Cartas de Buffett são uma espécie de escritura sagrada para os acionistas.

Berkshire Hathaway chairman and CEO Warren Buffett enjoys an ice cream treat from Dairy Queen before the Berkshire Hathaway annual meeting in Omaha, Nebraska, U.S. May 6, 2017. REUTERS/Rick Wilking

As cartas anuais de Warren Buffett aos acionistas tornaram-se uma lenda nos mercados financeiros. Os textos combinam análises económicas, conselhos de investimento, máximas de liderança e comentários pessoais. A última (carta datada de 10 de novembro) trouxe uma mudança na forma de comunicação. Enquanto os norte-americanos se preparavam para celebrar o Dia de Ação de Graças, Buffett anunciava que a tradição chegaria ao fim. “Não voltarei a escrever o relatório anual da Berkshire nem a falar incessantemente na assembleia anual”, escreveu.

Depois de elogiar Greg Abel, que assumirá no final do ano a liderança da Berkshire Hathaway,
dedicou ainda várias páginas a Omaha, a cidade onde sempre viveu e fez fortuna. “Olhando para trás, sinto que tanto a Berkshire como eu fizemos melhor por termos a nossa base em Omaha do que se eu tivesse residido em qualquer outro lugar. O centro dos EUA foi um lugar muito bom para nascer, para criar uma família e para construir um negócio”, disse. Nos anos 60, o investidor assumiu o controlo da Berkshire Hathaway, quando esta era apenas um fabricante de têxteis. As operações da empresa neste setor durariam até 1985, quando foram encerradas definitivamente. Nas décadas seguintes, o conglomerado expandiu a atuação com foco em grandes aquisições como a Wells Fargo, Goldman Sachs; JP Morgan Chase, Bank of America, Visa, Mastercard e Moody’s; gigantes do consumo como a Coca-Cola e Kraft-Heinz, além da Johnson & Johnson, Delta Airlines, American Airlines e General Motors. A Berkshire entrou na bolsa de Nova Iorque a 17 de março de 1980 a 290 dólares por ação – atualmente tem uma capitalização bolsista superior a um bilião de euros e atua em vários segmentos como seguros, transportes, serviços públicos, energia, produtos para a construção ou vestuário.

Estratégia
O sucesso nos mercados financeiros tornou-o um ícone de Wall Street e valeu-lhe a alcunha de “Oráculo de Omaha”, uma referência à cidade do Nebraska onde nasceu. Buffett age no sentido oposto à “manada”. “Seja cauteloso quando os outros são gananciosos, e seja ganancioso quando os outros estão cautelosos”, é o seu lema.

O investimento na Coca-Cola é uma das compras de ações mais famosas e bem-sucedidas da história dos mercados financeiros. Mais de três décadas depois de comprar as primeiras ações da empresa, os títulos continuam a ser uma das maiores participações na carteira da Berkshire Hathaway. O investimento não apenas proporcionou uma enorme valorização do capital, como também gerou dividendos de forma consistente, tornando-se um exemplo da filosofia de investimento de longo prazo. Nas suas palestras, citando Albert Einstein, gosta de dizer: “os juros compostos são a força mais poderosa do universo”.

Para Buffett, a Berkshire deve evitar futuros executivos que desejem enriquecer para exibir status ou criar dinastias familiares, defendendo a escolha de gestores comprometidos com o propósito e o legado da empresa. E critica a cultura de remunerações excessivas no mundo corporativo.

Edição do Jornal Económico de 19 de dezembro.