“Joe [Sachs] foi atacado por uma pessoa que disse que nós não podemos usar imagens reais na série. É uma violação do juramento de Hipócrates. ‘Você não deveria ter mostrado aquele parto.’ Bem, aquele parto foi todo criado pela nossa equipe de cabelo e maquiagem, de prostéticos, tudo feito no estúdio”, diz, cheio de orgulho, John Wells.
O veterano produtor se refere a uma cena de um parto normal retratada —em detalhes e ângulos explícitos— no 11º episódio da “The Pitt“, que ele cocriou com R. Scott Gemmill e Noah Wyle para a HBO Max. Sachs é um dos médicos que orientam a produção.
“O fato de que alguém assistiu e achou que teríamos problemas foi bastante encorajador”, afirma Wells, que trabalhou com Sachs, Gemmill e Wyle em “Plantão Médico“, clássica série hospitalar que foi ao ar de 1994 a 2009.
Esse nível de verossimilhança norteia toda a produção, vencedora de cinco prêmios Emmy em setembro passado, inclusive o de melhor série dramática. A nova temporada estreia na próxima quinta-feira (8), às 22h, na HBO Max, meros 364 dias após a primeira —um luxo em tempos de streaming— e quer continuar como a ficção mais real da televisão.
Cada um dos 15 episódios retrata uma hora de um mesmo plantão. Na primeira temporada, o dia parecia comum, exceto por ser o aniversário de uma data traumática para o chefe do Departamento de Emergência, Michael Robinavitch, ou dr. Robby, interpretado por Wyle. Ao cair da noite, porém, um atentado em um festival de música com dezenas de feridos põe os médicos do Pittsburgh Trauma Medical Center no olho de um furacão.
A estreia desta semana retoma a história dez meses depois, no sábado do feriado de Independência dos Estados Unidos, em 4 de julho, uma data que “desperta a burrice nas pessoas”, afirma Wells, por sua combinação de festa, álcool, rojões e muito calor.
Em uma visita ao set de filmagens da série, em Los Angeles, em novembro, o assunto mais discutido foram as gavetas. Todas elas, de todos os carrinhos que povoam cada cena, estão devidamente estocadas com os mesmos conteúdos que teriam se estivessem em um hospital de verdade, à exceção de lâminas cortantes, agulhas e medicamentos.
Há sempre quatro ou cinco enfermeiros no set, que fazem figuração entre plantões no Hospital Providence Saint Joseph, a alguns quarteirões do estúdio, além de quatro médicos e Sachs, que também é roteirista e produtor.
Todos se admiram com a atenção dada às gavetas, gabam-se os membros da produção. A única crítica que receberam, segundo a produtora Michelle Lankwarden, foi a de que estavam cheias demais, e um hospital de alta demanda como esse certamente teria itens em falta.
Apesar de ficcional, “the pit” —o buraco, trocadilho não muito carinhoso dado ao pronto-socorro— quase poderia funcionar em uma emergência real. Segundo o produtor-executivo Michael Hissrich, a série já partiu do primeiro episódio com cerca de US$ 1 milhão, equivalentes a R$ 5,5 milhões, em equipamentos reais doados ou emprestados por marcas parceiras.
O cenário do pronto-socorro ocupa cerca de 2.100 metros quadrados em dois galpões do histórico estúdio da Warner e foi todo desenhado pela diretora de arte Nina Ruscio antes mesmo que houvesse um roteiro. A ideia era escrever de acordo com o espaço disponível, prevendo a dinâmica do movimento de sala a sala.
Por saber que a série se passaria em Pittsburgh, na Pensilvânia, Ruscio pesquisou centros médicos da região até encontrar o Allegheny General Hospital, que inspira o design do hospital da série. “Investiguei fotos no Instagram, mas ninguém tira foto no hospital”, brinca ela, acrescentando que a principal influência do prédio real no ficcional são as colunas.
“Pittsburgh é uma cidade cheia de relevo”, diz Ruscio, e o “pit” fica no térreo, mas enfiado numa encosta, meio subterrâneo. Não há janelas, e a entrada de pedestres é como um túnel. O ambiente é “completamente imersivo, sem interrupções”, diz ela.
“A natureza volátil do que fazemos é que precisamos, de alguma maneira, nos enganar para mergulhar em uma realidade que não está de fato acontecendo, e a série torna isso mais fácil do que praticamente qualquer outra em que já trabalhei”, afirma Wyle.
Um dos protagonistas de “Plantão Médico” por 12 de suas 15 temporadas, o ganhador do Emmy de melhor ator conta que manteve contato ao longo dos anos com diferentes profissionais de saúde, de quem ouviu relatos alarmantes sobre o estado da profissão na era da Covid-19.
As crises generalizadas do sistema de saúde americano e a do estado psicológico de médicos, enfermeiros e demais trabalhadores dessa indústria alimentaram a ideia para a nova série, que propositalmente mantém o espectador dentro do hospital quase todo o tempo. “Você pode virar o rosto, mas não pode escapar dessa experiência”, afirma Wyle.
A história contada hora a hora, quase em tempo real, mas limitada ao período do plantão, também contribui para selar o espectador dentro da realidade do hospital. Nunca vemos como é a casa de ninguém. “Se você o tirar deste ambiente, eu não sei se ele é um cara muito interessante”, diz Wyle, sobre seu personagem. “Não sei nem se ele gosta de si mesmo fora daqui.”
Cada parte do processo criativo leva essa imersão em conta. Os atores passam por uma “escolinha” de medicina no início de cada temporada para aprender a fazer —ou ao menos imitar— os principais procedimentos, como intubações e suturas.
“Parte do exercício também era tentar ficar de pé por 15 horas e notar onde você guarda tensão e onde seu corpo começa a doer”, diz o ator, que ainda assina alguns dos roteiros e dirigiu um episódio da nova temporada.
Há uma camada extra a interpretar. Um massacre em um festival de música se tornou uma cicatriz coletiva, e cada personagem tem suas próprias maneiras de lidar —ou não— com ela. A data também marca o retorno do doutor Langdon, papel de Patrick Ball, após dez meses de reabilitação por um vício em drogas.
Quase todo o elenco está de volta para o plantão do feriado, ao lado de algumas novidades na equipe, composta em sua maioria de rostos pouco conhecidos. Também essa escolha é proposital, diz a produção —atores famosos carregam consigo bagagens que tiram o espectador da realidade da série.
George Clooney, um dos companheiros de Wyle em “Plantão Médico”, recentemente demonstrou interesse em fazer uma ponta em “The Pitt”. Questionados sobre a possibilidade de aceitar a oferta, Wells e Gemmill são categóricos: “Não.”
“Com todo o respeito, esta é uma série sobre médicos começando na profissão. Aqueles de nós que fizemos ‘Plantão Médico’ já estaríamos nos aposentando da medicina de emergência”, brincou Wells. “Queremos que você entre aqui e acredite que este é um lugar real.”