Depois de um ano de surpresas e sobressaltos, a indústria da aviação espera que 2026 traga algo raro: um período de relativa estabilidade.
Se isso vai acontecer é outra questão. Mesmo num ano mais calmo, os viajantes podem contar com mudanças significativas, desde melhorias premium prometidas há muito tempo que finalmente serão implementadas em larga escala, até aeroportos mais agradáveis para passar tempo e uma maior consolidação do setor.
Junte-se a isso a instabilidade geopolítica e o aumento do custo de vida, que está a apertar os orçamentos de viagem em todo o mundo e o ano que se aproxima promete ser tudo menos aborrecido.
Estas são as tendências que irão moldar as viagens aéreas em 2026.
A “premiumização” ganha altitude
O próximo ano verá a implementação de várias ofertas premium de aviões há muito prometidas. (Nicolas Economou/NurPhoto/Getty Images)
“A experiência premium – como produtos de cabine, lounges de aeroporto mais sofisticados e mais rotas diretas – está no seu melhor nível em décadas”, escreveu o site de promoções de viagens Going, na sua previsão para 2026.
De companhias como a American Airlines à JetBlue, Southwest Airlines e Swiss Air, produtos premium há muito anunciados – desde lounges a novos assentos – vão tornar-se amplamente disponíveis, em vez de estarem limitados a um pequeno número de aeronaves. Estes investimentos vão oferecer aos passageiros dispostos a pagar mais – ou a usar milhas – opções mais confortáveis e sofisticadas na parte dianteira do avião.
O diretor financeiro da American Airlines, Devon May, descreveu 2026 como um ano de “execução” de iniciativas apresentadas há vários anos. A companhia introduziu, a meio do ano, os seus novos assentos Flagship Business e Premium Economy num Boeing 787 e, em dezembro, no Airbus A321XLR. Até esta altura do próximo ano, estas novas ofertas estarão disponíveis em dezenas de aviões, incluindo o maior da frota, o Boeing 777-300ER, em rotas por todo o mundo.
“Estamos entusiasmados por ser uma companhia aérea global premium”, afirmou. “Achamos que é nessa direção que a procura vai continuar a evoluir”.
Os dados sustentam esta visão. A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) referiu uma “procura robusta” por viagens premium numa análise de dezembro, especialmente na Ásia, Europa e América do Norte. Desde a pandemia, mostram os dados da IATA, o tráfego premium tem crescido de forma consistente e mais rápido do que o da classe económica.
Até a Southwest, tradicionalmente associada a uma abordagem mais igualitária, está a aderir à tendência. A companhia vai começar a vender o seu primeiro produto premium – lugares com mais espaço para as pernas – em janeiro, e o diretor executivo, Bob Jordan, já deu a entender que haverá mais novidades.
“Estamos a mudar para responder às necessidades dos clientes”, disse o responsável à CNBC no início de dezembro, acrescentando que a companhia aérea está “a procurar ativamente” criar uma rede de salas VIP premium nos aeroportos.
Melhorias nos aeroportos para todos
O salão JetBlue BlueHouse no Aeroporto Internacional John F. Kennedy. Mais viajantes terão acesso a lounges em 2026. (Adam Gray/Bloomberg/Getty Images)
As viagens aéreas vivem uma idade de ouro no que toca a lounges de aeroporto. As companhias aéreas competem entre si para oferecer espaços cada vez mais sofisticados, enquanto as empresas de cartões de crédito investem fortemente para atrair novos clientes. O resultado são lounges mais numerosos e acessíveis do que nunca.
Os próprios aeroportos estão a acompanhar esta mudança. Saem os corredores estéreis com lojas genéricas e áreas de espera cheias de filas de cadeiras iguais. Entram a restauração local, lojas diferenciadas, terminais com arte, opções de assento variadas e, em alguns casos, esplanadas ao ar livre.
O gabinete de arquitetura Gensler chama a esta visão o “lounge para todos”, reconhecendo que os passageiros passam cada vez mais tempo nas áreas de segurança dos aeroportos, agora com melhores comodidades e design – e, inevitavelmente, mais oportunidades para gastar dinheiro.
