ENTREVISTA || Kiran Klaus Patel tem uma certeza: entre janeiro e dezembro, “as coisas pioraram” a um nível que “não imaginava”. À CNN Portugal, o historiador alemão faz um balanço do annus horribilis 2025 e tenta antever o que poderá marcar 2026, num momento de tensões geopolíticas e imprevisibilidade em crescendo. “Enquanto cidadão, considero a nossa direção problemática e, enquanto académico, também acho que existem bons argumentos históricos para considerar isto problemático”, diz sobre o que considera ser o maior desafio deste ano – e para lá dele
Há um ano, a CNN entrevistou Kiran Klaus Patel, historiador da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique, na Alemanha, para um balanço de 2024 e uma antevisão de 2025. Um ano depois, essa entrevista serve de ponto de partida para uma nova conversa sobre a atual situação geopolítica, a começar pelos Estados Unidos da América (EUA) de Donald Trump. “Esperava que a política externa dos EUA fosse ousada, mas não com este nível de agressividade, o nível de iliberalismo a que temos assistido. E a crise nos EUA e na ordem internacional é realmente chocante”, destaca o investigador da Royal Historical Society.
Numa altura em que a Europa se encontra numa posição “demasiado fraca para simplesmente ignorar os EUA ou propor uma alternativa clara às políticas americanas” de Trump, porque os políticos do continente “são cuidadosos com as palavras que usam para não fazer parecer que é uma crise muito grande”, a questão, adianta, é que chegou a hora de tirar a cabeça da areia e “reconhecer a mudança drástica que estamos a presenciar”.
Apesar da nova doutrina dos EUA, que demonstram como esta administração se encara como “o centro do mundo”, o historiador alemão acredita que “ainda é possível ver a situação sob duas perspetivas” – a do copo meio cheio e a do copo meio vazio. Dá como exemplo o facto de, a meses de se completarem quatro anos da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, “o país mantém o seu espírito e a União Europeia (UE) continua unida em apoio a Kiev”, algo “impressionante e algo de que a Europa se deveria orgulhar. Poderia sempre ser melhor, poderia ser mais, mas quatro anos não é coisa pouca”.
No futuro, “a Europa precisa de formatos mais criativos e diferentes” para encontrar o seu lugar na nova ordem multilateral, adianta Klaus Patel, mas o trabalho que o continente tem pela frente está longe de estar terminado, e nada deverá ficar resolvido nem definido em 2026. “Vai ser complicado, vai ser difícil e, até certo ponto, não vamos ter uma estrutura clara e definitiva. Mas acho que soluções improvisadas são o melhor que podemos obter neste momento.”
Reputado historiador da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique, na Alemanha, Kiran Klaus Patel fundou e dirige o Projeto Casa Europa na mesma universidade e é investigador da Royal Historical Society; para 2026, revela à CNN, está prevista a publicação em português do seu livro mais recente sobre a história da UE. foto The Review of Democracy
O título da nossa entrevista no ano passado foi esta sua frase: “Há duas coisas de que podemos ter a certeza – Donald Trump vai surpreender-nos e não seguirá uma abordagem coerente”. A maioria das pessoas dirá que acertou na muche. Um ano depois, que avaliação faz do arranque da segunda administração Trump e da atual situação mundial?
O que vimos foi que as coisas pioraram. A relação transatlântica é um exemplo disso, mas também muitos outros problemas dentro dos EUA, é claro, com tensões políticas, políticas de imigração mais rígidas, a ascensão de políticas antiliberais, ameaças e violações da lei da liberdade de expressão e por aí fora. Honestamente, está pior do que imaginava.
Aqueles de nós que se esforçaram por se informar e conversar com pessoas sobre o que estava para vir sabiam que haveria um plano e que este governo Trump estaria muito mais bem preparado do que o anterior para realmente executar as suas políticas, incluindo criar um certo caos como parte do processo de formulação de políticas, com cortinas de fumo e jogos de espelhos para diluir a atenção dos problemas reais. Mas o nível de iliberalismo a que temos assistido e a crise, tanto nos EUA quanto na ordem internacional liberal, é realmente chocante. E provavelmente todos nós já começámos a ambientar-nos a este mundo, claro.
