devemos identificar os que causam problemas e lidar com esses casos individualmente”, refere Tamatani.
Treino de cães da Picchio. Yumi Asada/CNN
Hiroo Tamatani, conservacionista de ursos e líder da Picchio. Yumi Asada/CNN
Hiroo Tamatani trabalha numa organização sem fins lucrativos chamada Picchio, que utiliza cães para afastar os ursos e coloca coleiras de monitorização para seguir os seus movimentos. Tamatani defende também a plantação de árvores que fornecem alimento aos ursos longe das zonas residenciais, para que tenham acesso a recursos naturais mais afastados das localidades.
Embora reincidentes possam ainda ser abatidos, argumenta que estas medidas reduzem mortes desnecessárias.
“Os ursos não são monstros. São animais que vivem tal como nós.”
O Japão continua à procura de soluções que protejam a vida humana e, ao mesmo tempo, permitam a sobrevivência da vida selvagem.
“Os humanos e os animais viveram lado a lado durante muito tempo. Por vezes magoámo-nos uns aos outros, mas ainda assim devemos respeitar-nos e reconhecer-nos mutuamente”, conta à CNN Tougen Yoshihara, um monge budista que foi atacado por um urso em maio.
Tougen Yoshihara, monge budista que foi atacado por um urso. Yumi Asada/CNN
Yoshihara sobreviveu apenas porque o seu cão, Chico, ladrou e perseguiu o urso, conta. Escapou com ferimentos ligeiros, mas a experiência deixou marcas – agora anda com uma navalha quando anda na floresta.
Por agora, o Japão encontra-se numa encruzilhada. O país oscila entre o medo e o desejo de coexistir com os ursos, uma parte importante do ecossistema japonês.
Mas até surgir uma solução duradoura, é provável que mais vidas, humanas e animais, paguem o preço.