Durante décadas, a Venezuela destacou-se na região pelo nível de vida da sua população. Entre as décadas de 1950 e 1980, o petróleo financiou grandes obras públicas, sustentou uma moeda estável e permitiu um poder de compra elevado. Caracas cresceu em altura e modernidade, enquanto o consumo de bens importados tornou-se comum.

Nessa altura, foi destino de muitos portugueses, que viram no país o Eldorado. O equilíbrio começou a ruir no início da década de 1980, quando a queda dos preços do crude expôs a fragilidade de uma economia excessivamente dependente de uma única fonte de rendimento. A desvalorização do bolívar, a inflação e o aumento da pobreza marcaram o período, após anos de endividamento e fraca diversificação económica.

Em 1989, a tensão acumulada chegou às ruas. O aumento dos preços dos combustíveis e dos transportes levou a protestos generalizados, que rapidamente se transformaram em saques e confrontos. O Caracazo deixou centenas de mortos e marcou uma rutura profunda na relação entre o poder político e a população.

Do poder militar ao Palácio de Miraflores

Em 1992, o então tenente-coronel Hugo Chávez liderou tentativas de golpe militar que falharam, mas o tornaram conhecido em todo o país. Em 1998, foi eleito presidente, dando início a uma nova fase política marcada pela aprovação de uma nova Constituição e pelo reforço do papel do Estado na economia.

A subida dos preços do petróleo nos anos 2000 permitiu financiar programas sociais e sustentar elevados níveis de importação. Em simultâneo, registaram-se períodos de forte contestação, incluindo uma tentativa de golpe em 2002 e sucessivas greves. A economia manteve-se centrada no crude, com impacto na produção interna e no investimento privado.

Após a morte de Hugo Chávez, em 2013, Nicolás Maduro assumiu a presidência. A partir de 2014, a queda do preço do petróleo e a diminuição da produção agravaram a situação económica. A inflação acelerou, surgiram faltas generalizadas de bens essenciais e a atividade económica contraiu-se de forma prolongada.

Nos anos seguintes, milhões de venezuelanos deixaram o país, sobretudo em direção a outros países da América Latina. Em paralelo, foram impostas sanções internacionais ao Governo venezuelano, com impacto no setor petrolífero e nas finanças públicas. Segundo a Comissão Económica para a América Latina e as Caraíbas, a economia venezuelana registou crescimento do Produto Interno Bruto em 2024 e 2025, após vários anos de recessão. O petróleo continua a representar a principal fonte de receitas externas do país.

A tensão com os Estados Unidos

Nos últimos dias, os acontecimentos marcaram uma escalada da tensão com os Estados Unidos. Os ataques ocorrem na sequência de forte tensão entre os dois países. Sob as ordens de Donald Trump, Washington vinha aumentando a presença militar nas Caraíbas nos últimos meses e deixou claro que poderia haver um ataque à Venezuela contra o governo liderado por Nicolás Maduro, a quem considera um presidente ilegítimo e que vincula ao narcotráfico. O presidente venezuelano foi capturado por forças norte-americanas, enquanto Caracas confirmou vítimas entre civis e militares e declarou estado de emergência.

O ataque a Caracas representa a sexta intervenção militar norte-americana na América Latina nos últimos 75 anos e a primeira neste século. Ao longo deste período, Washington interveio em várias ocasiões, desde a Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961, quando aviões norte-americanos bombardearam bases cubanas e apoiaram o desembarque da Brigada 2506 com o objetivo de derrubar Fidel Castro, até à República Dominicana, em 1965, quando 20.000 fuzileiros intervieram para reprimir um conflito civil e evitar a instalação de um governo de influência comunista.

Em 1983, os EUA invadiram Granada para derrubar o regime militar que havia tomado o poder dias antes, numa operação justificada por Ronald Reagan como proteção de cidadãos norte-americanos e restauração das instituições democráticas.

Seis anos depois, em 1989, o Panamá foi alvo da operação “Causa Justa”, com 26 mil soldados norte-americanos para capturar Manuel Noriega, acusado de tráfico de drogas, e em 1994 o Haiti recebeu mais de 23 mil militares para permitir o regresso de Jean-Bertrand Aristide à presidência após ter sido deposto por um golpe militar. Quase uma década depois, em 2004, tropas norte-americanas voltariam ao Haiti durante uma revolta armada que provocou a saída de Aristide.

O ataque a Maduro surge neste contexto histórico de intervenções, com impacto imediato sobre a população venezuelana e reações de Governos aliados de Caracas, incluindo Rússia, Cuba e Irão.