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Com a chegada do Ano Novo, fazem-se balanços da vida e reflete-se sobre o bem-estar emocional. Para ajudar a esclarecer dúvidas comuns sobre a depressão e o papel da medicação, o 24notícias falou com João Pedro Lourenço, psiquiatra da Sociedade Portuguesa de Psicossomática, que desmistifica conceitos errados e explica como uma abordagem integrada pode apoiar a recuperação.

É mito ou facto que a depressão é causada por baixos níveis de serotonina e só pode ser tratada com medicação?

É mito. A depressão é uma condição multifatorial e multifacetada que não deve ser explicada meramente pela existência de um baixo nível de serotonina. A medicação é importante e muitas vezes necessária, mas não é a única nem frequentemente a principal abordagem terapêutica.

O que é a depressão? E que origens pode ter?

A depressão é uma perturbação do humor que afeta a vivência emocional, pensamentos, comportamento e o funcionamento psicossocial diário habitual. Pode ter origens biológicas, psicológicas e sociais, incluindo fatores genéticos, do contexto de vida, traumas, perdas, isolamento social, doenças médicas e outros.

Qual a importância dos neurotransmissores? Quais são e qual o seu impacto?

Os neurotransmissores são os reguladores da comunicação entre os neurónios, essenciais para o funcionamento cerebral. Os que estão mais diretamente implicados na depressão são a serotonina (Associada à regulação do humor, ansiedade, sono e apetite), noradrenalina (Relacionada com energia, atenção, resposta ao stress e vigilância) e dopamina (Envolvida na motivação, prazer, recompensa e iniciativa).

Quais os sintomas que devem levar alguém a procurar ajuda psicológica?

Os sintomas da depressão incluem tristeza persistente, perda de interesse nas atividades habitualmente prazerosas, cansaço fácil, alterações do sono ou apetite, dificuldades de concentração, isolamento social, sentimentos de desesperança em relação ao futuro e pensamentos de morte. O diagnóstico é feito quando os sintomas persistem por mais de duas semanas, são vivenciados com marcado sofrimento e apresentam impacto funcional significativo.

E na medicação, que cuidados ter com a toma, adaptação e desmame?

A medicação deve ser tomada apenas com indicação médica, respeitando dose e horário estabelecidos. A adaptação pode demorar algumas semanas, mas habitualmente os efeitos secundários – boca seca, tonturas, mal-estar gástrico, etc – são leves, transitórios (menos de uma semana de duração) ou até nem estão presentes. O desmame deve ser sempre gradual e supervisionado, nunca feito de forma abrupta.

Deve existir articulação entre psiquiatra e psicólogo? E entre medicação e práticas físicas e sociais?

A abordagem integrada entre psiquiatra e psicólogo, muitas vezes negligenciada, melhora muito significativamente os resultados terapêuticos. A medicação, psicoterapia e alterações ao estilo de vida, como o exercício físico, alimentação equilibrada ou o investimento em relações sociais, atuam de forma complementar, não concorrente.

Que precauções tomar face à informação vinda da IA e redes sociais?

É sempre importante desconfiar de soluções simples para problemas complexos. Devem ser priorizadas fontes credíveis e lembrar que informação avulsa não substitui uma avaliação clínica individual e personalizada, nunca caindo no erro do autodiagnóstico e da automedicação.

Depressão na UE e em Portugal

Segundo uma pesquisa do 24notícias, com base em dados internacionais citados pelo Sistema Nacional de Saúde (SNS), a depressão é atualmente um dos problemas de saúde mais comuns na União Europeia, afetando dezenas de milhões de pessoas. Estima-se que cerca de 11% da população sofre um episódio depressivo ao longo da vida, sendo também uma das principais causas de incapacidade. Em Portugal, cerca de 8% da população está diagnosticada com depressão, situando o país entre os cinco da UE com maior incidência.

Em 2025, Portugal ocupa o segundo lugar no consumo de antidepressivos per capita, com cerca de 163 mil doses por mil habitantes, de acordo com dados do Pharmaceutical Market – Pharmaceutical Consumption: Antidepressants, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), citados pelo World Population Review.

No top cinco dos países com maior consumo estão ainda o Reino Unido (168 mil por mil habitantes), o Canadá (134 mil), a Suécia (121 mil) e a Espanha (106 mil).

*Artigo editado por Alexandra Antunes

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