Os políticos, particularmente na Europa, são cuidadosos com as palavras que usam para não fazer parecer que é uma crise muito grande, porque também é claro que a Europa é demasiado fraca para simplesmente ignorar os EUA ou propor uma alternativa clara às políticas americanas. Mas temos de reconhecer a mudança drástica que estamos a presenciar. Novamente, não é como se o número 2025 fosse o único divisor de águas, já vínhamos a prever isto há algum tempo. Mas houve uma aceleração de tendências anteriores com uma velocidade imensa e também com uma qualidade imensa em 2025.
A administração Trump acaba de apresentar a sua Estratégia de Segurança Nacional, que marca um novo paradigma refletindo as mudanças que refere. Fala-se na Doutrina Donroe, o recuperar da Doutrina Monroe do século XIX, mas aplicada a este século e a esta era, com D de Donald. Como olha para o impacto deste documento do ponto de vista do seu potencial geopolítico?
Começando pela Doutrina Monroe, que também tem referências no documento, é muito interessante que também exista algo chamado Corolário Roosevelt, que vem de Teddy Roosevelt, que para aqueles que estudam a política externa americana e as suas tradições é claro, mas que não é mencionado no documento, saltam diretamente de Monroe para Trump. E isso, claro, parte da auto obsessão desta administração e do seu presidente, que se veem como o centro do mundo. Para além de que é uma tradição problemática que qualquer pessoa, também da perspetiva da América Latina, sempre enfatizaria, porque a Doutrina Monroe não é vista como algo obviamente positivo, também tem sido associada, particularmente nas repúblicas americanas do século XIX, a uma empreitada imperialista dos EUA.
Para responder à sua questão, o que vemos é, em certa medida, um retorno às políticas e à política do século XIX. Assim, testemunhamos a crise definitiva do sistema internacional baseado em regras, onde a cooperação internacional e multilateral era vista como um princípio fundamental e onde o direito internacional e as organizações internacionais eram considerados pilares essenciais. Isso remete para a ideia de enfatizar os interesses nacionais, definindo esferas de influência nacionais, sendo que este é apenas um documento de um país. Só que, claro, dado o papel dos EUA no cenário mundial, tem impacto noutros países.
“É muito interessante que o chamado Corolário Roosevelt, que para aqueles que estudam a política externa americana e as suas tradições é claro, não seja mencionado [na nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA], saltam diretamente de Monroe para Trump.” foto Getty Images
Passámos 2025 a debater se estamos num mundo novamente bipolar, se numa ordem multilateral, se é um regresso à Guerra Fria ou se é uma desordem total… Com o que é que estamos a lidar e como é que essa realidade pode mudar ou aprofundar-se em 2026?
O que vemos é um sistema multipolar. Há, claro, a China, mas a Rússia não é apenas uma emanação das políticas chinesas. E ainda pode haver esperança de que a Europa também tenha uma voz nesse jogo. Também não devemos esquecer-nos do papel de países como o Brasil e a Índia. Nesse sentido, não se trata apenas do antigo sistema bipolar.
As referências históricas nunca são totalmente corretas. Tudo será sempre forçosamente diferente do passado. Mas diria que está mais próximo do século XIX do que do sistema da Guerra Fria, onde havia um sistema bipolar bem definido e também, aliás, um certo nível de racionalidade de ambos os lados, tanto nos EUA quanto na União Soviética, ao passo que a arbitrariedade das políticas de Trump não é, obviamente, apenas um efeito de caráter, mas também uma estratégia para fechar os melhores acordos possíveis, manipulando as outras partes e priorizando acordos de curto prazo em vez de estratégias de longo prazo.
Também acho interessante que as temporalidades estejam a mudar. Trata-se mais do aqui e agora e do nós, do que de objetivos de longo prazo e da busca por soluções comuns onde há um pouco de concessões de parte a parte, e em que as gerações futuras são tidas em conta. Nesse contexto, a crise climática, que se torna cada vez mais urgente, obviamente, também foi deixada de lado nos EUA pelas políticas da administração. Mas vemos uma tendência nesse sentido também na Europa.
