Durante anos, a ideia de extrair metais preciosos de asteroides foi tratada como um devaneio futurista. Mas, assim como aconteceu com as primeiras missões de retorno de amostras, a tecnologia espacial começa a transformar esse conceito em algo tecnicamente plausível. Com uma nova geração de foguetes e sistemas de propulsão em desenvolvimento, cientistas agora tentam responder à pergunta mais pragmática de todas: quais asteroides realmente compensam ser minerados?
Um estudo conduzido por pesquisadores do Institute of Space Sciences, na Espanha, oferece uma das respostas mais concretas até agora. Após analisar em detalhe meteoritos ligados a asteroides ricos em carbono — os mais comuns do Sistema Solar —, a equipe conseguiu identificar quais composições químicas indicam maior potencial econômico.
Do laboratório ao cinturão de asteroides
A pesquisa, publicada na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, se baseou na análise química de 28 amostras de meteoritos. Esses fragmentos, que um dia fizeram parte de pequenos asteroides primitivos, funcionam como “amostras grátis” naturais do que existe lá fora.
Usando técnicas avançadas de espectrometria de massa, os cientistas mapearam a composição de seis tipos comuns de condritos carbonáceos — meteoritos ricos em carbono, água e compostos orgânicos. Esses materiais são especialmente valiosos para a ciência porque vêm de asteroides que nunca passaram por processos intensos de diferenciação, preservando pistas sobre a formação do Sistema Solar.
Segundo o astrofísico Josep M. Trigo-Rodríguez, autor principal do estudo, essas rochas oferecem uma janela direta para a história química dos corpos dos quais se originaram. E foi justamente essa análise detalhada que revelou um padrão promissor.
O tipo de asteroide que interessa aos mineradores
Entre os diferentes grupos analisados, um tipo específico se destacou: asteroides ricos em olivina e espinélio. Esses minerais não chamam atenção apenas pela abundância, mas pelo que indicam indiretamente. Eles costumam estar associados à presença de ferro, níquel, ouro, platina e elementos de terras raras — materiais estratégicos tanto para a indústria terrestre quanto para futuras infraestruturas espaciais.
“Grande parte dos asteroides tem concentrações relativamente baixas de elementos valiosos. Nosso objetivo foi entender até que ponto a extração seria viável”, explicou Pau Grèbol Tomás, coautor do estudo. Em outras palavras, não basta que o asteroide contenha metais preciosos: é preciso que eles estejam em quantidades que justifiquem o custo colossal de ir até lá.
Mineração espacial ainda é um desafio gigantesco
Apesar do entusiasmo, a mineração de asteroides continua sendo um território praticamente inexplorado. A missão OSIRIS-REx, da NASA, demonstrou que é possível coletar material de um asteroide e trazê-lo de volta à Terra. Mas fazer isso em escala industrial é outra história.
Seriam necessários sistemas de propulsão avançados, refinarias em órbita, tecnologias de reentrada em grande escala e operações totalmente autônomas — muitas das quais ainda não passaram de testes iniciais. Mesmo assim, algumas empresas privadas já tentaram dar os primeiros passos.
A startup californiana AstroForge, por exemplo, lançou sua primeira missão em 2023 com o objetivo de demonstrar a capacidade de refinar material de asteroides no espaço. A missão acabou perdendo contato com a espaçonave, mas o esforço ilustra o interesse crescente do setor privado.
Vale a pena insistir?
Segundo os pesquisadores, iniciativas como essas só farão sentido se houver evidências claras de retorno econômico. E é exatamente isso que estudos como o do Institute of Space Sciences tentam fornecer: um mapa inicial para reduzir riscos e indicar onde vale a pena apostar primeiro.
Ao identificar asteroides com maior probabilidade de conter metais valiosos em concentrações relevantes, a ciência ajuda a transformar a mineração espacial de um sonho distante em um projeto calculado — ainda arriscado, mas cada vez mais fundamentado em dados.
A corrida pelas riquezas do espaço não deve começar com escavadeiras orbitais, mas com análises químicas minuciosas aqui na Terra. E, pelo que os meteoritos indicam, alguns asteroides já despontam como candidatos muito mais interessantes do que outros.