As sanções impostas pelos Estados Unidos à China com o objectivo de travar o avanço tecnológico de Pequim estão a gerar um resultado inesperado. Em vez de provocar estagnação, as restrições ao acesso a semicondutores avançados e a tecnologia crítica estão a acelerar o investimento chinês em investigação e desenvolvimento (I&D) e a reforçar a aposta na auto-suficiência.
Durante décadas, a globalização tecnológica assentou numa divisão funcional clara: os Estados Unidos lideravam no design, no software e na propriedade intelectual; a China especializava-se na produção e na escala industrial. Esse equilíbrio começou a desfazer-se quando Washington passou a tratar áreas como os semicondutores e a inteligência artificial (IA) como instrumentos de contenção geopolítica.
A premissa era simples: limitar o acesso a chips de alto desempenho e a equipamento avançado de fabrico seria suficiente para travar o progresso chinês. Os efeitos práticos das sanções sugerem um cenário diferente.
Reacção dos mercados
Segundo a Reuters, vários investidores institucionais estão a aumentar a exposição ao sector tecnológico chinês, apesar do risco político. Este movimento reflecte, por um lado, a crescente preocupação com avaliações elevadas no mercado norte-americano, em particular nas grandes empresas de IA. Por outro, ganha peso a percepção de que muitas tecnológicas chinesas continuam subavaliadas e beneficiam de um mercado interno amplo e relativamente protegido.
Um relatório recente da UBS Global Wealth Management, citado pela mesma agência, identifica o sector tecnológico chinês como uma das classes de activos mais atractivas a nível global. A análise aponta para uma adopção rápida de ferramentas de IA em plataformas de grande escala, impulsionada pela integração directa entre desenvolvimento tecnológico e serviços digitais de uso maciço.
É no hardware que o impacto das sanções se torna mais evidente. A proibição da venda de chips avançados da Nvidia — como os A100 e H100 — e as restrições subsequentes a versões adaptadas às regras de exportação eliminaram, na prática, a possibilidade de as empresas chinesas recorrerem a tecnologia estrangeira de ponta.
Até há poucos anos, grupos como a Tencent ou a Baidu privilegiavam fornecedores norte-americanos, adiando investimentos significativos em soluções locais. Com o bloqueio, essa opção deixou de existir. O resultado foi a criação de um mercado interno cativo para fabricantes chineses de semicondutores, como a Huawei ou a SMIC, que passaram a dispor de escala suficiente para acelerar o investimento em I&D.
Os primeiros sinais dessa mudança tornaram-se visíveis com o regresso da Huawei ao segmento dos smartphones de topo e com o desenvolvimento de processadores para centros de dados orientados para cargas de trabalho de IA. Embora estas soluções ainda não igualem o desempenho dos chips líderes do mercado, já permitem executar tarefas exigentes, incluindo o treino de grandes modelos de linguagem.
Menos recursos, maior eficiência
A limitação no acesso a hardware avançado teve um efeito adicional: forçou uma maior eficiência ao nível do software. Sem disponibilidade ilimitada de capacidade de cálculo, as equipas chinesas concentraram-se na optimização de algoritmos e métodos de treino.
De acordo com análises publicadas pela MIT Technology Review, investigadores chineses têm contribuído de forma consistente para técnicas que reduzem o consumo de recursos computacionais. Esta abordagem, resultante de constrangimentos práticos, pode tornar-se relevante num contexto em que a escalabilidade da IA depende cada vez mais da eficiência energética.
O panorama que emerge é o de dois ecossistemas tecnológicos progressivamente mais separados. As sanções norte-americanas, concebidas para preservar uma posição dominante, estão a acelerar a consolidação de uma cadeia de valor alternativa, centrada na China e menos dependente de fornecedores externos.
A incerteza em torno das regras de exportação — ilustrada por sucessivos ajustamentos às restrições aplicadas a chips específicos — evidencia também os limites desta estratégia. Para cada vez mais investidores e observadores, a tecnologia chinesa deixou de ser apenas uma extensão da cadeia global dominada pelos Estados Unidos. As sanções criaram as condições para um esforço sustentado de substituição tecnológica, com efeitos que tendem a prolongar-se no tempo.