Ainda sobre a Estratégia de Segurança Nacional: o comediante John Stewart fez um resumo muito perspicaz do documento, a piada era mais ou menos que o mundo agora é governado por uma espécie de famílias da máfia que repartem territórios entre si, em que a Rússia pode ficar com a Ucrânia, a China eventualmente com Taiwan e os EUA ficam com a Venezuela. Acabamos este ano com uma potencial invasão iminente da Venezuela, com outros potenciais conflitos à vista, e com guerras como a da Ucrânia e de Gaza sem fim à vista, apesar de Trump se gabar de ter acabado com vários conflitos armados. O que pode acontecer em todas estas frentes de guerra?
Isso basicamente demonstra que qualquer ideia de ter respostas rápidas para conflitos que muitas vezes têm uma história de décadas está completamente errada. Além disso, mostra que as esperanças de Trump e as suas declarações antes de se tornar presidente, de que poderia acabar com a guerra na Ucrânia num dia, eram completamente ingénuas, e ele e os seus assessores deveriam saber disso. Portanto, mesmo que ele desejasse um tipo de solução ou outro, mesmo que extremo, seria impossível. E o mesmo se aplicará a muitos outros conflitos.
No caso daqueles em que Trump afirma ter criado a paz, vemos que continuam latentes ou voltaram a eclodir. Portanto, nada do que surgiu disso é duradouro. Trata-se mais de criar belas imagens para o presente. E ainda há esta obsessão com o Prémio Nobel da Paz, mas não se trata de nada sustentável. O que antecipo para 2026 e além é que teremos de lidar com um mundo em crise com múltiplos conflitos. Não podemos esquecer-nos do Sudão e da situação em África, além dos conflitos mencionados. A guerra no Sudão é uma das piores, senão a pior crise da atualidade.
Estamos a viver num mundo onde precisaríamos de mais cooperação e esforços conjuntos para encontrar soluções pacíficas e sustentáveis, que levam tempo, que buscam negociações mais longas entre as diferentes partes, mas infelizmente, afastámo-nos desse tipo de mundo, hoje as vitórias rápidas e as demonstrações de relações públicas imediatas são mais importantes.
Pegando ainda nesta ideia de Trump ser menos intervencionista do que os seus antecessores – ele tinha todo aquele discurso sobre o Afeganistão ter sido um erro, e assim por diante – essa ideia também está a provar-se errada, porque, por um lado, ele quer retirar as tropas americanas de alguns lugares, enquanto, por outro, tem planos muito agressivos, planos neoimperialistas, seja agora, novamente, na Venezuela, seja também… a Gronelândia é um exemplo que me vem à mente [entre a condução desta entrevista e a sua publicação, Trump nomeou um enviado especial para a Gronelândia, fazendo aumentar os receios de uma potencial anexação].
“A ideia de Trump como menos intervencionista também está a provar-se errada; por um lado, quer retirar as tropas americanas de alguns lugares, por outro tem planos muito agressivos, planos neoimperialistas, seja na Venezuela, como referiste, seja na Gronelândia, outro exemplo que me vem à mente.” foto Christian Klindt Soelbeck/AP
Ia precisamente perguntar pelo Ártico, porque há uma série de interesses a confluir ali e Trump arrancou o mandato a sugerir que poderia tomar a Gronelândia à força…
Certo, o que também coloca o direito internacional sob extrema pressão. E se a principal potência ocidental não respeita mais essas regras internacionais, então estamos realmente a voltar para a selva.
Há um ano, disse que a reeleição de Trump talvez viesse dar maior importância à UE enquanto derradeira representante dessa ordem multilateral liberal. Um ano depois, muitos argumentariam que a UE falhou em cumprir o seu papel, sendo que as negociações em curso sobre a Ucrânia são apenas um dos muitos exemplos que o comprovam. 2026 será um ano ainda mais desafiante neste sentido, a guerra na Ucrânia continua sem fim à vista, a ameaça russa mantém-se, temos de fortalecer as nossas capacidades de defesa, reforçar as nossas indústrias e, ao mesmo tempo, evitar graves problemas económicos. Se até agora não temos sido capazes de lidar com tudo isto, o que podemos esperar de 2026?
