Kate Raidt e o filho Bodie mudaram-se dos EUA para Ulm, na Alemanha, em 2024

Enquanto conduz pelas montanhas, riachos e rios que ficam bem perto de casa, no sudoeste da Alemanha, Kate Raidt confessa que a paisagem ainda fixa a atenção dela. Em tom de brincadeira, diz que é, “provavelmente, a única mãe americana que adora quando os jogos não são em casa”.

Raidt aguardava com expectativa a viagem de carro de Ulm, cidade onde vive, até Munique, para acompanhar o filho adolescente num jogo de futebol. “É muito difícil ficar de mau humor quando conduzimos acompanhados por toda esta beleza”, reforça.

“Quando olho pela janela e vejo os Alpes Suíços ou ouço a água a correr num riacho próximo, isso deixa-me muito feliz”, conta Raidt, que é natural de Atlanta, à CNN Travel.

Partida, largada, fugida

Um ano e meio depois de se mudar dos EUA para a Alemanha com o filho Bodie, Raidt confessa que a mudança correu “muito melhor” do que qualquer um deles “podia imaginar” – e que ambos estão cheios de planos e projetos.

Viver perto de atrações naturais como o rio Danúbio ou os Alpes Bávaros acabou por transformar a rotina desta família. Ela está constantemente a mexer-se: seja caminhando, pedalando ao longo do Danúbio, visitando spas termais ou indo descobrir castelos com o filho.

Raidt, aqui na fotografia com o filho Bodie e a filha Conley, que vive nos EUA, mas que viaja com regularidade para a Alemanha (Kate Raidt)

“Diria que essa é a maior vantagem de estar aqui”, resume, ao elogiar um estilo de vida que, na opinião desta americana, dá prioridade à qualidade em vez da quantidade.

“Melhorou a minha saúde física, bem como a minha saúde mental. Ter acesso a atividades físicas, de uma forma fácil e rápida, salvou-me completamente”.

A decisão em relação à mudança começou com as oportunidades tidas pelo filho de Raidt. Bodie, que é um talentoso jogador de futebol, foi incentivado a fazer testes em vários clubes alemães – e acabou a receber propostas.

Embora Raidt já tivesse visitado a Alemanha com frequência – até porque a filha nasceu lá durante o casamento que teve com um alemão -, não tinha planos para voltar a morar neste país de uma forma permanente. Contudo, as ambições do filho acabaram por lhe mudar os planos.

A mulher disse ao filho que teriam de esperar até que a irmã mais velha, Conley, fosse para a faculdade. “Não queria que ele morasse sozinho com uma família de acolhimento, então decidi ir com ele”, recorda.

Algumas semanas depois, quando Conley terminou o secundário, em 2024, Raidt e Bodie deixaram os EUA rumo à Alemanha.

Começaram por ficar num Airbnb em Ulm, uma cidade histórica localizada entre Munique e Estugarda, onde Bodie se juntou a uma equipa local. “Tinha, literalmente, duas malas”, explica Raidt. “Não tínhamos amigos, não tínhamos família. Nada. Foi ‘partida, largada, fugida’. Vamos lá fazer isto acontecer”.

Raidt confessa que percebeu logo que tinha muito para aprender. Um dos primeiros desafios foi na área da educação. Bodie tem dupla nacionalidade, mas não se conseguiu matricular numa escola alemã porque “não tinha experiência suficiente com línguas estrangeiras”.

O rapaz acabou por entrar numa escola internacional, o que, segundo Raidt, foi um ponto de viragem. A mãe, rapidamente, criou laços com outros pais expatriados.

“Todos deixámos os nossos países de origem e viemos para cá”, conta. O apoio emocional deles, acrescenta, ajudou-a a superar momentos difíceis.

Cultura definida

“A maior vantagem para todos é o facto de ele se estar a sair muito bem”, diz Raidt sobre o filho adolescente (Kate Raidt)

Ao mesmo tempo que se adaptava, Raidt passou a apreciar mais a vida na Alemanha, para lá do trabalho remoto para uma empresa sediada nos EUA.

A americana adora o facto de “as pessoas se reunirem constantemente para tomar café”, algo que contrasta com os EUA, onde “toda a gente passa a correr, sem sair do carro, pelo Starbucks”.

“Os EUA têm apenas uma cidade em todo o país que apresenta mesmo uma cultura definida, que é Nova Orleães”, diz. “A Alemanha lembra-me um pouco disso”.

