Não, não tem. Uma criança de 9 anos não tem namorado nem namorada. E se a noção, ou a falta dela, insistir na pergunta, pelo menos que ela seja colocada sem julgamentos prévios. Tens alguém mais especial? Perguntar de forma neutra não confunde, não antecipa, não empurra. Perguntar se há alguém especial, se gostam de alguém, ou simplesmente não perguntar nada, não magoa ninguém.

A maioria das pessoas gay que conheço, e de muitas que conheci tarde demais, diz ter percebido desde muito cedo quem era. Ora, se queremos que filhos, primos ou sobrinhos se sintam livres para sair do armário, como continuamos a questionar a um menino em desenvolvimento se tem namoradinha? É demasiado fácil sacudir a água do capote e afirmar que o filho nunca revelou preferir a companhia de meninos, quando na verdade nunca lhe foi concedido espaço suficiente para se sentir à vontade para dizer se gosta de meninos, de meninas ou de ninguém. A pergunta “já tens namoradinha?” não nasce do ódio, mas da preguiça em compreender o outro. É um reflexo condicionado, herdado, repetido sem pensamento crítico e a que já ninguém deveria recorrer.

A este propósito, alguns leitores e algumas leitoras terão reparado que no título desta crónica, destaco o género masculino como foco da observação. A escolha é intencional. Desde muito nova que durmo com amigas, que ando de mãos dadas com elas na rua, e nunca senti um olhar condenatório. Os meninos, sobretudo os de outros tempos e de certos contextos, sabem que comportamentos semelhantes são alvo de interpretações mais agressivas e, não raras vezes, violentas. Aliás, muitas crianças de 9 anos ainda não sabem tomar banho ou vestir-se sozinhas, mas já se lhes exige uma orientação romântica clara, preferencialmente heterossexual e definitiva. Ao optar por uma pergunta mais neutra ou simplesmente não perguntar, evita-se um tipo de sofrimento que, tantas vezes, começa cedo e dentro da própria casa. Enquanto na rua ou na escola todos percebem que aquele menino gosta de meninos, no espaço que deveria ser de conforto e aceitação continua a perguntar-se por uma namoradinha que não existe, nem existirá. Não porque queira abraçar o celibato, mas porque é um namoradinho que tem e terá.

“Já tens namoradinha?” é uma pergunta que pressupõe existir apenas uma resposta certa. Todas as outras devem ser engolidas em seco, como um embaraço a evitar. O mais curioso é que, mesmo depois da revelação da orientação sexual, o assunto continua a ser tabu em muitas casas, evitando-se o tema à mesa, sobretudo quando está presente aquele tio homofóbico.

Ao mesmo tempo, vemos a extrema-direita a crescer em Portugal e a tentar afastar a educação sexual das escolas, remetendo esse papel para pais e mães, como se o espaço familiar fosse, de forma consistente, um local de aprendizagem segura sobre orientação sexual e identidade. Basta ler caixas de comentários nas redes sociais para encontrar pais a afirmarem, com orgulho, que nunca falaram desses temas com os filhos e que “a vida os ensinará”, como se a simples menção da palavra “gay” em casa tivesse o poder mágico de alterar orientações sexuais, qual moda passageira. Este contexto prolonga a encenação e o fingimento de uma orientação que não é sentida e arrasta-se por anos. Aprende-se a omitir afectos, a esconder desejos, a ensaiar versões aceitáveis de si próprio para os outros, para ficar bem na fotografia da família conservadora.

Em 2026, deixemos de fingir que a pergunta “já tens namoradinha?” é inofensiva. Não é. Muitas vezes, para algumas pessoas serve para confirmar que está tudo “certo” com aquele rapaz, sendo que, quem mais se perturba com a possibilidade de uma criança não ser heterossexual são, quase sempre, os adultos, pois temem olhares alheios, explicações à família, comentários na escola.

E assim o silêncio volta a instalar-se em casa, apenas interrompido pela pergunta ansiosa, repetida como um ritual: “já tens namoradinha, não já?”

A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990.