As esperanças que tinha em relação à UE no ano passado também estavam ligadas a um período em que esperava que a política externa dos EUA fosse ousada, mas não com este nível de agressividade, como acabámos de mencionar sobre a Gronelândia, por exemplo. Esperava-se que os EUA fossem menos intervencionistas noutras partes do mundo, mais autocentrados e orientados para políticas internas, o que também é uma parte importante do campo MAGA, que detesta o intervencionismo defendido por Trump. Mas o que aprendemos foi que, novamente, a arbitrariedade e a grande variedade de abordagens também têm esta dimensão agressiva a nível internacional.
Agora, mais uma vez, isso colocou a UE sob muita pressão, o mundo não só se tornou menos seguro, como os EUA se retiraram de certos laços transatlânticos, e a segurança tornou-se ainda mais importante. Em segundo lugar, sabemos muito mais sobre as ameaças russas à segurança da NATO hoje do que sabíamos há um ano.
A UE está em crise. Gosto de usar metáforas e o que vemos é uma UE que, na sua história, foi treinada para ser um futebolista fantasticamente bom, ou seja, jogava o jogo económico com base nas regras da cooperação internacional, da globalização, com uma certa dose de neoliberalismo. E o que temos agora é que, de repente, este futebolista fantasticamente treinado está num jogo de râguebi. Os jogos mudaram, as regras do jogo mudaram e este é um jogo completamente diferente, por assim dizer, onde, novamente, a segurança importa muito mais e o poder coercitivo importa muito mais – todas as coisas que a UE não faz bem ou não sabe fazer.
É esta a crise em que a UE se encontra e não haverá uma solução rápida para isso. Mas o que é notável é que ainda é possível ver a situação sob duas perspetivas. Uma é a do copo meio vazio, em que a UE é absolutamente incapaz de lidar com as novas ameaças à segurança e de fornecer o que precisa de ser fornecido em termos de segurança, por exemplo. Por outro lado, também é incrivelmente abrangente, porque se olharmos para trás, há cinco ou dez anos apenas, podemos observar o que a UE foi capaz de fazer, inclusive na área da segurança. É impressionante a quantidade de novos poderes que adquiriu e que ainda se mantêm.
Seria completamente errado ignorar que a UE está a tornar-se mais poderosa à medida que falamos e está a tentar resolver certos problemas, mesmo que à maneira tipicamente europeia, com longas e tortuosas negociações, compromissos complexos, onde há muitos perdedores e alguns vencedores. Mas também devemos olhar para o copo meio cheio, ver que ela ainda existe. O que considero o próximo passo mais importante é pensar com mais clareza e realismo sobre uma divisão de trabalho.
Em que sentido?
Uma divisão do trabalho entre diferentes fóruns internacionais. Se analisarmos o ADN, os poderes e a história da UE, vemos que ela pode fazer estas coisas muito bem – retomando a analogia, voltar mais para o âmbito do futebol, ou seja, cooperar economicamente, tentar cuidar de certas outras dimensões, incluindo questões de direitos humanos, e aí por diante. E também pode usar esses poderes para fomentar capacidades militares no sentido de armamento, cooperação e apoio à indústria, embora ache que não será a instituição que nos fornecerá segurança diretamente, ou seja, não vamos ter um exército europeu.
É nesse sentido que falo na divisão do trabalho. E penso que a Europa também precisa de formatos mais criativos e diferentes, talvez uma NATO sem os EUA, ou outros fóruns que reúnam os britânicos, os noruegueses, que agora também fazem parte de algumas estruturas, a Suécia…
“Penso que a Europa também precisa de formatos mais criativos e diferentes, talvez uma NATO sem os EUA, ou outros fóruns que reúnam os britânicos, os noruegueses, a Suécia…” foto Alex Brandon/AP
A dita coligação dos países dispostos…?
Sim, que também é algo nas linhas da NATO sem os EUA, que é algo de que precisamos. E aí os europeus, europeus com caixa baixa e não alta, também têm de pensar sobre o assunto proactivamente. Vai ser complicado, vai ser difícil, e até certo ponto não vamos ter uma estrutura institucional clara e definitiva. Mas soluções improvisadas são o melhor que podemos obter neste momento. Elas também mostram que questões importantes e urgentes têm sido ignoradas há muito tempo – e que este não é o momento de resolvê-las.
