Uma árvore fala directamente com o leitor assim que este abre o livro. “Morri numa tarde de Novembro. Agora tento ressuscitar.” Apresenta-se depois como “a nogueira da Maricruz”, nome da proprietária do terreno em que cresceu e viveu.
“Junto a um poço, um loureiro e uma escola”, acrescenta. Informa ainda que se alimentava do sol e da chuva, da terra e da água do poço. Outro dos seus alimentos preciosos eram “os risos das crianças no recreio”.
Será uma delas, de nome Áfrika, que conseguirá salvá-la depois de um forte temporal que a derrubou: “Caí para o lado sul. (…) Tombei rendida com um sussurro de folhas e uma pancada seca contra o solo, de raízes no ar.”
“Os dois, árvore e criança, são o futuro”
O escritor Gonzalo Moure, que escreve de forma clara e poética, envolvendo imediatamente o leitor e contagiando-o com os seus pontos de vista, revela numa nota biográfica que a sua mãe amava as árvores e lhe deixou por herança “esse mesmo amor e uma colecção de livros sobre bosques”.
Conta que plantou muitas árvores na vida e que escreveu um dos seus primeiros livros à sombra de uma pereira muito velha. E diz: “Para os meus olhos já velhos, uma criança é o mesmo que uma árvore: continuará cá quando eu já não estiver, verá coisas em que eu agora não acreditaria, porque os dois, árvore e criança, são o futuro.”
“Morri numa tarde de Novembro. Agora tento ressuscitar”
Araiz Mesanza
Por isso, decidiu contar esta história verdadeira de uma nogueira que crescia junto à escola da sua aldeia nas Astúrias e que tinha sido “arrancada do chão pelas garras do vento” no Inverno. Viu famílias tristes a aproximarem-se da árvore como se fosse um velório. O seu destino parecia ser a motosserra, a lenha, o fogo.
No dia seguinte, avisado de que uma família, motivada por uma criança, estava a transferi-la para uma quinta sua perto do mar, foi observar o transporte e a replantação junto a uma nogueira mais velha. “Agora, enquanto escrevo, já é Primavera, e a nogueira está a brotar, entre matas de arandos recém-plantadas. Passei o Inverno com medo. Iria sobreviver? Está viva. Quem não teria vontade de contar algo tão bonito?”
“As árvores não morrem de imediato”
Também a ilustradora, Araiz Mesanza, de Vitoria-Gasteiz (País Basco, Espanha), nos dá conta de uma infância ligada à natureza: “Passei todos os Verões com o meu pai, a minha mãe e a minha irmã entre faias e rios, e uma tenda de campismo.”
Passei o Inverno com medo. Iria sobreviver? Está viva. Quem não teria vontade de contar algo tão bonito?
Gonzalo Moure
Sempre desenhou árvores e as suas imagens transmitem paz e serenidade, mesmo numa atmosfera algo triste. Estudou Belas-Artes em Bilbau e especializou-se em Ilustração na Escola Massana de Barcelona. Agora, vive em Oslo (Noruega), onde fez mestrado em Design Gráfico e Ilustração na Academia Nacional das Artes. “Passei muito tempo a olhar para gelo, noites intermináveis e dias intermináveis, e também para salgueiros, pinheiros gigantes e musgo.”
Disse a nogueira, no dia em que caiu, resignada, mas grata: “As árvores não morrem de imediato. A vida continua a circular pelo nosso tronco e pelos nossos ramos, pelas folhas. (…) A vida tinha sido bonita; as minhas nozes doces, a minha sombra fresca. Aceitei o sucedido.”
“O vento foi demasiado forte. Pedi ao deus das nogueiras para não deixar que me arrancasse da terra”
Araiz Mesanza
Agora, deixou de ser a nogueira da Maricruz. Ela e a árvore mais velha que a acolheu e lhe fez chegar fungos bons através dos seus dedos subterrâneos são “as nogueiras da Áfrika”. Juntas, saúdam o sol.
Frase final do livro: “Morri numa tarde de Novembro. Dois dias depois, ressuscitei. Obrigada, menina.”
Lembrar que a vida e a alegria podem voltar a brotar será um bom pensamento para o ano que agora se inicia.
Texto: Gonzalo Moure
Ilustração: Araiz Mesanza
Tradução: Catarina Sacramento
Direcção editorial: Inês Castel-Branco
Edição: Akiara Books (disponível em catalão e em espanhol)
48 págs., 15€
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