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Após uma década inteira dominada por homens de collant que voam e disparam raios pelas mãos, Hollywood mergulhou em uma profunda crise de identidade quando a crise sanitária de 2020 bagunçou as peças do tabuleiro. Somado ao cansaço dos super-heróis e das grandes fantasias, surgiu a competição voraz do streaming, forçando os estúdios a tentarem uma reconexão com as bases do passado. É por isso que tantas franquias ressurgiram; Anaconda (2025) é o puro suco dessa crise de meia-idade da indústria.

A Sony apostou na visão de Tom Gormican para injetar na franquia a novidade nada original do terror/comédia com metalinguagem — algo que Wes Craven já fez em Pânico e A Hora do Pesadelo. A decisão, certamente, foi impulsionada pela repercussão de O Peso do Talento (2022), que já era esse delírio sobre a imagem nostálgica e angelical de Nicolas Cage. O resultado não poderia ser outro: para o bem e para o mal, os dois filmes dividem o mesmo DNA e os mesmos vícios.

Crítica de AnacondaReprodução/Sony Pictures

Gormican não é, nem de longe, o que eu definiria como um bom diretor de comédia. Tanto Anaconda (2025) quanto O Peso do Talento (2022) são reféns do que é dito, com quebras de expectativa tão previsíveis que são visíveis a quilômetros. O problema é que ele falha em estabelecer uma atmosfera clara: não assume a galhofa e nem dá peso real ao drama. É um eterno banho-maria.

Porém, seria injusto dizer que Anaconda (2025) não encontra diversão pelo caminho. No meio do caos, temos Jack Black e Steve Zahn se esforçando genuinamente para resgatar aquele espírito das comédias do início dos anos 2000. Além disso, há a divertida adição de Selton Mello; como já sabemos, ele possui uma fisicalidade única para o humor, entregando um carisma que o restante do filme nem sempre consegue acompanhar.

Anaconda: Selton Mello foge da cobra gigante em pôster oficialReprodução/Sony Pictures

Há um certo charme em essa reimaginação ser quase tão ruim quanto o filme original de 1997. O longa de Gormican ocupa esse lugar bizarro de ser, ao mesmo tempo, sátira e satirizado — um monumento ao cinismo de uma Hollywood que faz piada da própria falta de inventividade para não ter que resolvê-la. Talvez esse projeto novo, mas nada original, se torne mais palatável se encarado assim: como uma piada involuntária sobre uma indústria que está questionando a própria existência.

Como terror, a obra naufraga por ser incapaz de sustentar qualquer senso de urgência; há um conforto incômodo na narrativa que nos dá a certeza precoce de que todos os principais sairão ilesos. Como comédia, tem lá seus momentos de graça.

Crítica de AnacondaReprodução/Sony Pictures

Preciso reconhecer um mérito: o longa é genuinamente estúpido, e não finge ser estúpido para tentar forçar a graça — um vício insuportável que Hollywood abraçou recentemente. Existe uma honestidade nessa idiotice que falta em muitos filmes que tentam a todo custo imitar Trovão Tropical (2008).

Anaconda (2025) é, em última análise, o delírio adolescente de uma indústria em plena crise de meia-idade. O resultado é aquele limbo: nem divertido o suficiente para ser indispensável, nem ruim o bastante para não ser assistível. É o cinema do tanto faz.

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