Em 2026 vamos ter eleições na Hungria e muitos estão a encarar a possibilidade de Viktor Orbán ser derrotado nas urnas como uma chance de fortalecer a UE, tirando de cena aquela que tem sido a grande força bloqueadora no bloco. Acredita nessa possibilidade caso Petér Magyar derrote Orbán?
Diria que, para que a Hungria possa voltar a uma direção democrática mais liberal, há a Eslováquia, para começar. E se observarmos o que aconteceu na Polónia, onde o governo do PiS teve de sair do poder, o que vemos é que, também com o atual presidente e outros fatores que foram alterados durante o governo do PiS, é extremamente difícil desfazer as mudanças iliberais que foram instituídas. O mesmo vale para a Hungria.
Por esse motivo, não seria muito otimista de que teremos formas mais fáceis de encontrar consenso. Novamente, não estamos a fazer isso apenas para hoje. E nesse sentido, não quero referir-me muito ao passado, mas também vimos cláusulas de exclusão não apenas por parte da Hungria. Temos este grupo a formar-se na UE que continuará a criticar duramente o forte apoio da UE à Ucrânia, por exemplo.
Tudo isto é um processo que levará tempo. E há quem argumente que a UE não tem hipóteses de ser um jogador global forte sem a Alemanha voltar a ser uma grande potência económica e militar. Concorda com esta análise ou está, de alguma forma, obsoleta quando pensamos na Europa hoje? E que balanço faz deste primeiro ano de chancelaria Merz?
Novamente, é uma ideia um pouco obsoleta, porque um país sozinho não consegue resolver o problema. A Europa não funciona sem a Alemanha. Mas nunca diria que tudo se resume à Alemanha, a ponto de fazer uma grande diferença.
Quanto à chancelaria: o que tem corrido bem é que este novo chanceler tem sido mais proativo em tentar abordar, até certo ponto, os novos desafios e ser mais claro, tanto no país, sobre quais são os desafios e as ameaças que enfrentamos, quanto fora, em tentar construir coligações, por exemplo, com aquela infame viagem aos EUA no Verão, que certamente nenhum destes políticos gostou de fazer – ter de estar naquela sala com Trump e ser tratado quase como crianças, por assim dizer.
Por outro lado, também considero problemático que este chanceler demonstre uma falta de esforço na construção de coligações. As decisões que ele tomou em dezembro e na preparação dessa cimeira são outra evidência de que ele teve uma ideia muito clara sobre como isto deveria prosseguir.
Fala da negociação sobre os ativos russos congelados, que Berlim e a Comissão Von der Leyen queriam usar para financiar Kiev?
Sim, os ativos congelados. E acho que não foi muito inteligente Merz fazer isso em primeira instância. Era evidente que encontraria forte resistência. E embora na imprensa alemã o governo tenha apresentado isso como um sucesso para a posição alemã, basicamente, não foi. E acho que era fácil prever isso. Teria sido muito mais necessário construir coligações e esse é, claro, um dos grandes desafios também para 2026.
Vemos que o governo francês também está extremamente enfraquecido por muitos motivos, com Macron prestes a deixar o cargo numa posição extremamente impopular dentro do país. O governo alemão também lida com lutas internas na coligação e, claro, está enfraquecido pelo desempenho económico muito fraco do país. E não há outro parceiro óbvio, no antigo contexto da UE poderia ter sido o Reino Unido, que entretanto saiu. A Polónia, como acabámos de falar, também está bastante fraca.
Seriam necessários dois ou três parceiros, incluindo a Alemanha, que tentassem, em conjunto, direcionar as coisas para um determinado rumo. E não é isso que vejo a acontecer. É interessante notar que, mais uma vez, Meloni, na Itália, é uma figura bastante influente em toda esta conjuntura, o que também reflete a fragilidade dos demais. O facto de Alex Stubb, presidente da Finlândia, ter desempenhado um papel tão proeminente é ótimo para ele, mas também reflete uma certa fragilidade na capacidade de formação de coligações entre as principais potências na UE.