Ainda assim, admite, há desvantagens: não gosta da quantidade de cigarros que são fumados, acha que há muitos aspetos da vida quotidiana que são muito rígidos, muito “preto no branco”.

A burocracia também tem sido algo difícil de lidar, devido ao “stress constante de ir a repartições públicas e esperar em filas”.

“Tirar a licença para conduzir na Alemanha é como passar num exame complicado, parece que nos estamos a formar em medicina”, compara.

Obter um visto de reagrupamento familiar, que é algo que permite que os familiares se juntem a quem já vive de forma legal na Alemanha, foi um processo “longo e desafiador”. Exigiu que a mulher contratasse um seguro de saúde alemão, que custa cerca de 1.300 dólares por mês.

Raidt conta que há pessoas na Alemanha que “pura e simplesmente odeiam imigrantes”, tratando-a de forma diferente à custa do seu sotaque americano.

Ainda assim, diz, a experiência com os alemães, em geral, tem sido positiva. Fez “amigos maravilhosos”, sobretudo entre os pais da equipa de futebol do filho.

“Nenhum deles fala mesmo inglês. Isso obrigou-me a melhorar o meu alemão e a encontrar um meio termo”, resume.

Raidt tinha um nível básico de alemão, à custa das suas visitas anteriores àquele país. Ainda assim, precisava de aprimorar as suas habilidades, de modo a lidar com situações básicas, como contratos de arrendamento, consultas médicas e documentos oficiais. Agora, está a fazer um curso de línguas, de quatro horas por dia, com o objetivo de passar no exame de fluência que é necessário para obter a cidadania.

“Há dias em que penso ‘Isto vai matar-me’. Mas, ao mesmo tempo, motiva-me a sair da cama”, conta.

Para quem estiver a pensar em mudar-se para outro país, Raidt aconselha a escolher um lugar onde já se fale o idioma.

“Aprendi muito depressa que, se formos morar em algum sítio, o alemão precisa de ser melhor do que o básico. Caso contrário, é muito difícil”, diz.

Grandes vitórias

Raidt está a viver na cidade de Ulm, situada entre Munique e Estugarda, há um ano e meio (Thomas Demarczyk/iStock Unreleased/Getty Images)

Raidt considera que a Alemanha é cara, sobretudo os serviços públicos. Observa que, agora, “é tudo um bocadinho mais pequeno”, incluindo o carro e a casa. Contudo, essa mudança, segundo a própria, deixou claro o que é essencial.

Sentiu a diferença, de uma forma drástica, quando voltou aos EUA para uma longa estada na primavera. O facto de retomar os velhos hábitos – como conduzir para todo o lado, ficar sentada numa secretária o dia todo – deixou-a “sobrecarregada com o stress”.

“Mesmo que tivesse o mesmo nível de stress na minha vida, não me afetou tanto quando voltei para cá”, diz. “Acho que é porque estou sempre a mexer-me e a fazer mais exercício. É o que me mantém sã”.

Raidt reviveu, recentemente, uma antiga paixão: está a gravar um álbum, duas décadas depois de ter abandonado a música.

“Agora, aos 54 anos, depois de ter estado 20 anos sem música na minha vida, estou a trazê-la de volta com toda a força”, conta.

Raidt diz não sentir muita falta de Atlanta, mas anseia por estar com as suas “amigas que também são mães”. E tem muitos desejos de comida rápida americana, como Chick-fil-A.

A mulher volta aos EUA sempre que pode para visitar Conley, que joga ténis universitário em Nebraska. Ao mesmo tempo, Bodie tem tido grandes resultados, o que é um grande alívio para Raidt.

“Mesmo adorando estar aqui, se ele estivesse infeliz, tínhamos de ir embora”, diz. “Tudo isto é por causa dele. A maior vantagem para todos é o facto de ele se estar a sair muito bem. E acabou por ser uma grande melhoria no meu estilo de vida”.

Ambos moram agora numa casa geminada com três quartos na “parte montanhosa” de Ulm. Têm planos para ficar na Alemanha “pelo menos mais dois anos”, até que Bodie conclua o secundário.

Raidt explica que a venda da casa que tinha em Atlanta representou o fecho do último capítulo da vida ela nos EUA. Não tem “interesse em voltar”.

É pouco provável que fique em Ulm depois de o filho sair de casa. Ainda assim, está aberta ao cenário de continuar na Europa.

“Talvez vá para a Áustria. Talvez vá para a Suíça. Talvez vá para Espanha… Não sei, adorava continuar a explorar a Europa. Adorava mesmo ficar por aqui”.