Nos seis anos de curso, entre 1964 e 1970, não se cruzou com nenhum colega de outro país europeu (hoje a UC tem mais de cinco mil estudantes estrangeiros, provenientes de 118 diferentes nacionalidades). “Acho que o primeiro europeu de que me lembro na universidade foi o pediatra-geneticista francês Arnold Munnich, que veio dar umas palestras já depois do 25 de abril. Era um país fechado a tudo aquilo que era o fluxo de pessoas, a troca de ideias e conhecimento.”

Mas isso não limitou os académicos de saberem das revoltas estudantis e culturais que tiveram lugar em Paris, em 1968. Muitas famílias tinham parentes emigrados em França que lhes transmitiam as notícias. Um ano mais tarde, em 1969, a onda de descontentamento chegou a Coimbra, ainda que com menor pujança, apanhando a finalista Catarina de Oliveira já com firmes valores de esquerda. “Foram tempos inesquecíveis, com assembleias magnas muito tensas, o memorável protesto da final da Taça de Portugal entre a Académica e o Benfica e o constante apelo aos colegas para boicotarem os exames, já com uma acentuada crítica ao regime”, conta.

No pico da crise estudantil, Catarina casou com Manuel Leão, colega de curso, que fazia parte do principal grupo de contestatários: “Foi do entusiasmo”, brinca a investigadora. Como castigo pela insolência, Leão foi convocado para o serviço militar obrigatório, que cumpriu em Mafra, juntamente com uma companhia de académicos inssurrectos. Acabou por ser enviado para Angola, para ser médico de uma companhia portuguesa destacada em Luvuei, no Moxico, junto à fronteira com a Zâmbia e 1800 quilómetros de Luanda. Mas nem a distância nem os perigos da guerra demoveram Catarina de o visitar.

O destino da cientista também iria passar por Angola. Já era professora assistente de neurologia na UC, em 1971, quando foi convidada pelo professor António Nunes Vicente para integrar uma equipa dedicada a estruturar o ensino da neurologia em Luanda. Apesar de já ser mãe de dois filhos pequenos, aceitou. “Com o meu marido lá, ainda que a quase dois mil quilómetros, foi uma forma de juntar o útil ao agradável.”

A génese do Parlamento Europeu (a Assembleia Comum da CECA, de 1952) já tinha duas décadas: inicialmente com poderes limitados, era composta por representantes designados pelos parlamentos nacionais, introduzindo a ideia revolucionária de que a integração europeia deveria ter uma dimensão democrática supranacional. Dez anos depois, em 1962, essa instituição adoptaria o nome de Parlamento Europeu, refletindo a ambição crescente de deixar de ser um órgão apenas consultivo e de se afirmar como órgão central da democracia europeia.

A sede (embora oficializada apenas em 1997, com o Tratado de Amesterdão) era em Estrasburgo, cidade francesa encostada à Alemanha, como símbolo da reconciliação entre dois países inimigos na guerra. E em janeiro de 1973, pouco depois da chegada de Catarina a África, a CEE registou o primeiro alargamento, com a entrada do Reino Unido, Irlanda e Dinamarca, deixando o clube europeu com nove membros.