“Não foi muito inteligente Merz [tentar forçar o uso dos ativos russos congelados] em primeira instância. Era evidente que encontraria forte resistência. E embora na imprensa alemã o governo tenha apresentado isso como um sucesso para a posição alemã, basicamente, não foi, e acho que era fácil prever isso. Teria sido muito mais necessário construir coligações e esse é, claro, um dos grandes desafios também para 2026.” foto Maryam Majd/AP
Regressando à volatilidade geopolítica para lá da UE. É já em janeiro que o derradeiro acordo de controlo de armas nucleares entre os EUA e a Rússia, o NEW Start, vai expirar, sem prolongação nem substituto à vista – isto depois de 2025 ter ficado marcado por renovadas ameaças nucleares e a ordem de Trump para que os EUA retomem os testes nucleares. Há quem veja isto como o prenúncio de uma nova corrida global ao armamento, outros mantêm dúvidas e dizem que são apenas cortinas de fumo. Qual é a sua opinião? Vamos assistir a uma nova corrida armamentista em 2026?
É difícil perceber o que é conversa e o que é ação. Mas pelo que vemos, é bem provável que a Rússia esteja a encetar grandes esforços, não sei quão bem-sucedidos, para expandir as suas capacidades nucleares. Tenho a certeza de que também há uma cortina de fumo nas últimas declarações de Putin quanto ao nível de alerta da Rússia e às capacidades das suas forças nucleares. Mas acho que tudo isto, é importante ter isto em mente, também incentiva outros países, além destes dois, a reforçarem as suas capacidades nucleares ou a construírem novas. O Irão seria apenas um exemplo, e não podemos esquecer-nos da Coreia do Norte…
E ainda temos a China, que já tem vindo a reforçar o seu arsenal há muito tempo…
Exato, era o próximo da minha lista. Nesse sentido, estamos a assistir a outra corrida armamentista, mas não é mais uma corrida armamentista bipolar, bilateral. Além disso, isto parece confirmar a minha ideia de que estamos a encaminhar-nos numa direção muito mais multipolar, logo ainda mais perigosa, onde qualquer governo insano pode ameaçar a paz e a própria vida neste planeta, a um ponto que é muito difícil de imaginar. E portanto, qualquer esforço que possa trazer isto de volta ao nível de negociações internacionais será mais do que bem-vindo. Mas não vejo que isso seja particularmente realista. Embora seja algo que adoraria ver, não acho que vá acontecer em 2026.
Gostava de abordar os desafios tecnológicos: por um lado, os relacionados com a Inteligência Artificial (IA), que também já tínhamos discutido no ano passado, mas também a questão das plataformas digitais e as rede sociais. 2025 começou com Mark Zuckerberg a seguir o caminho de Elon Musk na X e a acabar com o fact-checking no Facebook logo em janeiro. E há pouco tempo vimos a UE ceder às pressões de Trump quanto às regras de supervisão e privacidade nestas plataformas, pelo menos parcialmente – sendo que o ano fechou com os EUA a fazerem novas ameaças aos europeus. O que podemos esperar neste campo em 2026?
Não esperaria nenhuma mudança fantasticamente grande. A questão quanto à IA mantém-se, sobre a chamada bolha da IA e se vai rebentar, o que nos conduziria a uma enorme crise económica. Sou um historiador, o meu conhecimento desta área é limitado, mas pelo que tenho lido não diria que este seja um cenário provável, que a bolha vá rebentar. Nesse sentido, penso que vamos assistir a uma continuação das querelas legais e regulatórias também entre os EUA e a Europa. E a Europa, claro, está numa posição cada vez mais frágil para insistir em controlos rigorosos.
O que também vimos é que não há um nível de soberania na UE, ou na Europa em geral, no que diz respeito a alternativas claras a todas as plataformas digitais fornecidas não só no setor financeiro, mas também na comunicação, por empresas americanas. Nesse sentido, se quisessem, essas plataformas poderiam desligar-nos da ficha facilmente, não apenas em questões de segurança, mas também em muitas outras coisas que não se resumem a lazer e a comunicar por diversão, mas que têm também a ver com pilares fundamentais das nossas economias.
