A última e mais curta mensagem de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas nem por isso isenta de recados para a classe política. Na comunicação que fez ao país esta quinta-feira, o Presidente da República recuperou Eça de Queiroz, possivelmente o escritor que melhor conseguiu retratar a psique portuguesa, para lamentar que, por entre muitas virtudes e qualidades do povo, haja um país político sempre à espera de um milagre que venha finalmente resolver todos os problemas.
Em concreto, Marcelo Rebelo de Sousa usou uma passagem da obra A Ilustre Casa de Ramires em que as personagens falam de Gonçalo Mendes Ramires, um velho fidalgo que serve como personificação de Portugal. Lê-se no livro: “Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia… A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?… A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil”.
E continua: “A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades… A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo… Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa… Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos… Até agora aquele arranque para a África… Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra? Portugal.”
No momento em que se despede do Palácio de Belém dez anos depois de ter sido eleito, Marcelo Rebelo de Sousa foi lendo esta passagem de A Ilustre Casa de Ramires para lamentar, sem nunca ser direto, o facto de Portugal, com todas as suas virtudes, continuar a ser um país adiado, de “fogachos”, de “desleixo”, de “trapalhadas” e não raras vezes mais à espera de um “milagre” que resolva tudo do que verdadeiramente empenhado em mudar de vida.
Recorde-se que o Presidente da República tinha prometido fazer apenas uma comunicação curta e neutral para não contaminar a campanha eleitoral. Apesar de tudo, este diagnóstico pode ser interpretado como uma crítica a António Costa, com quem conviveu durante oito anos, e a Luís Montenegro, com quem tem mantido uma relação difícil desde que este foi eleito primeiro-ministro.
Sem se alongar, Marcelo Rebelo de Sousa não deixou de formular desejos para 2026: que Portugal possa ter no próximo ano “mais Saúde”, “mais Educação”, “mais Habitação”, “mais Justiça”, “ainda mais crescimento”, “ainda mais emprego”, “menor pobreza” e “sempre maior tolerância, maior concordância e sentido de coesão nacional”.
Falando sobre o novo ciclo que se apresenta no horizonte, e que terá necessariamente um novo protagonista no Palácio de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa disse por fim estar convicto que o futuro será “melhor” do que o passado.