
“Foi uma enorme surpresa ver que era um lobo e não um cão”. Descoberta aponta para convivência nunca antes vista de lobos com humanos.
Numa ilha remota acessível apenas por barco e sem mamíferos terrestres nativos, investigadores encontraram ossos de lobos antigos e levantaram de imediato a questão: como é que estes lobos lá tinham chegado?
O mistério ainda não tem resposta, mas está certamente a fazer os cientistas repensar a relação entre humanos e lobos na Idade do Bronze e reavaliar o que se julga saber sobre os primórdios da domesticação canina.
Os restos encontrados numa gruta datam de há cerca de 3.000 a 5.000 anos. Para a equipa científica, o contexto é decisivo: a presença de lobos num local que não poderia ter sido alcançado por via terrestre indica que estes animais terão sido transportados por pessoas, num episódio deliberado e não acidental.
Além disso, vários indícios apontam para uma convivência relativamente pacífica com a população humana local, em vez de um cenário de perseguição ou conflito.
“Encontrar estes lobos numa ilha remota é completamente inesperado”, admite Linus Girdland-Flink, da Universidade de Aberdeen, um dos autores do estudo, à IFL Science. Segundo o investigador, os animais tinham uma ancestralidade indistinguível de outros lobos euro-asiáticos, mas parecem ter vivido lado a lado com humanos, alimentando-se da comida disponível nas comunidades.
O trabalho recorreu também a análises genéticas, que reforçam a ideia de uma população isolada e estável ao longo de várias gerações. Os ossos sugerem que os lobos tinham corpos mais pequenos do que os típicos (algo frequentemente associado ao isolamento em ilhas) e os dados genómicos revelam uma diversidade genética invulgarmente baixa. Anders Bergström, da Universidade de East Anglia e coautor do artigo, sublinha que este padrão é compatível com populações sujeitas a “estrangulamentos” demográficos ou com organismos domesticados.
Embora não seja possível excluir explicações naturais, a equipa defende que o resultado aponta para interações e formas de gestão humana que não tinham sido consideradas até agora.
Os investigadores não conseguem determinar no entanto se os lobos eram animais de estimação, semi-selvagens ou outra categoria qualquer pelo meio, de acordo com o estudo publicamas os humanos terão partilhado recursos alimentares como peixe e focas com eles, e há sinais de que alguns animais poderão ter recebido cuidados quando estavam feridos.
“Foi uma enorme surpresa ver que era um lobo e não um cão”, disse Pontus Skoglund, do Francis Crick Institute, autor sénior do estudo.