Também nesse aspeto, sei que a Comissão tem muito cuidado para não exagerar, porque sabe que, no fim de contas, a Europa está numa posição muito mais frágil do que gostaria. E desenvolver essas capacidades é algo que a UE almeja, mas que não pode ser feito da noite para o dia. Portanto, não haverá mudanças fundamentais no prazo de um ano, até porque não é um ano em que a economia esteja a ir excecionalmente bem, o que nos daria muito dinheiro extra para desenvolver essas capacidades e ainda dar resposta a todos os outros desafios, como por exemplo o reforço da segurança e o apoio à Ucrânia que, obviamente, também consomem muitos recursos.
“Não há um nível de soberania na UE, ou na Europa em geral, no que diz respeito a alternativas claras a todas as plataformas digitais fornecidas não só no setor financeiro, mas também na comunicação, por empresas americanas. Se quisessem, essas plataformas poderiam desligar-nos da ficha facilmente.” foto Julia Demaree Nikhinson, Pool/AP
Há quem defenda que a fiscalização digital e o combate às alterações climáticas são as duas áreas em que a UE, mesmo em crise, ainda pode desempenhar um papel importante para nos manter no rumo certo. No ano passado, apontava as questões ambientais como o grande desafio global sem resposta e isso não mudou em 2025. Pelo contrário, assistimos a coisas algo surpreendentes até, por exemplo, ver Bill Gates argumentar que devemos mudar o foco das alterações climáticas para a melhoria das condições de vida das populações, e analistas a defender que este tópico deve ser posto de parte pelos políticos moderados se querem derrotar o populismo. De outro prisma, o chamado Sul Global está a apostar em força em tecnologia limpa e muitas empresas estão perto de atingir ou até superar as suas metas climáticas. Como olha para tudo isto?
Essa análise sumariza muito bem os desenvolvimentos do último ano. E fico muito feliz por voltarmos à questão ambiental nesta entrevista, porque penso que há uma tendência para marginalizar este assunto.
Para mim, como historiador, trata-se da diferença entre preocupações de curto prazo e preocupações de longo prazo, entre a responsabilidade para com o agora, o imediato, o que está próximo, e o longo prazo, o menos imediato e talvez também o mais distante geográfica e temporalmente. Mas continuo a pensar que, em três ou quatro gerações, as pessoas vão olhar para trás e pensar: o que é que vocês fizeram na década de 2020 em relação ao clima? E nessa altura muitas das outras questões com as quais estamos realmente preocupados – e por bons motivos – já terão sido esquecidas há muito.
Como pessoas que têm a sorte de viver neste planeta, temos uma grande responsabilidade nisso. E concordo que a UE pode ser uma força para o bem neste contexto. Mas, mais uma vez, o que temos visto é que a UE não tem uma vontade ou direção claramente definidas, novamente, é uma plataforma onde diferentes forças se desenvolvem. E, mais uma vez, dado o crescimento de partidos e governos populistas e de extrema-direita nos Estados-Membros – também refletido, por exemplo, nas últimas eleições para o Parlamento Europeu – não é de surpreender que a prioridade dada às políticas climáticas também tenha sido reduzida. Vemos isso nos objetivos para 2040, por exemplo, vemos isso na discussão recente sobre energias fósseis e sobre a indústria automobilística…
Acabámos de ver a UE a abandonar uma das suas grandes metas, de acabar com a produção de novos carros a combustão até 2030.
Exato. O que vemos claramente, e em primeiro lugar, é que a UE está muito menos rigorosa do que em 2019 e 2020. Aí tivemos a pandemia, claro, e o que veio depois e as preocupações mais imediatas, incluindo o apoio à Ucrânia, que endosso fortemente, também desviaram a nossa atenção desse objetivo extremamente importante a longo prazo.
O que temo para 2026 é uma continuação nessa linha, que revertamos ainda mais o rumo e priorizemos objetivos económicos supostamente de curto prazo em detrimento de objetivos ecológicos de longo prazo. O interessante é que, às vezes, acho que isto é visto como um jogo de soma zero, ecologia vs. economia, quando isso também está errado – podemos conversar com qualquer líder empresarial e eles confirmarão que fazem planos de longo prazo. E se eles se preparam para uma era pós-fóssil, essa é uma estratégia de longo prazo e de grande impacto. Se agora temos uma reversão, pelo menos parcial, isso também não agrada à indústria.