“A área pós-segurança dos aeroportos do futuro vai ser muito mais do que um centro comercial propriamente dito: será um conjunto de espaços interligados que oferecem aos passageiros uma maior possibilidade de ‘escolher a sua própria aventura’”, afirma Ty Osbaugh, responsável pela área da aviação e sócio da empresa Gensler.
Aeroportos como os de Denver, Portland e São Francisco já refletem muitas destas ideias. Novos terminais em Nova Iorque (JFK) e Seattle-Tacoma, com abertura prevista para 2026, deverão seguir o mesmo caminho.
Fusões estão a transformar o setor
O grupo Lufthansa tem planos para a companhia aérea italiana ITA. (Alessia Pierdomenico/Bloomberg/Getty Images)
Na Europa, o grupo Air France-KLM e o Lufthansa Group, na Ásia a Korean Air e, nos Estados Unidos, a Alaska Airlines pretendem alcançar marcos decisivos nos seus processos de fusão em 2026. Mudanças que poderão afetar de forma significativa os passageiros.
A Air France-KLM, sedeada em Paris, espera concluir a aquisição de uma posição maioritária na SAS Scandinavian Airlines. Se for aprovado pelos reguladores europeus, o negócio permitirá uma integração mais estreita, podendo combinar os programas de fidelização SAS EuroBonus e Air France-KLM Flying Blue, além de integrar a SAS na parceria transatlântica com a Delta Air Lines. O grupo Air France-KLM adquiriu pela primeira vez uma participação minoritária na SAS em 2024.
Em Frankfurt, o Lufthansa Group está a avançar com a integração da companhia italiana ITA Airways. Os planos preveem a fusão do programa de fidelização Volare da ITA com o Miles & More no primeiro trimestre e a integração da ITA na parceria transatlântica da Lufthansa com a Air Canada e a United Airlines até ao final de 2026. A Lufthansa planeia assumir o controlo total da ITA até 2027, depois de ter adquirido uma participação de 41% em janeiro deste ano.
A ITA já anunciou novos voos de Roma para o hub da United em Houston, a partir de maio, e o diretor executivo, Joerg Eberhart, afirmou que o hub da United em Newark também consta da lista de potenciais destinos futuros.
Na Ásia, a Korean Air pretende concluir a integração da Asiana Airlines em 2026, incluindo a fusão dos programas de fidelização, a harmonização dos horários e a saída da Asiana da Star Alliance.
Nos Estados Unidos, a Alaska Airlines está perto de concluir a sua fusão com a Hawaiian Airlines. Um dos últimos passos de maior impacto para os passageiros – a migração da Hawaiian para o sistema de reservas da Alaska – está prevista para abril.
Outras mudanças permanecem incertas. O futuro da Spirit Airlines, que declarou falência, continua por definir, com hipóteses que vão desde um encerramento total até a uma eventual fusão com a Frontier Airlines. Já na América Latina, o grupo Abra, proprietário da Avianca e da GOL, aguarda aprovação para adquirir a companhia chilena de baixo custo Sky Airline.
A geopolítica continua a ser uma incógnita
Espera-se que as novas regras fronteiriças impactem o turismo de entrada nos Estados Unidos em 2026. (Graeme Sloan/Bloomberg/Getty Images)
As decisões políticas continuarão a moldar as viagens aéreas em 2026. Uma mudança relevante será a introdução do sistema ETIAS da União Europeia, prevista para o quarto trimestre. Os viajantes isentos de visto terão de se registar previamente e pagar uma taxa de 20 euros.
Nos Estados Unidos, mudanças propostas poderão trazer riscos adicionais. A administração Trump sugeriu que os viajantes de países do programa de isenção de visto forneçam cinco anos de histórico de redes sociais e dez anos de endereços de email ao solicitarem a autorização ESTA. Caso seja implementada, o analista de aviação da T.D. Cowen, Tom Fitzgerald, descreveu a proposta num relatório de dezembro como um “risco para o turismo de entrada, especialmente durante o Mundial de Futebol”.
