A maior distância entre duas capitais brasileiras é de Porto Alegre (RS) a Boa Vista (RR). São 5.250 km em estradas, nos quais o viajante passa por aproximadamente 300 municípios. Seria uma viagem com um desbunde de aglomerações: cidades de todos os tamanhos, prédios, fazendas, condomínios, comércios…

Agora imagine um cenário em que, nesse caminho todo, existissem apenas 60 povoados. Todos eles pequeninos, desolados, com alguns poucos indivíduos à vista. Seria uma semana inteira de viagem atravessando o Brasil e quase não enxergando ninguém. Um vazio colossal e desolador.

Algo assim existe, mas não na Terra. Trata-se do Vazio de Boötes, uma região do Universo com entre 300 e 330 milhões de anos-luz de diâmetro (1 ano-luz são 9,46 trilhões de km) com pouquíssima matéria visível. É uma região realmente imensa, uma escala de grandeza que a mente humana talvez não consiga conceber. Para efeito de comparação, a distância entre o Sol e Netuno (último planeta do Sistema Solar) é de apenas 0,0005 ano-luz.

O Vazio de Boötes foi identificado em 1981 pelo astrônomo estadunidense Robert P. Kirshner e seus colegas durante levantamentos de redshift (nesse processo, os astrônomos descobrem a distância e o movimento de objetos no céu olhando para a cor da luz que eles emitem). O tal Vazio fica a 700 milhões de anos-luz da Terra, na constelação de Boötes, e é cercado por alguns superaglomerados de galáxias, como Hércules e a região de Ursa Maior.

A ciência havia descoberto os vazios cósmicos um pouco antes, no fim da década de 1970. Mesmo assim, o Vazio de Boötes foi chocante: era extenso demais para ser tão deserto. Numa distribuição “normal”, uma área desse tamanho deveria ter milhares de galáxias — em vez disso, Boötes tem apenas 60, aproximadamente, aglomeradas em uma região em formato de tubo. A grande questão passou a ser: 

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Por que tão vazio?

Blogs conspiratórios, vídeos de YouTube e fóruns de ufologia costumam ter teorias malucas e sem base científica sobre o Vazio de Boötes: Alguns sugerem que o vazio do vácuo se deve a uma raça extraterrestre avançada que usa esferas de Dyson para esconder estrelas e absorver sua energia, tornando-as invisíveis. Essa civilização seria Tipo 3 na Escala Kardashev (nós, terráqueos, ainda não chegamos nem no Tipo 1).

Uma outra teoria sugere que o vácuo seja um buraco negro supermassivo, mas os cientistas já desmentiram essa ideia. Há ainda quem interprete o vácuo como evidência contra o Big Bang ou a cosmologia padrão, sugerindo que se trata de um verdadeiro “nada” que desafia a física atual.

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Só que nenhuma dessas explicações é baseada em evidências científicas. No final das contas, o Vazio de Boötes pode ser explicado muito bem pela física que já conhecemos. Aqui vai ela:

Quando o Universo começou a se expandir, algumas áreas se tornaram mais densas e outras menos. Essas áreas mais densas foram colapsando por causa da gravidade, atraindo a matéria ao redor e formando as galáxias que, por sua vez, também foram atraindo umas às outras.

Essas ligações formaram uma rede que lembra a espuma de sabão. Existem as partes densas, como as galáxias, e existem os vazios: grandes bolsões com pouquíssima matéria. Estima-se que eles sejam 80% do volume do Universo observável. Além disso, os vazios também tendem a se conectar, formando vazios ainda maiores. Foi isso que provavelmente aconteceu com o Vazio de Boötes, que foi ganhando seu tamanho descomunal. Ele não é especial ou alienígena – só é o maior dentre os vazios do Universo.

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Ainda assim, os vazios são muito úteis para a ciência. Essas regiões quase desertas guardam informações sobre o modelo cosmológico que descreve o Universo, permitindo testar teorias.

Além disso, os vazios oferecem um ambiente raro e quase intocado, com densidade de matéria muito baixa. Isso faz deles um cenário ideal para estudar como as galáxias se formam e como o ambiente cósmico influencia esse processo.

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