Um plano claro, talvez ambicioso e radical, se executado durante um longo período e que crie uma estrutura para os atores empresariais, é muito melhor, na minha opinião, do que essa reversão, é claro – não apenas porque acho que devemos cumprir as metas ambientais, mas também porque isso cria incertezas e pode até, contas feitas, diminuir a produção empresarial e o crescimento económico. É por isso que considero isto problemático.
Vivemos em democracias, a UE tem níveis de controlo democrático, e todos nós, enquanto cidadãos, devemos questionar-nos, também ao longo de 2026, se gostamos das políticas que estamos a ver desenrolar-se nos Estados-membros e ao nível da UE. Enquanto cidadão, considero a nossa direção problemática e, enquanto historiador e académico, também existem bons argumentos históricos para considerar isto problemático. Essas serão questões-chave que as gerações futuras vão ter para nós.
“Isto é visto como um jogo de soma zero, ecologia vs. economia, quando isso também está errado – podemos conversar com qualquer líder empresarial e eles confirmarão que fazem planos de longo prazo. E se eles se preparam para uma era pós-fóssil, essa é uma estratégia de longo prazo e de grande impacto. Se agora temos uma reversão, pelo menos parcial, isso também não agrada à indústria.” foto Michael Probst/AP
Há um ano disse que estava “profundamente preocupado” quanto ao futuro. De certa forma foi deixando subentendido nesta conversa que continua preocupado, mas em jeito de conclusão gostava de lhe perguntar se está ainda mais preocupado ou se o nível de preocupação se mantém inalterado?
O mundo foi de mal a pior, basta olhar para estas questões de segurança, para esta corrida ao armamento nuclear que abordámos, para os novos níveis de agressão internacional, que são apenas uma preocupação – sendo as questões ambientais outra.
É correto estarmos preocupados. Mas, novamente, a diferença para mim ainda está entre estar frustrado, imóvel e simplesmente com medo, ou em ver isto como um momento em que as coisas têm de ser feitas. O que não devemos fazer é esperar por uma grande e bela solução que resolva tudo. Temos de conviver com soluções pragmáticas, às vezes também soluções improvisadas, no meio de conflitos, e ser criativos em relação às abordagens políticas, talvez também engolindo comprimidos amargos de vez em quando, incluindo não dizer diretamente a Donald Trump o que pensamos sobre ele.
Há sinais de esperança, por exemplo, as eleições intercalares nos EUA, quando o apoio a este presidente é muito menor do que era há um ano. Claro que ninguém sabe o que vai acontecer nas intercalares, se os democratas vão vencer em massa e os republicanos perder, se os procedimentos democráticos ainda estarão em vigor… Essa é uma das razões para estarmos preocupados. Mas ainda assim, o que vemos aqui e ali também é um ímpeto de mudança.
Como é que diria que as pessoas comuns podem encontrar consolo, encontrar formas de contrariar esta visão fatalista que, de certa forma, nos impede de agir e de reagir?
Estamos quase a chegar a quatro anos de guerra na Ucrânia e que, depois destes anos todos, o país mantém o seu espírito e continua a lutar com todas as suas forças contra a agressão russa, e a UE continua unida em apoio a Kiev. Isso é impressionante e é algo de que a Europa se deveria orgulhar. Poderia sempre ser melhor, poderia ser mais, mas quatro anos foi a duração da I Guerra Mundial e não é coisa pouca.
Não devemos falar apenas de políticos e de políticas, mas também de cidadãos comuns – talvez convidar alguém para almoçar, para jantar, ou ajudar doando dinheiro, empregar um refugiado da Ucrânia, para pegar no exemplo dessa guerra, todas essas pequenas coisas somadas… São tudo pequenos sinais de esperança e gestos e coisas que todos podemos fazer para marcar a diferença. Ver a situação como problemática não deve impedir-nos de fazer coisas pequenas e grandes. E todos podemos começar pelas nossas próprias vidas, tentando fazer uma pequena diferença aqui e ali e, a partir daí, ir crescendo.