Quase todos os automóveis novos registados na Noruega no ano passado são do tipo BEV, ou seja, totalmente eléctricos. A rápida transição da Noruega, país produtor de petróleo, para os veículos movidos a bateria contrasta vincadamente com o resto da Europa. Enquanto os noruegueses aceleram a electrificação, a fraca procura por veículos eléctricos (VE) no resto do continente levou a União Europeia, no mês passado, a reverter a proibição planeada para 2035 relativa aos motores de combustão interna.
Impulsionados por fortes incentivos fiscais, 95,9% de todos os carros novos registados na Noruega em 2025 foram eléctricos, com esse número a atingir quase 98% em Dezembro. Este valor anual representa uma subida face aos 88,9% registados em 2024, segundo dados da federação rodoviária norueguesa (OFV).
Para colocar estes números em perspectiva, a realidade em Portugal é substancialmente distinta. Embora o mercado português tenha mostrado um crescimento robusto, os dados da Associação Automóvel de Portugal (ACAP) indicam que, de Janeiro a Novembro de 2025, os automóveis eléctricos conseguiram uma quota de 21,4%, resultando de quase 50 mil carros 100% eléctricos vendidos.
Na Noruega, foi registado um recorde de 179.549 novos automóveis durante o ano, um aumento de 40% em relação a 2024, informou a OFV.
Impostos sobre VE prontos a subir
A Tesla foi a marca de automóveis mais vendida na Noruega pelo quinto ano consecutivo, com uma quota de mercado de 19,1%, seguida pela Volkswagen com 13,3% dos registos e pela Volvo Cars com 7,8%.
Liderada pelo crossover de mercado de massa Model Y, a Tesla vendeu 27.621 carros na Noruega em 2025. É o valor mais alto que qualquer fabricante de automóveis alguma vez vendeu no país num único ano, superando a reacção negativa dos consumidores que afectou a marca em grande parte da Europa devido ao apoio do CEO Elon Musk a partidos de extrema-direita e ao Presidente dos EUA, Donald Trump.
Os automóveis de marcas chinesas obtiveram uma quota de mercado de 13,7% na Noruega em 2025, uma subida face aos 10,4% do ano anterior, liderados pela fabricante BYD, que mais do que duplicou o número de unidades vendidas no país nórdico.
A Noruega, que começou a tributar os VE em 2023, anunciou em Outubro que iria adicionar até 5.000 dólares em imposto sobre o valor acrescentado (IVA) por veículo a partir de 1 de Janeiro de 2026. Esta medida desencadeou uma corrida entre compradores e empresas automóveis para antecipar o prazo final de 2025.
“O que fizemos muito rapidamente foi redireccionar um número de carros que não estavam originalmente destinados à Noruega, para os trazer para cá mais depressa”, disse à Reuters o director-geral da Ford Noruega, Per Gunnar Berg.
A estratégia da “cenoura e do pau”
Embora alguns incentivos aos VE tenham sido reduzidos, o governo tem também acrescentado consistentemente taxas aos carros a gasolina e gasóleo para os tornar mais caros, explicou Christina Bu, responsável pela associação norueguesa de veículos eléctricos.
“Isso é muitas vezes mal compreendido fora da Noruega — todos pensam que se trata apenas de isenções fiscais e incentivos, mas trata-se muito também do uso do chicote”, afirmou Bu. “Os carros com motor de combustão interna (ICE) são taxados de tal forma que o negócio se torna inviável.”
Os poucos carros a combustíveis fósseis registados em 2025 foram, na sua maioria, veículos especializados, tais como os acessíveis a cadeiras de rodas ou os utilizados pela polícia e outros serviços de emergência, juntamente com alguns modelos híbridos e carros desportivos.
Os veículos eléctricos com custo inferior a 300.000 coroas norueguesas (cerca de 28.500 euros) permanecem isentos de IVA em 2026, o que poderá impulsionar o segmento dos utilitários, segundo os executivos do sector.
“Penso que as alterações fiscais vão acelerar o regresso dos carros compactos… que costumavam dominar tanto a Noruega como a Europa”, disse Berg, da Ford.
Ulf Tore Hekneby, responsável pela Harald A. Møller — importadora de veículos Volkswagen, Audi, Skoda e Cupra —, referiu que seriam lançados mais modelos de combustão como eléctricos e que a empresa conseguiu obter mais viaturas no final do ano passado ao acordar com as fábricas a aceleração da produção e a priorização da alocação para a Noruega.
“Haverá uma grande quantidade de novos lançamentos das nossas marcas no segmento dos compactos, pelo que teremos uma nova gama que não tínhamos há muitos anos”, concluiu Hekneby.