Quando são questionados sobre as maiores vantagens e desvantagens que a entrada no projeto europeu, oficializada há exatamente 40 anos, trouxe a Portugal, os eurodeputados portugueses enumeram elogios e críticas partilhadas — algumas das quais são comuns a partidos dos dois lados do espetro partidário.
À direita, a uniformização e a falta de soberania são destacados como consequências negativas do projeto europeu. Enquanto Tânger Corrêa considera que a Europa se transformou numa “vaca leiteira” e os governos portugueses abdicaram das suas próprias políticas e opções, Sebastião Bugalho critica a existência de uma “uniformização do discurso e da prática política” que pode ter aberto portas a opções “menos moderadas” no espaço europeu — e Ana Pedro, do CDS, concorda, avisando para o perigo dos populismos. João Cotrim Figueiredo, por sua vez, considera que a “promessa implícita” da adesão não foi conseguida, alertando para “demasiado desperdício do tempo e dos recursos” colocados à disposição de Portugal.
Por outro lado, Bugalho elogia o papel da União Europeia na consolidação de uma democracia pós-25 de Abril. Já Tânger Corrêa não tem dúvidas de que a integração de Portugal permitiu um “salto para a frente” e um “crescimento educacional dos portugueses”. O eurodeputado liberal enaltece essencialmente “grandes vitórias” na educação, saúde e em infraestruturas.
À esquerda encontram-se pontos em comum com a direita, desde logo porque Marta Temido também elege a consolidação democrática — assim como o crescimento económico e social — como as maiores vantagens da integração europeia. Ainda assim, a eurodeputada socialista lamenta a “chaga da pobreza” que ainda afeta Portugal. E Catarina Martins elege a vinda da troika como o pior que a Europa trouxe a Portugal — não exatamente no mesmo sentido referido por Sebastião Bugalho, mas por ainda assim essas políticas terem “agravado significativamente” a vida das pessoas”. Já João Oliveira nem consegue pensar em nada de positivo que a UE tenha trazido às populações — mas também refere a perda de soberania como fator mais negativo.
A eurodeputada socialista escolhe, desde logo, um ponto em comum com Sebastião Bugalho: não há “como fugir” ao facto de a consolidação democrática do país estar altamente ligada à entrada no projeto europeu, tendo o processo arrancado poucos anos depois do 25 de Abril.
“Quando foi feito o pedido em 1977 estávamos nos primeiros anos após o processo democrático. O país podia ter evoluído de muitas formas, e fez a escolha de ser uma sociedade pluralista, aberta e inclusiva”, frisa Marta Temido, assegurando que ganhou uma maior consciência deste aspeto como eurodeputada, uma vez que já visitou vários países que estão na fase de pré-adesão. Em Portugal, uma “democracia jovem” nessa altura, a entrada na CEE e depois UE acelerou a consolidação e a construção das instituições de um Estado de Direito.
Além disso, aponta Marta Temido, é preciso destacar como positivo o crescimento social e económico que a entrada no projeto europeu permitiu, e que se projeta nas infraestruturas, mas também no “tema caro” dos riscos ambientais, gestão de resíduos e direitos dos consumidores. “Fomos sempre recetores de fundos e foram muito importantes para a nossa coesão crescente, o nosso crescimento em termos de produtividade”. Ainda que admita que a sua ambição seria que a transformação do país fosse “mais acelerada” e as oportunidades trazidas pelos fundos “mais bem aproveitadas”, a integração europeia “foi absolutamente essencial — e os 40 anos que levamos fazem parte do que são hoje os nossos traços enquanto país e comunidade”.
Já o ponto mais negativo não será um defeito do projeto europeu em si, mas antes um impacto que poderia e ter e que não foi “devidamente aproveitado” para acabar com “a chaga da pobreza”, até dentro das classes trabalhadoras. “Apesar de alguns progressos e melhorias ainda temos 1,7 milhões de pobres, dos quais 300 mil são crianças. Não aproveitámos a Europa devidamente”, lamenta a eurodeputada.
Temido acrescenta que o mapa da pobreza e das desigualdades coincide com falta de coesão que o país ainda regista, e que mostra uma incapacidade de fazer um “salto geracional”. São “números muitos assustadores para quem já leva 50 anos de democracia e 40 de integração europeia”, aponta. E volta a lembrar a sua experiência na visita recente a países como a Sérvia, Albânia e Macedónia: “Marca-me muito ver crianças pobres a dormirem na rua. É uma imagem que em Portugal não desapareceu completamente, às vezes é mascarada ou envergonhada, e um falhanço da Europa, de alguma forma”.