
Alain Delon segura o queixo de Brigitte Bardot em Histórias Extraordinárias (1968)
Não por trás, mas mesmo ao lado do grande ecrã, icónica atriz e modelo nunca escondeu as suas opiniões anti-imigração e ligação à extrema-direita, consideradas ódio racial por cinco vezes em tribunal.
A francesa Brigitte Bardot, que morreu este domingo aos 91 anos, foi sem qualquer dúvida uma figura incontornável do cinema. Foi, por isso, adorada por milhões de pessoas. Muitas delas que só com a notícia da sua morte ficaram a saber do lado menos popular da icónica atriz e modelo.
Uma das surpreendidas fãs foi a cantora norte-americana Chappell Roan, que depois de partilhar uma homenagem à eterna “B.B.” nas redes sociais, apagou-a.
“F***-se”, começa por desabafar a artista, “eu não sabia que a Sra. Bardot defendia essas m***as todas”, exclamou. “Obviamente, não concordo com isso. É muito dececionante saber disso”, escreveu depois, numa história no Instagram.
É verdade: em paralelo com a inquestionável enorme carreira artística que levou como atriz, de 1952 a 1974, Bardot seguiu caminhos mais polémicos, marcados por posições políticas associadas à extrema-direita e por declarações que a levaram a ser condenada, por cinco vezes, por incitamento ao ódio racial.
Ligações à extrema-direita e condenações em tribunal
Essa trajetória prolongou-se por cerca de três décadas e foi tida como um caso peculiar no espaço cultural francês, isto porque Brigitte Bardot não só não escondeu simpatias pela extrema-direita, como as assumiu repetidamente em intervenções públicas e textos.
Segundo o jornal Le Monde, o afastamento de Bardot dos estúdios e sets a partir dos anos 1990 teve muito a ver com as suas posições consideradas nacionalistas, homofóbicas e racistas, numa França que considerava perdida.
Depois de três casamentos e divórcios, Bardot casou-se e ficou até ao fim da vida com Bernard d’Ormale, conselheiro de Jean-Marie Le Pen, líder histórico da extrema-direita francesa, fundador do Front National (FN) e antecessor do atual Rassemblement National, também falecido este ano.
Le Pen recorda, nas suas memórias, um primeiro encontro com Bardot no final dos anos 1950, quando regressava da Guerra da Argélia e desempenhava funções parlamentares ligadas ao orçamento militar.
“Ao lado dela, Marilyn Monroe parecia uma empregada de mesa”, escreveu o líder de extrema-direita, pai da também ex-líder do RN, Marine Le Pen. Jean-Marie escrevia que Bardot e ele “tinham mais em comum do que parece. Ela sente nostalgia de uma França limpa”.
Ao longo dos anos, os laços entre o universo Le Pen e Bardot aprofundaram-se. Jean-Louis Bouguereau, dirigente do RN no Var, no sul de França, se tornou advogado de Bardot e da Fundação Brigitte Bardot, dedicada à defesa dos direitos dos animais. Foi num jantar em Saint-Tropez, em 1992, organizado por Jany Le Pen e Bouguereau, que Bardot terá conhecido Bernard d’Ormale. A partir daí, ao lado de um militante com responsabilidades partidárias, a atriz passou a afirmar de forma mais estruturada as suas convicções e acompanhou a ascensão da extrema-direita.
A sua causa central — o bem-estar animal — articulou-se com um discurso dirigido sobretudo contra muçulmanos, recorrendo a referências a práticas religiosas ligadas ao abate ritual. Uma carta publicada no jornal de extrema-direita Présent tornou-se emblemática: Bardot alertava para o Eid al-Kebir e descrevia, em termos alarmistas, a possibilidade de o território francês ser “ensopado” com sangue de ovelhas abatidas. Nesse mesmo texto, associava a prática religiosa a uma imagem de ameaça generalizada e de transformação identitária do país. Foi neste contexto que surgiu a sua primeira condenação, em 1997, e a uma segunda, em 1998.
A mais recente condenação foi em 2021, depois de se referir aos habitantes da ilha da Reunião, do Índico, como “aborígenes que mantiveram os genes dos selvagens” ao denunciar o “tratamento bárbaro de animais por uma população degenerada”.
Hostilidade à esquerda e oposição à União Europeia caracterizavam essa faceta da atriz. É também mencionada pelo Le Monde sua admiração por Vladimir Putin. Mas havia casos à parte: Bardot apoiava a interrupção voluntária da gravidez e considerava Jean-Marie Le Pen por vezes excessivo, nomeadamente pelas suas declarações revisionistas. Com o tempo, a sua preferência passou a recair sobre a filha, Marine Le Pen, que chegou a qualificar como “a Joana d’Arc do século XXI”.
Nos anos mais recentes, Bardot terá procurado afirmar que o bem-estar animal era o seu principal critério político, chegando a dizer, numa entrevista ao mesmo jornal francês, em 2018, que também contactara Jean-Luc Mélenchon por causa do vegetarianismo e de propostas contra matadouros. Nessa ocasião, garantiu que já não apoiava ninguém. Ainda assim, três anos depois, numa entrevista à revista Valeurs actuelles, voltou a elogiar Marine Le Pen e o candidato presidencial Éric Zemmour.