“A esquerda retrocede. A liberdade avança!” Nas redes sociais, o Presidente argentino, Javier Milei, partilhou um mapa da América Latina que distingue os países em que governam partidos de esquerda e de direita. O líder da Argentina celebrava a viragem à direita de mais um governo da região, neste caso o do Chile, com a vitória de José Antonio Kast nas eleições presidenciais. Noutra publicação mais provocadora, que irritou os brasileiros, o chefe de Estado argentino chegou a partilhar uma América do Sul dividida entre favelas (onde se incluem o Brasil, a Colômbia, a Venezuela e o Uruguai, governados pela esquerda) e arranha-céus (como a Argentina, o Chile, o Peru e o Equador, governados à direita).

Em 2025, a tendência política na América Central e do Sul foi de clara viragem à direita — da mais moderada à mais radical. Os eleitores preferiram líderes daquele espectro político, derrotando os dos partidos de esquerda. Aconteceu no Chile, na Bolívia, no Equador, nas Honduras e até na Argentina — em que Javier Milei conquistou uma sólida vitória nas legislativas (apesar de ter perdido as eleições municipais na capital, Buenos Aires). Há um elo a ligá-los: muitos candidatos contaram com o apoio do Presidente norte-americano, Donald Trump.  

Há quatro anos, a tendência era a inversa: os partidos de esquerda progressista dominaram nas várias eleições na América Latina. Gabriel Boric tinha vencido as presidenciais no Chile, Gustavo Petro na Colômbia (um país tradicionalmente de direita e que elegeu pela primeira vez na História um Presidente assumidamente de esquerda), Lula da Silva no Brasil, Pedro Castillo no Peru e Xiomara Castro nas Honduras. Com a particularidade de todos eles substituírem lideranças mais à direita.

Vai esta viragem à direita prolongar-se no próximo ano? Há vários países com eleições importantes: há presidenciais no Peru, Colômbia e Brasil — os dois últimos potências regionais. Ao mesmo tempo, o regime venezuelano liderado por Nicolás Maduro continua a ser ameaçado pelos Estados Unidos da América (EUA), o que poderá alterar ainda mais o panorama, principalmente se María Corina Machado (assumidamente de direita) suceder ao atual Presidente.

Politicamente, a América Latina sempre funcionou por ondas e seguiu tendências de outras partes do globo. No início dos anos 90, vários países tiveram regimes neoliberais de direita — à semelhança do Reino Unido liderado pela ex-primeira-ministra Margaret Thachter, ou dos Estados Unidos, com o Presidente Ronald Reagan. No final da década e no início dos anos 2000, virou à esquerda, com Lula da Silva e Hugo Chávez (que representavam correntes diferentes) a serem os principais rostos dessa mudança.

A meio da última década, a tendência voltou a alterar-se com várias vitórias de líderes mais à direita: Sebastián Piñera no Chile, Mauricio Macri na Argentina e Jair Bolsonaro no Brasil. Em poucos anos, assistiu-se a mais uma viragem à esquerda, com o regresso ao poder de Lula da Silva, a vitória de Gabriel Boric no Chile e de Gustavo Petro na Colômbia.