As novas regras poderão reduzir ainda mais a procura de visitantes estrangeiros pelos Estados Unidos. As visitas internacionais aos Estados Unidos caíram em 2025 para 85% dos níveis de 2019, segundo dados da US Travel Association. O grupo prevê que as chegadas se recuperem em 2026, mas apenas até cerca de 89% dos níveis pré-pandemia.
Outra preocupação, de acordo com Tom Fitzgerald, é a possibilidade de uma paralisação do governo federal quando a atual resolução orçamental expirar a 30 de janeiro. Uma paralisação no último outono causou transtornos a dezenas de milhares de viajantes, com voos cancelados para aliviar a pressão sobre o sistema de controlo de tráfego aéreo.
O CEO da Delta, Ed Bastian, afirmou em dezembro que esperava que 2026 fosse “um ambiente um pouco mais estável no plano político”.
A nível internacional, o conflito contínuo na Ucrânia e a instabilidade no Médio Oriente deverão continuar a afetar os mapas de rotas das companhias aéreas, acrescentando horas às viagens de longo curso entre a Europa e a Ásia e aumentando o consumo de combustível e os preços dos bilhetes.
A inflação continua a pressionar os orçamentos
“A indústria está a experienciar uma divergência em forma de ‘K’, em que o braço superior do ‘K’ (cabines premium, passageiros fiéis às marcas e viajantes inclinados ao luxo) está a disparar, enquanto o braço inferior (cheio de viajantes que preferem voos baratos) está a arrastar-se”, diz um relatório da Going.
Dados recentes do Bank of America mostram que os gastos dos grupos de rendimentos mais elevados aumentaram 2,6%, enquanto os grupos de rendimentos mais baixos cresceram apenas 0,6% – dois pontos percentuais inteiros menos – em novembro. O banco citou o baixo crescimento salarial e a maior incerteza económica entre este último grupo como causa do aumento mínimo.
“Esta é uma boa notícia para as companhias aéreas e para todos os seus investimentos em produtos premium”, escreveu o analista de aviação da Raymond James, Savanthi Syth, no início de dezembro. Por outro lado, isto sugere um crescimento mínimo no próximo ano na gama económica do mercado.
Crescimento mais lento, mas novas rotas
A companhia aérea europeia Aegean Airlines lançará novos voos diretos para a Índia em 2026. (Fotofantastika/iStockphoto/Getty Images)
Todos estes fatores em conjunto significam que as companhias aéreas planeiam um crescimento mais modesto em 2026. Ou, como disse o CEO da Swiss Air, Jens Fehlinger, em setembro, a expansão da indústria irá “normalizar-se” no próximo ano, após os dias intensos depois da pandemia, quando o chamado “revenge travel” estava em pleno e as companhias aéreas corriam para recuperar o atraso.
A IATA prevê que o tráfego de passageiros aumente 4,9% em 2026, abaixo do aumento previsto de 5,2% para este ano.
Isso não significa que as companhias aéreas não lançarão algumas rotas novas e interessantes. A Alaska Airlines fará a sua estreia europeia com novos voos de Seattle para Roma em abril e para Reiquiavique e Londres em maio.
E a United Airlines, que em 2025 adicionou destinos de férias fora do comum, como a Gronelândia e a Mongólia ao seu mapa, planeia acrescentar destinos como Santiago de Compostela, em Espanha, e Split, na Croácia, neste próximo verão.
Noutros mercados, a companhia europeia Aegean Airlines vai “esticar as pernas” com novos voos diretos entre Atenas e Nova Deli e Mumbai, operados por Airbus A321XLR. A Iberia fará o mesmo com o seu A321XLR, lançando novos voos diretos de Madrid para o Brasil, o Canadá e os Estados Unidos. Já a Air Canada irá, pela primeira vez, ligar o aeroporto Billy Bishop, no centro de Toronto, ao aeroporto nova-iorquino de LaGuardia.