Ronald Pena R. / EPA

Nicolás Maduro vence eleições presidenciais na Venezuela

Desde a tentativa de golpe de Estado contra Chávez em 2002 que a Venezuela se prepara para um conflito armado com Washington. A estratégia é clara: como não podem ganhar militarmente, vão tornar o país impossível de governar.

À medida que as tensões entre Washington e Caracas aumentam, a liderança venezuelana acredita estar a entrar na fase inicial de um confronto há muito antecipado com os Estados Unidos, um cenário para o qual se prepara desde o início dos anos 2000.

O alerta surge num contexto de forte intensificação da presença militar norte-americana nas Caraíbas, incluindo a chegada, em novembro, do USS Gerald R. Ford, o maior porta-aviões do mundo, às águas ao largo da costa venezuelana, bem como a apreensão de um petroleiro que Caracas denunciou como “pirataria internacional”.

O Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou ainda um bloqueio total a todos os navios petrolíferos sancionados que entram e saem da Venezuela, tendo também oferecido uma recompensa multimilionária pela captura do Presidente Nicolás Maduro. Mais recentemente, Trump confirmou o primeiro ataque norte-americano a território venezuelano.

“Este tem sido um período algo surreal”, afirmou Pablo Oshua, estudante de doutoramento no Instituto das Américas da University College London (UCL). “Acho que estamos, de certa forma, a caminhar sonâmbulos para esta situação, porque ela avança de forma discreta em direção a algo muito perigoso.”

Em declarações ao podcast The Conversation Weekly, Oshua explicou que a Venezuela encara a atual escalada como o culminar de anos de pressão e de um dossiê inacabado para Trump, que repetidamente descreveu o país como uma oportunidade perdida durante o seu primeiro mandato.

A Venezuela é um assunto inacabado para Donald Trump”, disse Oshua, recordando declarações em que Trump afirmou que as sanções impostas entre 2017 e 2019 quase levaram o país ao colapso. “Havia sempre essa sensação de que Donald Trump poderia regressar agora com uma estratégia real.”

Segundo o investigador, a preparação da Venezuela para uma invasão norte-americana remonta a 2002, quando uma tentativa de golpe de Estado afastou temporariamente do poder o então Presidente Hugo Chávez. Embora Chávez tenha sido restituído ao cargo em menos de 48 horas, o episódio foi decisivo e levou a uma transformação profunda no planeamento militar venezuelano.

“As investigações que se seguiram ao golpe revelaram que muito dinheiro proveniente dos contribuintes norte-americanos foi enviado para organizações da oposição venezuelana que estiveram diretamente envolvidas no golpe”, afirmou Oshua. “Por isso, apesar de o golpe ter sido um assunto interno, foi em grande medida feito e conduzido com o apoio dos Estados Unidos.”

A partir desse momento, Chávez passou a encarar a segurança nacional como um projeto simultaneamente militar e social. “A segurança não era apenas a sua própria proteção”, explicou Oshua, “mas também como garantir que as pessoas tinham comida, como distribuir o petróleo e como assegurar que os militares não fariam outro golpe contra ele”.

Chávez afastou opositores das Forças Armadas, promoveu aliados e reformulou a doutrina militar com base em três inimigos percebidos: os Estados Unidos, a Colômbia, que era aliada próxima de Washington, e a oposição interna. Crucialmente, aceitou que a Venezuela não poderia derrotar militarmente os EUA.

“Eles não vão derrotar os Estados Unidos”, disse Oshua. “Por isso, têm de criar algum tipo de enquadramento de guerra assimétrica.”

Inspirado nos conflitos do Vietname e do Iraque, Chávez procurou garantir que qualquer força invasora teria enorme dificuldade em governar o país. “A ideia básica aqui é que a luta não é apenas exército contra exército”, afirmou Oshua. “É uma luta de um exército contra o povo.”

Esse pensamento levou, em 2008, à criação da Milícia Bolivariana, uma força de base civil que se tornou entretanto o quinto ramo das Forças Armadas venezuelanas. A milícia, que segundo o governo conta atualmente com cerca de cinco milhões de membros, foi concebida como o núcleo de uma resistência nacional.

“Não há forma de treinar estas pessoas como soldados ao mesmo nível”, disse Oshua. “Por isso, a milícia assenta na ideia de que, se algum exército entrar, eles criarão a resistência. É a isso que chamam a segunda fase da guerra.”

O especialista considera que as autoridades venezuelanas já poderão ver o atual momento como a “primeira fase” desse conflito. A segunda fase, explicou, seria uma insurgência prolongada.

“O que eles estão a tentar simular é uma espécie de Vietname”, afirmou. “Querem garantir que nenhuma força consiga controlar grande parte do território, o suficiente para criar muito caos e tornar extremamente dispendioso para os americanos permanecerem.”

A estratégia intensificou-se após a morte de Chávez, em 2013, e a ascensão de Maduro, que não herdou o mesmo domínio eleitoral e passou a depender mais fortemente dos militares para se manter no poder. “Antes, Chávez não tinha de escolher entre autoritarismo e democracia porque ganhava eleições”, disse Oshua. “Com Maduro, começa-se a ver o recurso a um manual diferente.”

Sob Maduro, os militares expandiram o seu papel na distribuição de alimentos, na gestão económica e na segurança interna, enquanto redes de vigilância de bairro e aplicações de denúncia transformaram civis naquilo que o Presidente chamou “os olhos e ouvidos da revolução”.

“Num cenário volátil, esta ideia de que os espiões podem estar em todo o lado reforça-se”, afirmou Oshua, observando que algumas operações policiais já são apelidadas de “Operação Tuntún”, em referência às batidas noturnas às portas.

Apesar disso, Oshua não vê sinais de que nem a administração Trump nem a oposição venezuelana compreendam plenamente a dimensão da resistência que tal sistema poderia gerar. “Fala-se de poder como se bastasse trocar a pessoa no palácio presidencial”, disse. “Mas a tarefa seria sustentar. Tem de ir para além de Maduro, para além das principais figuras.”

A nível regional, uma invasão dos americanos teria efeitos profundamente desestabilizadores. “Uma invasão americana é algo obviamente inaceitável para a maioria dos líderes. Mas eles teriam de gerir as implicações políticas internas para definir a posição exata”, especialmente num contexto em que os países vizinhos na América Latina acolhem milhares de imigrantes venezuelanos.

Para a liderança venezuelana, porém, o cálculo parece claro: a sobrevivência não depende de vencer uma guerra, mas de torná-la impossível de concluir.


Subscreva a Newsletter ZAP


Siga-nos no WhatsApp


Siga-nos no Google News