Cidade futurista de Asgard representando a conexão com o ancestral comum de toda a vida na Terra, símbolo de evolução e origem da existência.Um ancestral comum de toda a vida na Terra se chama arqueias AsgardFoto: Divulgação/Marvel Comics/ND Mais

Você que já assistiu ao filme do Deus-herói Thor na Marvel ou acompanha mitologia nórdica provavelmente já ouviu falar dos asgardianos. O que talvez você não imaginasse é que esse nome, associado a deuses e lendas antigas, agora pode ser o ancestral comum de toda a vida na Terra.

Pesquisadores identificaram uma linhagem microscópica que pode representar o ancestral comum de toda a vida eucariótica (grupo que inclui humanos, animais, plantas e fungos).

O achado ajuda a responder uma das principais perguntas da biologia, sobre como surgiram as células complexas que possibilitaram a vida como conhecemos hoje.

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Há décadas, cientistas tentam entender como surgiram os eucariotos, organismos cujas células possuem núcleo definido.

A principal hipótese aponta para um evento ocorrido há cerca de 1,6 a 2,2 bilhões de anos, quando uma célula ancestral passou a viver em associação simbiótica com uma bactéria capaz de usar oxigênio, processo que daria origem às mitocôndrias.

O desafio sempre foi identificar quem era essa célula ancestral.

A descoberta das arqueias AsgardIlustração do ciclo de vida microbiana mostrando a relação entre Arqueas, Eukarya e Bactérias, destacando o papel das Asgard arqueas na evolução.Essa nova linhagem pertence a uma ordem chamada Hodarchaeales (Hods), ancestral comum de toda a vida na Terra, que foi identificada em sedimentos marinhos. Assim como outras arqueas de Asgard, elas contêm proteínas anteriormente consideradas exclusivas de eucariotosFoto: Universidade do Texas/ND Mais

Em um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Texas em Austin, nos Estados Unidos, cientistas analisaram o genoma de centenas de microrganismos antigos encontrados em sedimentos marinhos profundos.

O resultado foi surpreendente, isso porque todos os eucariotos conhecidos podem ser rastreados até uma única linhagem de arqueias, batizada de arqueias Asgard.

Dentro desse grupo, uma ordem específica chamou atenção, a Hodarchaeales, apelidada de Hods. Essas arqueias apresentam proteínas consideradas, até pouco tempo atrás, exclusivas de organismos eucarióticos, um forte indício de parentesco evolutivo direto.

“Somos todos asgardianos”, dizem os cientistasCena de Jane (Natalie Portman) e Thor (Chris Hemsworth) olhando um para o outro em cenário de filme com iluminação rosa e roxaAsgard é o reino dos deuses, enquanto Hod (ou Höðr) é um personagem ligado a histórias de ruptura e transformaçãoFoto: Marvel Studios/Divulgação/ND

Para Brett Baker, professor associado de biologia e ciências marinhas da Universidade do Texas e autor principal do estudo, a descoberta marca um ponto de virada na compreensão da evolução celular.

“Estamos começando a enxergar a transição entre um organismo arqueano típico e algo muito próximo de um eucarioto”, afirmou. “De certa forma, esses microrganismos são nossos parentes mais próximos no mundo das arqueias.”

A referência à mitologia nórdica não é casual. Asgard é o reino dos deuses, enquanto Hod (ou Höðr) é um personagem ligado a histórias de ruptura e transformação. Segundo Baker, a analogia ajuda a ilustrar o momento evolutivo decisivo representado por essas formas de vida microscópicas.

Onde vivem esses ancestrais hoje

Apesar de terem surgido há mais de dois bilhões de anos, descendentes das arqueias Asgard, o ancestral comum de toda a vida na Terra, ainda existem.

Eles habitam ambientes extremos, como sedimentos marinhos profundos e fontes termais, espalhados por diferentes regiões do planeta.

Ao estudar esses organismos modernos, os cientistas esperam reconstruir, com mais precisão, o caminho evolutivo que levou ao surgimento do ancestral comum de toda a vida complexa na Terra.